À medida que vai avançando entre as casas de um lado e do outro da estrada, o autarca aponta para as pessoas que estão a reparar os seus próprios telhados, em condições de segurança periclitantes, sujeitos a cair de alturas elevadas ou a ferirem-se com cortes pelo contacto com vidros partidos: “Olha aquele senhor ali… É isto, vamos ver pessoas a arriscar a vida para repor as telhas. Mas pronto, é o património deles, não é?”
Uma solução alternativa é esta disponibilização de lonas para atenuar a entrada de água nas casas, antes de dias que se preveem outra vez muito chuvosos. Desamparados e ansiosos, os residentes afetados entram no pavilhão por ordem de chegada, dizem o nome, o número de telefone e uma estimativa da área do telhado que voou. A lona é cortada ali mesmo em cima de uma mesa até ficar com a dimensão necessária. Quem usa a tesoura é o vereador do Desporto.
Foi este vereador que foi bater à porta de casa do presidente da câmara na manhã de quarta-feira, depois de a tempestade ter cortado as comunicações. Acordou-o e avisou que “a cidade estava virada de pantanas”. Gonçalo Lopes começou por achar que era mais um exagero do seu vereador. Assim que saiu de casa, dobrou a esquina e viu a montra da Caixa Geral de Depósitos rebentada, percebeu que afinal ia ser muito pior: “Isto foi mau, foi mesmo à bruta.”
Seguiu direto para o quartel dos Sapadores Bombeiros, o ponto de encontro da equipa em caso de catástrofe e perda de comunicações: “Pedi um café, fiz contas de cabeça, e escrevi num papel a distribuição de tarefas”. Mais do que isso, começou a redesenhar o resto do seu mandato até 2029. Acredita que a recuperação da cidade vai demorar tanto tempo e custar tanto dinheiro que praticamente deitou fora o programa e as promessas com que venceu as eleições para se concentrar naquilo a que já chamou “Operação Reerguer Leiria”.
Iniciou logo também uma espécie de redistribuição de pelouros informal: “O vereador do desporto vai virar vereador da limpeza da cidade. O vereador das obras particulares vai virar vereador da energia para a procura de geradores”.
Ao mesmo tempo, tentava contornar dificuldades práticas: sem comunicações, como é que ia marcar uma reunião com os 20 presidentes de junta do concelho? Dividiu-os pelos vereadores e pediu a cada elemento da sua equipa que fosse pessoalmente de carro buscar 5 presidentes de junta às suas casas.
“Agora fiquei sem telemóvel”, queixa-se o autarca à saída do quartel assim que perde o wi-fi, sentado à direita do motorista no Mercedes da câmara. Como ninguém tem rede, vai ele próprio a caminho de uma fábrica para negociar a compra de lonas, algo que em condições normais resolveria num telefonema de 3 minutos. O mesmo acontece para quase todas as operações: os geradores têm de ser alugados pessoalmente, porque não há outra forma de entrar em contacto com a empresa que é fornecedora habitual da autarquia. Uma forma de negociação tão arcaica e limitadora que leva Gonçalo Lopes a fazer comparações com o tempo dos “sinais de fumo”.
De repente, 36 horas depois do início da catástrofe, aparece finalmente alguma rede no telemóvel do presidente da Câmara de Leiria. Está junto ao estádio, antes de subir a um helicóptero com o comandante nacional da proteção civil para sobrevoar os estragos e confirmar nesta vista aérea a quantidade chocante de edifícios com danos nos telhados.
O momento anterior em que tinha tido rede foi duas horas antes, à saída do quartel dos bombeiros, transformado no novo gabinete do autarca (o edifício da Câmara também ficou danificado no telhado). Até esta quinta-feira à noite o quartel era um dos raros sítios com rede wi-fi num raio de 70 km.