Houve um momento, naquela madrugada atroz, em que Zelinda Gonçalves, de 75 anos, jurou que havia um furacão a avançar desgovernado, ali em Figueiró dos Vinhos, vila do distrito de Leiria. “Dei um grito tão grande!”, recorda. Dia e meio depois, anda a tentar limpar a cozinha, as filhas vieram para ajudar, travam todas uma luta inglória. A água pinga copiosa, há bacias por todo o lado, o chão insiste em continuar molhado. A casa está um pequeno caos, há muita coisa fora do sítio, móveis e memórias que vão tentando salvar da ânsia destruidora da água. “Temos a casa inundada nos três andares, o telhado voou e ficou uma piscina lá em cima”, resume Ana, a filha. O andar de cima é uma espécie de sótão, antes era uma agradável saleta, agora é uma amálgama de telhas, pladur e destruição. A água acumulou-se ali e foi escorrendo casa abaixo, já nem a cave escapa. Na primeira noite, ainda ali pernoitaram, sentadas à lareira, com a roupa que traziam no corpo, desde então a situação só piorou, as filhas insistem que os pais não podem dormir ali, Zelinda não está convencida, mas não tem alternativa. “Está tudo estragado”, desabafa, pesarosa.

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