ZAP //MAZUR Catholic Church (England and Wales)//GRAEME SLOAN ; POOL/EPA

Quem achava que um papa norte-americano ia favorecer Trump estava enganado. Rutura total com a Casa Branca poderia afastar milhões de católicos brancos da Igreja — mas Trump não se pode esquecer os católicos hispânicos.
O afastamento entre a Casa Branca e o Vaticano parecia estar destinado a partir do momento em que se soube que o sucessor do Papa Francisco, Leão XIV, era crítico da administração Trump, mas a relação já não é só uma divergência política.
Desde que assumiu a liderança da Igreja Católica, em maio, o Papa norte-americano Leão XIV, primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, tem vindo a intensificar essas críticas, em matérias como imigração, política externa e alterações climáticas.
Embora essas posições não tenham até então levado a mudanças visíveis na linha da Casa Branca, o confronto está a ter implicações internas na comunidade católica dos EUA, aponta o Politico.
O histórico de desacordo entre papas e presidentes norte-americanos não é novo. A doutrina social da Igreja não coincide à partida com nenhum dos grandes partidos, o que ao longo dos anos levou a críticas dirigidas tanto a republicanos como a democratas.
No início, temeu-se que Leão XIV, por ser norte-americano, tenderia a alinhar, ou pelo menos a aproximar-se, da política de Washington, mas o sumo pontífice tem provado o contrário: desmente JD Vance, critica constantemente a política de imigração de Trump, saindo em defesa dos refugiados, atacou desde cedo criticou o capitalismo selvagem, saiu em defesa dos venezuelanos e do Estado de direito… ah, e gosta de futebol. O “verdadeiro”, não o americano.
Está a abrir-se uma fratura no seio do catolicismo norte-americano — onde a lealdade a Trump se revela forte, mas desigual entre grupos, aponta ainda o jornal especializado em política europeia.
Nas eleições de 2024, Trump terá obtido 59% do voto católico, um resultado elevado que, no entanto, esconde uma divisão. O apoio ao Presidente concentra-se sobretudo entre católicos brancos. Já entre católicos hispânicos, o padrão foi inverso: Kamala Harris venceu esse eleitorado por 58% contra 41%. E são os católicos hispânicos o segmento que mais cresce na Igreja nos EUA.
A imigração é o principal ponto de fricção. Um inquérito realizado em novembro pelo canal católico EWTN e pelo Real Clear Politics, antes de uma rara mensagem especial dos bispos sobre o tema, revela um país católico dividido. Entre católicos brancos, 60% apoiam deportações em larga escala e 26% opõem-se. Entre católicos latinos, 41% apoiam e 39% opõem-se. Os dados sugerem ainda que a divisão pode variar consoante o grau de prática religiosa.
Do lado da administração, a resposta tem sido dura e mortal, até para cidadãos norte-americanos. Altos responsáveis acusaram a Igreja de reinstalar imigrantes ilegais e de estar preocupada com os seus resultados financeiros, ignorando críticas e recomendando que o Vaticano se concentre em assuntos estritamente eclesiais.
Uma rutura total com a Casa Branca poderia afastar milhões de católicos brancos e, por arrasto, fragilizar redes de doadores conservadores com ligações ao universo político de Trump, prevê o Politico.
Apesar de tudo, os dois lados parecem fazer esforços, através de outros canais, por manter a relação sustentável. Algumas figuras do campo católico conservador já têm mostrado aproximação à administração.
Um exemplo é o antigo bispo Joseph Strickland, afastado por Francisco por reiterada insubordinação, que participou numa cerimónia de homenagem ao “czar da fronteira” Tom Homan, louvando o seu papel no combate ao tráfico humano e na “restauração da lei e da ordem”.
Apesar de Leão XIV e Trump não terem relação pessoal e de um encontro em 2026 parecer improvável, há atividade diplomática entre Washington e Roma. O secretário de Estado Marco Rubio terá falado por telefone com duas altas figuras do Vaticano, o núncio apostólico nos EUA, cardeal Christophe Pierre, e o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, desde o início do ano. Pierre, por sua vez, regressou a Roma e encontrou-se pessoalmente com o Papa. E o arcebispo de Oklahoma City, Paul Coakley, presidente da Conferência Episcopal dos EUA, reuniu-se na Casa Branca com Trump e com o vice-presidente JD Vance.