Euromaster

O som dominante na frente de combate ucraniana já não é o das explosões ou da artilharia pesada, mas sim o zumbido insistente de “drones, drones, drones”. Estes veículos aéreos não tripulados representam hoje cerca de 85% das baixas humanas no conflito e estão a forçar mudanças radicais nas táticas de combate e defesa ao longo de toda a linha da frente.

Se em 2022 as trincheiras do Donbass eram comparadas às da II Guerra Mundial, o cenário atual aproxima-se mais de um campo de batalha futurista, onde tecnologias de ponta convivem com métodos rudimentares, como redes de pesca ou arame de galinheiro, para criar barreiras físicas contra os ataques.

A evolução tecnológica dos sistemas não tripulados tem sido veloz nos últimos dois anos, mas 2025 marcou uma viragem decisiva: a introdução massiva de drones com controlo por fibra ótica alterou profundamente a forma como se combate na Ucrânia. Estes novos modelos tornaram obsoletos os sistemas de guerra eletrónica que bloqueavam sinais de rádio, obrigando as forças no terreno a recorrerem a obstáculos físicos para travar ataques.

Quando os combates decorrem em campo aberto, e não há proteção natural, a única alternativa é tentar abater estes aparelhos de pequena dimensão com espingardas ou caçadeiras — uma imagem que evoca o “velho oeste” em pleno século XXI.

Atualmente, o momento mais perigoso para os soldados ucranianos é o trajeto até às posições de combate e o regresso a zonas seguras. Os ataques durante estas deslocações multiplicaram-se, e a perda de eficácia das contramedidas eletrónicas aumentou significativamente o número de baixas antes mesmo de se chegar às trincheiras.

Para reduzir a frequência destas viagens mortais, as unidades ucranianas prolongaram as rotações na frente de combate: operadores de drones, que antes ficavam três ou quatro dias no terreno, permanecem agora entre oito e doze. Na infantaria, há casos em que soldados passam mais de um mês sem sair das posições, recebendo munições, água e alimentos lançados por drones ucranianos do tipo “Vampiro”.

Mas mesmo com esta redução nas deslocações, veículos militares continuam a ter de circular. As medidas de proteção mais eficazes, segundo os militares, têm sido as redes de pesca instaladas sobre troços estratégicos de estrada, especialmente ao longo do eixo Kostiantynivka–Pokrovsk. Estes “tectos” improvisados, suspensos por postes de madeira, impedem que drones FPV (vista em primeira pessoa) atinjam os seus alvos, ficando presos nas malhas.

Circular sob estas redes cria um ambiente invulgar, mas também um raro momento de menor tensão para as tropas a caminho da frente de combate. Em algumas trincheiras, entradas e acessos são ainda protegidos com arame de galinheiro, prevenindo que drones carregados com explosivos se infiltrem por aberturas.

Evacuação de feridos com drones terrestres
No Donbass, retirar militares feridos tornou-se uma das tarefas mais perigosas. Equipas médicas correm risco extremo de serem atingidas durante o trajeto, e muitas sofreram baixas significativas. Esta situação levou à adoção de drones terrestres para evacuar feridos e corpos em vários pontos da frente leste.

Embora estes dispositivos ainda ofereçam pouca estabilidade — causando dor adicional devido às irregularidades do terreno —, são preferíveis a permanecer sob fogo inimigo. Outro fator que impulsionou a sua utilização é a escassez de veículos convencionais: ambulâncias militares são frequentemente alvos deliberados das forças russas, e muitas já foram destruídas, obrigando as equipas médicas a deslocar-se em automóveis civis, igualmente visados.

Ataques massivos e escassez de meios
A fragilidade do material ucraniano é explorada pela Rússia com ataques de drones FPV baratos, armados com cerca de um quilo de explosivo. Por aproximadamente 500 euros, é possível destruir uma viatura que custa dezenas de milhares. Lançamentos simultâneos podem inutilizar ambulâncias blindadas ou até tanques.

O aumento da quantidade destes aparelhos eleva exponencialmente a sua capacidade destrutiva. Só este ano, na região de Donetsk, estes drones estiveram envolvidos na maioria dos quase 700 mil ataques russos registados.

Ambos os exércitos tentam proteger viaturas valiosas com estruturas metálicas semelhantes a jaulas ou blindagem reativa explosiva, mas para veículos ligeiros como “pick-ups” pouco há a fazer além de contar com condutores experientes capazes de manobras evasivas rápidas.

Do lado russo, os drones também são usados para abrir caminho a ataques de motociclistas armados, uma tática de assalto e sabotagem cada vez mais visível, sobretudo na frente de Pokrovsk, ainda que frequentemente termine em operações suicidas.

Bombardeamentos na retaguarda e destruição calculada
Longe da linha de combate, cidades ucranianas têm sofrido bombardeamentos cada vez mais intensos contra alvos civis. Estes ataques, considerados crimes de guerra, são realizados com impunidade, segundo várias fontes.

No início da invasão, o objetivo russo era capturar e manter territórios estratégicos. Mas após a batalha de Bakhmut — que caiu em maio de 2023, após dez meses de combates e dezenas de milhares de mortos —, Moscovo adotou uma estratégia de “terra queimada”, destruindo deliberadamente cidades antes de tentar avançar.

Bombas planeadoras, munição incendiária, fósforo e diversos tipos de drones, incluindo Shahed e Orlan, têm sido utilizados para devastar áreas como Kostiantynivka e Pokrovsk. Se não forem obtidos novos meios de defesa, localidades como Druzhkivka, Kramatorsk e Sloviansk poderão ser as próximas a enfrentar destruição maciça.

Enquanto a atenção internacional se concentra no encontro marcado para 15 de agosto entre Donald Trump e Vladimir Putin, no Alasca, as Forças Armadas ucranianas preparam-se para um outono que consideram potencialmente o mais devastador da guerra.

Prevê-se um aumento da intensidade dos ataques contra grandes cidades distantes da frente de combate, colocando pressão extrema sobre a defesa antiaérea. “Se a Rússia chegar aos mil drones por noite, não teremos capacidade para os travar”, advertiu o comandante Gris, da Defesa Aérea Territorial de Kiev, recordando o ataque massivo de julho, o maior desde o início da invasão.

Há ainda receios quanto ao aumento do poder destrutivo dos drones. “Um único Shahed poderia destruir um prédio de cinco andares se os russos aumentarem a carga explosiva para 80 ou 90 quilos”, alertou o comandante de reconhecimento Denys Yaroslavskyi.

A ameaça mais inquietante envolve o uso de Inteligência Artificial. Segundo o comandante Gris, já existem drones Shahed com capacidade de reconhecimento e seguimento automático de alvos. Ele alerta para um cenário em que “drones-mãe” transportem aparelhos mais pequenos, capazes de identificar e atacar sozinhos soldados, veículos blindados ou instalações industriais. “Estamos a caminhar para uma guerra de máquinas”, concluiu.