A tragédia é recente, mas as fragilidades são antigas. O desastre da tempestade Kristin foi mais uma lição para somar a tantas outras sobre a incapacidade de resposta a fenómenos extremos. Numa conversa com o Azul, a arquitecta paisagista Aurora Carapinha e a geógrafa Maria José Roxo comentam o resultado trágico da tempestade que varreu o país esta semana. Admitem que era impossível travar sem danos a brutal força desta tempestade. Porém, também lamentam que desgraça após desgraça, o país continue de braços cruzados, sem agir e tomar medidas preventivas, e com décadas de conhecimento guardado dentro das gavetas.
Aurora Carapinha não esconde a frustração. Atravessava de autocarro o caminho para Lisboa quando atendeu o telefone, mas a má rede não impediu que repetisse a mesma ideia várias vezes: “Nada disto é novo. Tudo isto podia ter sido evitado ou, pelo menos, mitigado.”
A tempestade que devastou Leiria e outras zonas do país voltou a expor fragilidades antigas — impermeabilização excessiva dos solos, ocupação de zonas de risco, ausência de bacias de retenção, desrespeito por reservas ecológicas, enumera a arquitecta e professora emérita da Universidade de Évora, enquanto evoca a mensagem da canção de Pedro Abrunhosa: “Vamos fazer aquilo que ainda não foi feito”.
Aurora Carapinha e Maria José Roxo convergem num diagnóstico duro: o país conhece há décadas as medidas necessárias para reduzir riscos, mas não as aplica.
Cheias e danos causados pela tempestade Kristin em Alcácer do Sal
Nuno Ferreira Santos
O que cai do céu em terra firme
Num momento em que sentimos que a qualquer momento a desgraça cai do céu e nos atinge de forma violenta em terra firme, com os fenómenos extremos a aumentar de intensidade e frequência, Aurora Carapinha insiste que o problema começa na forma como pensamos o território. “Passamos o tempo a ter atitudes dicotómicas, como se o que cai do céu não tivesse relação com o que fazemos em terra. Não há dicotomia. Há sistemas contínuos, dinâmicos, com equilíbrios próprios”, sublinha a especialista.
Esses equilíbrios, diz, foram rompidos por décadas de decisões erradas — ou de ausência delas. “A incompetência não é ignorância. O problema é não se aplicar o conhecimento que existe há mais de 50 anos.”
Aurora Carapinha, professora de Arquitectura Paisagista da Universidade de Evora
Nuno Ferreira Santos
Aurora Carapinha acrescenta que o país continua a ignorar princípios básicos de ordenamento: “As zonas baixas vão sempre inundar-se. A água corre de cima para baixo. Se não criarmos estruturas a montante — bacias de retenção, zonas permeáveis —, não há milagre possível.” E arrisca na metáfora: “É como se eu calçasse o 36 e me tentassem meter nuns sapatos 33”.
Maria José Roxo concorda: “As medidas estão identificadas. Mas vemos obras nas áreas urbanas que não fazem sentido nenhum: impermeabiliza‑se, destrói‑se espaço verde.” E lembra que a cartografia de risco existe há muito tempo: “Não é possível que, com tantos estudos, continuemos a ver estas situações. Não é possível”. Mas foi.
Aquela frase batida
A geógrafa insiste que os problemas são antigos e a inacção desesperante. Mas não mostra qualquer sintoma de derrota. “O que nós temos é a associação da força da natureza – conhecida por todos – e da incompetência humana de pensar que consegue dominar estes elementos”, alertava esta professora catedrática numa notícia publicada há pouco mais de um ano, em final de 2024, numa ideia que agora retoma. “É a força da natureza associada à incompetência”, resume.
Aurora Carapinha subscreve a conclusão de Maria José Roxo e acrescenta: “Sim, é a força da natureza associada à incompetência e à irresponsabilidade”. E explica: “Irresponsabilidade porque nós fazemos parte da natureza”.
Voltamos a ouvir aquela frase batida que quase todos os especialistas repetem insistentemente há anos: é preciso uma política de ordenamento do território e uma visão sistémica para gerir os recursos naturais e prevenir desastres. Mas basta de discutir e debater. É preciso agir, reclamam as duas especialistas ouvidas pelo Azul.
A mensagem mais forte é esta: isto vai ser a nova normalidade. O clima mudou e isto tem de ser interiorizado, sobretudo por quem decide
Maria José Roxo
Maria José Roxo fala com a serenidade de quem estuda há décadas a relação entre clima, território e risco, mas não esconde a angústia: “A mensagem mais forte é esta: isto vai ser a nova normalidade. O clima mudou e isto tem de ser interiorizado, sobretudo por quem decide.”
A investigadora sublinha que os sistemas e modelos de previsão são hoje muito mais fiáveis, mas isso não se traduz em acção antecipada: “Eu posso saber com as imagens de satélite como é que a tempestade está a evoluir. Quer dizer que nós não estamos tanto às cegas como estávamos há décadas atrás, evoluímos imenso na previsão. O que não fazemos é tomar as devidas precauções muito antes.”
Maria Jose Roxo, professora catedratica especialista em degradacao dos ecossistemas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Rui Gaudêncio
Para a geógrafa, a responsabilidade está sobretudo nas autarquias, que continuam a planear o território como se o clima fosse o de há 40 anos. “Há aqui um papel fulcral das autarquias. É preciso pensar seriamente como equacionar o território. Adaptar o território. E esse conhecimento existe. É preciso envolver as comunidades.”
A prevenção útil está no amanhã
Debater a prevenção deste desastre é, neste momento, inútil. Mas é, pelo menos, mais uma lição que fica para o futuro. Ou não? As duas especialistas sublinham que tragédias como estas ou os incêndios são rapidamente esquecidas e o trabalho fica por fazer. As populações recompõem-se, as estruturas são reconstruídas e quem tem o poder de mudar o rumo aproveita o silêncio que se instala após a desgraça já esquecida. Até à próxima.
Aurora Carapinha evita análises detalhadas sem estudo técnico sobre o que se passou em Leiria, mas sublinha um padrão geral que atravessa muitas cidades: solos saturados, árvores com raízes confinadas em canteiros minúsculos, canais urbanos sem capacidade de resposta. “A força do vento era enorme, claro que haveria estragos. Mas muitos podiam ter sido menores”, arrisca.
Danos causados pela passagem da depressão Kristin na Marinha Grande
Adriano Miranda
Por seu lado, Maria José Roxo lembra que a prevenção não pode ser episódica. “O trabalho é constante. Não podemos estar sempre a correr atrás do prejuízo”. Neste caso, vendo a quantidade de chuva a cair e os caudais a aumentar, há pequenos gestos que podem fazer alguma diferença, como colocar sacos de areia à porta de casa ou tapar janelas. Medidas de autoprotecção.
A geógrafa dá exemplos simples de erros comuns: limpeza de sarjetas feita demasiado tarde, ausência de medidas de autoprotecção, falta de preparação para o Verão que se segue a um Inverno húmido. “Toda esta chuva vai fazer crescer vegetação. Já devíamos estar a preparar-nos para os incêndios”, avisa. “Isso também me dói, porque houve os incêndios e com estas chuvadas todas o solo foi erodido. Veio para os rios, veio para as barragens e quanto menos solo tivermos, quanto menos vegetação tivermos, menos capacidade temos de absorver estas chuvas e esta água”.
Solos destruídos
A chuva continua e, ao que tudo indica, vai continuar a encharcar os solos do país nos próximos dias. Para já, Maria José Roxo angustia-se com a água castanha a correr nos rios e que arrasta os solos, deixando o território mais frágil e expostos a previsíveis tragédias futuras, como os incêndios. Os solos e as águas que enchem agora as barragens (e que são tão necessárias) vão escapar-se mais uma vez pelo meio dos nossos dedos, lamenta.
Danos causados pela tempestade Kistin na Figueira da Foz
Nelson Garrido
A geógrafa descreve com preocupação as imagens dos rios carregados de sedimentos: “Aquela cor barrenta são milhões de toneladas de solo. É um recurso que não recuperamos facilmente.” E sublinha que o problema é sistémico: “Não posso pensar no meio urbano sem pensar no meio rural. Os rios não passam só por cidades.”
Mas a crítica mais dura de Maria José Roxo é estrutural: “Somos um país sem estratégia. Não temos planeamento estratégico.” No entanto, para deixar um rasgo de optimismo, deixa um aviso que é também um apelo: “Não podemos perder esperança. Mas há muito trabalho a fazer — e tem de começar já.”
Já para Aurora Carapinha, a resposta imediata é óbvia: “Apoiar as populações afectadas”. Depois virá o resto que, no fundo, é o essencial. “Temos de aplicar regulamentações que existem e não são aplicadas. Não se pode impermeabilizar mais. Não se pode continuar a dar facadas na Reserva Ecológica Nacional. Temos de pôr em prática os serviços dos ecossistemas, não apenas falar deles. Não podemos evitar fenómenos extremos, mas podemos reduzir o impacto. Isso é agir com sabedoria.”
E, por fim, deixa uma profecia que soa a exasperação: “Agora vamos ouvir falar num conjunto de medidas. Vou lê-las e pensar: já li isto em 1967, já li isto em 1990. A pergunta é sempre a mesma: e aplicaram-nas?”