Críticas que surgiram pela primeira vez em Davos foram intensificadas. O presidente da Ucrânia pede que se olhe para o seu caso e já não esconde a frustração. Do lado da Europa há quem garante que não tem razão
Depois de ter virado o discurso no Fórum Económico Mundial de Davos, o presidente da Ucrânia mostrou que está mesmo a adotar uma estratégia mais agressiva para com a Europa, na esperança de que a pressão resulte em mais ajuda e menos palavras.
Desta vez, Volodymyr Zelensky decidiu acusar os europeus de deixarem as defesas aéreas da Ucrânia totalmente expostas aos ataques sucessivos que a Rússia tem realizado contra a infraestrutura energética.
Numa altura em que grande parte do país está a combater uma brutal vaga de frio – em algumas cidades há mesmo relatos de temperaturas a bater os 30 graus negativos -, a Rússia tem intensificado os ataques que deixam os ucranianos sem eletricidade ou aquecimento, numa tentativa de pressionar o poder político a ceder.
A Ucrânia está mesmo “à beira de um apagão”, referiu Volodymyr Zelensky, que decidiu atirar para cima de países como Portugal parte das culpas.
A lógica do presidente ucraniano é fácil de perceber: de acordo com o próprio, a promessa feita pelos parceiros europeus de uma entrega de intercetores de mísseis Pac-3 – os mísseis que funcionam nos sistemas Patriot – foi cumprida com um dia de atraso por uma falha no pagamento.
Isso resultou, de acordo com Kiev, em milhões de pessoas sem acesso a energia. O mesmo é dizer que ficaram sem luz, mas também aquecimento ou até água. E tudo isto no pico do pior inverno desde que a guerra começou.
“A transferência ao abrigo da iniciativa da Lista de Requisitos Prioritários para a Ucrânia (PURL) não foi paga. Os mísseis não chegaram”, afirmou, ainda que sem referir um país responsável em concreto.
Em todo o caso, e tendo em conta os países que contribuem para o PURL – uma iniciativa europeia que permite encomendar aos Estados Unidos desejos da Ucrânia -, Portugal é um dos alvos destas declarações.
Em conjunto com Alemanha, Noruega, Polónia, Países Baixos, Bélgica, Canadá, Luxemburgo, Eslovénia ou Espanha, também Portugal contribui para este mecanismo.
De acordo com o Financial Times, dois responsáveis do Ocidente garantem que as acusações de Volodymyr Zelensky, que se referem a um ataque ocorrido a 20 de janeiro, não são corretas.
“[O PURL] continua a providenciar o equipamento crucial dos Estados Unidos para a Ucrânia, financiado pelos aliados da NATO e parceiros”, garantiu um responsável da Aliança Atlântica, referindo que isso incluiu equipamento e munições que “continuam a fluir”.
O PURL foi uma iniciativa lançada pela NATO e pelos Estados Unidos para que os aliados possam comprar armamento norte-americano para depois enviar para a Ucrânia. Entre esse material estão os conhecidos Patriots, uma das principais armas na defesa da Ucrânia.
Voltando ao Fórum Económico Mundial de Davos, já aí Volodymyr Zelensky tinha deixado a entender a sua frustração pela alegada falta de pagamentos deste género, até porque têm sido dias e dias de falhas de energia e de água.
“Imaginem isto: eu sei que os mísseis balísticos estão a vir contra a nossa infraestrutura energética, eu sei que os sistemas Patriot estão destacados e eu sei que não vai haver eletricidade, porque não há mísseis para os intercetar”, disse em Davos.
“Essa é a situação em que eu estou. E estou a negociar mísseis PAC-3 que chegaram um dia depois de termos sido deixados à beira de um apagão”, reiterou nesse mesmo discurso.