Depois do quarto lugar no Mundial, um quinto lugar no Europeu parece uma despromoção, certo? Errado. É sinal de que Portugal faz parte da elite do andebol mundial, porque é na Europa que estão as melhores equipas. Foi isto que a selecção nacional provou mais uma vez nesta sexta-feira, ao derrotar a Suécia por 36-35 (16-16 ao intervalo) para ficar com o quinto lugar no Euro 2026, a melhor classificação portuguesa de sempre num torneio continental, ultrapassando o já excelente sexto lugar do Euro 2020. Mas não é só isto que Portugal tira deste torneio de organização nórdica. Ganhou à Dinamarca, que é a melhor selecção do mundo, ganhou à Espanha, que já foi campeã europeia e mundial, ficou à frente da França, que era a campeã europeia em título.

Paulo Jorge Pereira, o seleccionador nacional, tinha prometido o melhor Europeu de sempre para Portugal e, sabendo-se que ele não se contenta com pouco, talvez estivesse a pensar em medalhas, mas este quinto lugar, mais do que um sinal de crescimento, é um sinal de maturação. Pode não ganhar sempre, mas vai entrar em campo a pensar que pode ganhar – e os adversários também já pensam o mesmo. E este sucesso na última década não parece que se vá esgotar numa geração. Olhe-se para a selecção do Euro 2020, o primeiro torneio com Paulo Jorge Pereira, que era o melhor Euro até agora: apenas cinco dessa selecção estiveram no Euro 2026.

E outro sinal de estatuto conquistado: este quinto lugar (o sexto também dava) dá acesso à próxima grande competição, o Mundial 2027. Ou seja, Portugal não precisa de jogar as qualificações, e vai participar no seu quarto Mundial consecutivo desde 2021. Já agora, também já tem garantido um lugar no Euro 2028, como um dos organizadores, em conjunto com Espanha e Suíça – quinta presença consecutiva no torneio continental. A única competição que Portugal falhou desde 2020 foram os Jogos Olímpicos de 2024, mas esteve nos de Tóquio em 2021.

Foi assim que aconteceu

Entre Portugal e o seu melhor Europeu de sempre estava a Suécia, uma potência histórica do andebol, quatro vezes campeã mundial, cinco vezes campeã europeia. Experiente e habituada às grandes decisões, mas, talvez, frustrada por estar no jogo do quinto lugar num Europeu em que era um dos organizadores – a derrota com a Islândia e o empate com a Hungria afastaram os suecos da luta pelas medalhas. Portugal podia não ter a história para se agarrar, mas o histórico recente de confrontos com os suecos era animador: empate no Mundial do ano passado, vitória por dez no Euro 2020.

Na primeira parte, Portugal só esteve a perder na primeira troca de ataques (0-1). Depois, a vantagem passou para o lado português, num jogo muito rápido e com muitos golos. Martim Costa marcou três dos primeiros quatro golos de Portugal, que rapidamente conseguiu três golos de vantagem (7-4), mas o ataque português foi perdendo fulgor e passou a depender mais da inspiração de Capdeville na baliza – a Suécia falhou quatro ataques seguidos, com três paradas do guarda-redes do Benfica. A partir de meio da primeira parte, o resultado variou entre a vantagem portuguesa e o empate – o jogo foi para o intervalo com um 16-16.

Kiko Costa, que não marcara qualquer golo na primeira parte, abriu a sua conta no jogo logo após o intervalo, ele que estava com dificuldades para ultrapassar o bloco defensivo dos nórdicos. A Suécia tinha sempre uma resposta rápida em situações de desvantagem e nunca deixou Portugal fugir no marcador – o lateral-direito Lukas Sandell, que marcou oito golos, era sempre uma boa válvula de escape no ataque.

Na fase decisiva do jogo, a Suécia parecia estar bem colocada, com uma vantagem de dois golos (32-34) a menos de três minutos do fim. Mas eis que entrou, de novo, em acção aquele que tinha sido o primeiro herói do jogo. Martim Costa marcou três golos sem resposta e deixou Portugal em vantagem já dentro do último minuto (35-34), mas a Suécia empatou (35-35) a seis segundos do fim. O seleccionador nacional pediu, de imediato, um desconto de tempo.

“Jogamos com sete”, disse Paulo Jorge Pereira na roda. “Tu vais por aqui, tu vais por aqui, Salvador aqui, Martim lá, dois pivots. Ganhem todos balanço, mas não entrem na puta da linha antes do apito!”, pediu o seleccionador, alertando para uma possível violação de meio-campo. Iturizza movimentou a bola para Salvador, esta seguiu para Kiko Costa, fez a simulação e deixou para o irmão Martim. Para lá nos nove metros, o lateral do Sporting atirou e marcou.

Portugal não iria precisar de prolongamento para continuar a fazer história no andebol. “Um quinto lugar é fantástico”, disse Paulo Jorge Pereira após o jogo à RTP. “Estabelecemos como objectivo procurar tratar de melhorar o sexto de 2020. São dois grupos fantásticos, mas acho que este é ainda mais competitivo. Não largam, é até ao último segundo. Temos vários atletas exaustos que deram tudo e eu não podia estar mais orgulhoso.”