A notícia dos encontros foi revelada pelo jornal “Financial Times”, citando fontes familiarizadas com a questão. Houve três reuniões desde abril de 2025 entre membros do Departamento de Estado dos EUA e os separatistas do grupo de extrema-direita Projeto de Prosperidade de Alberta – conhecido por acusar o Governo canadiano de desperdiçar as receitas da indústria petrolífera e divulgar teorias da conspiração sobre a influência chinesa, a perseguição aos cristãos e a agenda “globalista”.

“Os EUA estão extremamente entusiasmados com uma Alberta livre e independente”, disse ao periódico britânico Jeff Rath, consultor jurídico da entidade separatista, que participou nas reuniões. Alegou ainda que tem uma “relação muito mais forte” com o Governo Trump do que o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney.

Segundo o “Financial Times”, o movimento quer reunir-se em fevereiro com funcionários do Departamento de Estado e do Tesouro dos EUA. Visam pedir uma linha de crédito de 500 mil milhões de dólares (418 mil milhões de euros) no caso de que a independência seja aprovada num referendo que ainda não tem previsão de acontecer.

Um porta-voz da diplomacia dos EUA e um representante da Casa Branca argumentaram que funcionários de Washington se reúnem regularmente com membros da sociedade civil, sem que haja compromissos. Uma fonte familiarizada com as ideias do secretário do Tesouro Scott Bessent afirmou que este e funcionários de tal departamento não tinham conhecimento da proposta da linha de crédito e que nenhum representante sénior recebeu um pedido de reunião.

“Ir a um país estrangeiro e pedir ajuda para desmembrar o Canadá. Há uma palavra antiga para isso e essa palavra é traição”, definiu o chefe de Governo da província vizinha de Colúmbia Britânica, David Eby, ao reagir ao artigo. Rath, por sua vez, considerou o comentário “difamatório”, acusando o político de fazer “uma birra infantil”.

Tática usada no Texas

O hipotético e improvável cenário em que Alberta se torna independente e, posteriormente, é incorporada nos EUA, não seria um método novo por parte de Washington. O Texas tornou-se independente do México em 1836, após um conflito entre os texanos anglófonos oriundos dos EUA (defensores da manutenção da escravidão) e os mexicanos, que saíram derrotados. Menos de uma década depois, foi anexado pelos Estados Unidos da América.

E, tal como no Texas, o petróleo é um recurso essencial em Alberta. A província produz mais de 80% deste recurso no Canadá e é a maior fonte de petróleo estrangeira que abastece os EUA. Scott Bessent chegou a qualificar Alberta como “uma parceira natural para os EUA”.

A questão de acesso ao petróleo, a recursos energéticos e aos minérios, como as terras raras, tem estado em muita evidência recentemente nas ações da Administração Trump. No início do mês, a captura do presidente Nicolás Maduro foi sucedida por um discurso de Trump entusiasmado com o potencial de negócios no setor petrolífero.

Dias depois, o líder da Casa Branca retomou a narrativa de que os EUA precisam da Gronelândia. Trump usa o argumento de segurança nacional devido à uma presença russa e chinesa não comprovada, mas é sabido que o território autónomo controlado pela Dinamarca é rico em recursos minerais e tem-se tornado uma rota comercial para os navios cargueiros devido ao degelo no Ártico.

Recados de PM canadiano

A notícia sobre Alberta surge após o primeiro-ministro de Otava, frequentemente tratado como “governador” por Trump, dizer que espera “que o Governo dos EUA respeite a soberania canadiana”. “Sou sempre claro nesse sentido nas minhas conversas com o presidente Trump”, frisou Mark Carney, após recados de Washington contra um eventual acordo comercial do Canadá com a China.

O chefe de Governo canadiano, que esteve este mês em Pequim, bem como o homólogo britânico, ganhou desta que pelo discurso proferido no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça. “Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando lhes convinha, que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica”, sublinhou Carney.

“Sabíamos que o direito internacional se aplicava com um rigor variável em função da identidade do arguido ou da vítima”, acrescentou. O primeiro-ministro do Canadá acabou por defender que as “potências médias” juntem forças perante “uma era de rivalidade entre grandes potências”.