Pedro era um menino de 3, quase 4 anos. Pela movimentação da casa, sabia que seu pai, um diretor de televisão, e sua mãe, atriz, trabalhavam bastante, apesar de não entender o que cada um fazia. Os capítulos das novelas, entregues na porta, eram decorados pela mãe para o dia seguinte. O pai, ocupadíssimo, costumava chegar do estúdio depois que o garoto se entregara ao sono.

Com a mãe, ele via televisão e identificava o seu rosto vez ou outra no vídeo. Por esta época, o garoto acompanhou na cidade de Vassouras, a 120 quilômetros do Rio de Janeiro, parte das gravações da minissérie Presença de Anita, dirigida em 2001 pelo pai, Ricardo Waddington, que tinha a mãe, Helena Ranaldi, no elenco.

Atriz Helena Ranaldi e o filho Pedro Waddington estrelam espetáculo ‘O Retorno’, dirigido por José Roberto Jardim Foto: Taba Benedicto/ Estadão

“A minha personagem sofreria um acidente de carro, eu estava muito maquiada e expliquei ao Pedro como funcionava nosso trabalho para que ele não se assustasse me vendo daquele jeito”, recorda Helena, aos 59 anos. “Eu era a mãe dele, mas, naquela situação, falei que representava uma outra pessoa.”

O ator Pedro Waddington, de 28 anos, se lembra tanto da viagem quanto da conversa e não ficou com medo. Aquele universo fantasioso começava a fazer parte do seu imaginário e ele, menino tímido, cresceu apaixonado por cenas, principalmente as do cinema, assistindo a filmes sem parar na adolescência. “A popularidade da minha mãe apareceu para mim por causa da escola”, comenta. “Os colegas me perguntavam sobre ela e não tinham curiosidade quanto às mães dos outros.”

É carregada de simbologias para a dupla a estreia do espetáculo O Retorno, texto do dramaturgo norueguês Fredrik Brattberg, dirigido por José Roberto Jardim, que pode ser visto no Teatro do Sesc Santana a partir desta sexta, dia 30. Helena e o ator Leonardo Medeiros interpretam um casal que enfrenta o luto pela morte do filho.

Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros interpretam um casal que enfrenta o luto pela morte do filho em ‘O Retorno’ Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Em meio a essa difícil adaptação, Gustav (papel de Waddington) surpreende ao reaparecer diante dos pais e, de repente, desaparecer novamente – repetindo-se esta situação sucessivas vezes. “O texto transita do realismo ao absurdo, chegando a uma ironia ácida”, define o diretor. “O autor foge das respostas porque a única certeza da vida, o lado irreversível da morte, é quebrada o tempo todo na história.”

Partiu de Jardim a ideia de chamar Waddington para se juntar a Helena e Medeiros. O jovem se interessou de imediato por aquela que é a sua primeira peça profissional. “É uma abordagem pouco óbvia do luto que sai do enfoque da melancolia e vai se transformando em algo incômodo”, justifica ele, que se formou em teatro no Célia Helena Centro de Artes e Educação, em São Paulo, e, ano passado, estreou na Rede Globo no remake da novela Vale Tudo.

“Deixa o menino…”. Esta foi a frase que Helena mais ouviu do colega Leonardo Medeiros nos ensaios de O Retorno. Como mãe, ela assume que não é fácil se desligar do que o filho faz no processo e se esforça até hoje para controlar a aflição ou não dar palpites que possam engessá-lo.

“Estou aprendendo a cada dia, como é a maternidade, e tudo o que quero é que ele seja feliz”, repete Helena o jargão de qualquer mãe cobrada pelo zelo. “Lá atrás, o Pedro pensava em ser diretor de cinema, fez curso de ator e gostou, então acho que começou a se encontrar na profissão.”

Waddington esboça um sorriso ao ouvir a mãe falar e, sem poupar a admiração, considera-se um privilegiado de ter o seu apoio em uma hora desafiadora. “Não tem como diferenciar porque ela é minha mãe e colega de trabalho e, para a história da peça, essa é uma questão que só agrega”, diz. “Era acostumado a ver o produto final, mas agora acompanho o desenvolvimento do trabalho dela, assim como aproveito para enxergar a criação do Leo [o ator Leonardo Medeiros].”

Em sua pouquíssima experiência, Pedro Waddington já sentiu a responsabilidade de uma repercussão massiva ao atuar no remake de ‘Vale Tudo’ Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Contraste de carreiras

Helena começou a carreira como modelo de publicidade no fim da década de 1980, passou dois anos no Grupo Macunaíma, dirigido por Antunes Filho (1929-2019), e, logo, despontou nas novelas de televisão. Ao se casar com Ricardo Waddington, enfrentou preconceitos, entre eles o de ser uma ex-modelo e o de ter virado “mulher de diretor”, mas nunca se esqueceu que já carregava um histórico profissional, mesmo que pequeno, quando atingiu o estrelato. “Trabalhar com o Ricardo foi muito bom, mas, por exemplo, em Presença de Anita, ele não me queria para o papel”, conta. “Fui escalada por insistência do Maneco [Manoel Carlos, autor da minissérie].”

Em sua pouquíssima experiência, Waddington já sentiu a responsabilidade de uma repercussão massiva. Sua estreia em Vale Tudo rendeu críticas negativas, principalmente à pouca desenvoltura diante das complexidades do personagem Tiago, filho do empresário Marco Aurélio e da artista plástica alcoolista Heleninha, vividos por Alexandre Nero e Paolla Oliveira. Depois do vendaval, ele confessa que esperava reações negativas e transformou os comentários em combustível para aperfeiçoar o trabalho. “Só pela oportunidade de contracenar com Debora Bloch, Nero e Paolla já saí feliz dessa experiência.”

Helena toma a palavra para garantir ao filho que, nesta profissão, é assim mesmo: agrada-se a uns e não aos outros. A dupla parece afinada para O Retorno, tanto que enfrentará um novo desafio em comum. Ainda em fevereiro, em meio às apresentações, os dois começam a ensaiar um novo espetáculo, que estreia em abril na capital paulista.

Trata-se da peça Malditos 16, do autor espanhol Nando López, dirigida por Ricardo Waddington. Helena e Pedro não serão mãe e filho, e o jovem conhecerá o pai no terreno profissional. “Na verdade, vou trabalhar em conjunto com os dois, vamos ver…”, completa Pedro, com certa ironia, sobre o projeto idealizado antes do convite para O Retorno.

‘O Retorno’

  • Onde: Teatro do Sesc Santana – Avenida Luiz Dumont Villares, 579, Jardim São Paulo
  • Quando: Sexta e sábado, 20h; domingo e feriado, 18h. Até 1º de março. Haverá apresentações extras nos dias 16 e 17, segunda e terça, 18h, dias 20 e 26, sexta e quinta, 15h e 20h, e dia 27, sexta, 15h       
  • Preço: R$ 60