O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que um atraso na entrega de mísseis de intercepção Pac-3 para os sistemas de defesa aérea do país permitiu que ataques russos atingissem com sucesso a infra-estrutura de energia, levando a que muitos ucranianos ficassem sem acesso a aquecimento, energia e água num Inverno que está a ser particularmente duro, segundo o diário britânico Financial Times.

Zelensky fez estas afirmações na quinta-feira à noite, sem nomear, no entanto, o país aliado que atrasou o pagamento dos projécteis que levou a que estes não fossem entregues a tempo, afirmando apenas que “a tranche sob a PURL [Lista de Necessidades Prioritárias da Ucrânia, na sigla em inglês] não foi paga”, e “os mísseis não chegaram”.

O ataque a que Zelensky parecia ter-se referido foi o de 20 de Janeiro em que a Rússia lançou 34 mísseis balísticos de cruzeiro, e para os quais os únicos interceptores ao dispor das Forças Armadas ucranianas são os Pac-3 de fabrico norte-americano.

Já a 16 de Janeiro Zelensky avisava para o facto de as reservas das munições para defesa aérea estarem a baixar muito e aproximar-se de níveis perigosos, lembra o diário britânico.

Esta não é a primeira vez que, recentemente, Zelensky acusa os aliados europeus, com o seu discurso de Davos a ser marcado por afirmações contundentes em relação à Europa, que estaria em “modo Gronelândia”, “à espera que talvez alguém em algum lado faça alguma coisa”, mas incapaz de se proteger. “No ano passado, aqui em Davos acabei o meu discurso com as palavras ‘A Europa precisa de saber como se defender’. Passou um ano, e nada mudou”, criticou.

O Presidente da Ucrânia disse agora que as suas palavras duras no Fórum Económico Mundial se deveram à sua frustração com este pagamento atrasado. “Imaginem isto. Eu sei que há mísseis balísticos a serem disparados contra a nossa infra-estrutura de energia, eu sei que há sistemas Patriot deslocados, e sei que não vai haver electricidade, porque não há mísseis para fazer a intercepção”, resumiu.

“As nossas unidades de defesa contra ataques balísticos estão vazias – simplesmente vazias”, lamentou. “E eu a negociar para os mísseis Pac-3 que chegam um dia depois de termos sido postos à beira de um apagão.”

Os mísseis, continuou, deveriam ter chegado um mês mais cedo, quando Kiev recebeu informação dos parceiros ocidentais mostrando “que estão a caminho mísseis balísticos”. “Eu sei que foram lançados mísseis balísticos, e os parceiros sabem que as defesas áreas estão vazias”, relatou. Por isso é importante que “a Europa e a Ucrânia estejam em sintonia, para que tudo possa ser eficaz e acontecer a tempo”.

O Financial Times ouviu dois responsáveis ocidentais que rejeitaram que as afirmações de Zelensky fossem correctas, mas recusaram dar detalhes. O jornal contactou a NATO – a iniciativa PURL decorre com coordenação da Aliança Atlântica – que não respondeu.

Enquanto isso, o Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, concordara em suspender os ataques durante uma semana de frio extremo, com previsões de temperaturas nocturnas de até 30ºC negativos

A Força Aérea ucraniana relatou, no entanto, que a Rússia lançou um míssil e mais de cem drones contra a Ucrânia.

A capital, Kiev, parece, no entanto, ter sido poupada, não tendo soado sirenes de aviso durante a noite, relatou o Financial Times.