
Ilustração de como a fabricação de ferramentas pode ter sido em Xigou há cerca de 160.000 anos
Ferramentas de pedra sofisticadas com 160.000 anos podem não ter sido feitas pelo Homo sapiens e estão a pôr em causa uma suposição anteriormente aceite sobre o uso destes ferramentas.
À margem de um estudo publicado esta terça-feira na Nature Communications, arqueólogos do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP) descobriram que humanos primitivos no que é hoje a China utilizavam ferramentas de pedra sofisticadas há pelo menos 160.000 anos.
“Esta descoberta é importante porque desafia a perceção de que a tecnologia de ferramentas de pedra na Ásia estava atrasada em relação à Europa e a África durante este período”, escreveu a equipa de investigação num comunicado, citado pela Live Science.
No sítio de Xigou, descoberto em 2017 na província de Henan, no centro da China, a equipa encontrou os restos de mais de 2.600 ferramentas de pedra e determinou que algumas delas eram “encabadas” – ou seja, presas a um pedaço de madeira ou a outro tipo de haste.
“A identificação das ferramentas encabadas fornece, até onde sabemos, a evidência mais antiga de ferramentas compostas no Leste Asiático“, enalteceram os investigadores.
É verdade que os arqueólogos já conheciam exemplos extremamente antigos de uso de ferramentas no Leste Asiático, sendo que as ferramentas de madeira mais antigas conhecidas nessa região datam de há 300.000 anos. No entanto, as novas descobertas são as ferramentas mais antigas conhecidas constituídas por dois materiais, como demonstram os artefactos encabados.
Michael Petraglia, diretor do Australian Research Centre for Human Evolution da Universidade de Griffith e autor correspondente do artigo, explicou à Live Science o motivo pelo qual estas ferramentas são tão sofisticadas: “Melhoram o desempenho, permitindo aumentar a alavancagem e fornecer mais força para ações como perfurar.”
“A análise microscópica das arestas das ferramentas de pedra indica acções de perfuração, usadas contra material vegetal, provavelmente madeira ou caniços”, acrescentou.
Podem não ter sido feitas pelo Homo sapiens
As técnicas de fabrico das ferramentas “parecem estar bem estabelecidas e envolver vários passos intermédios, mostrando evidência de planeamento e previsão”, afirmou a equipa.
Ben Marwick, professor de arqueologia na Universidade de Washington e coautor do artigo, disse que não é claro que tenha sido a espécie humana primitiva a produzir as ferramentas.
“A identidade exacta dos fabricantes destas ferramentas não é clara, porque durante este período provavelmente havia várias espécies de hominíneos a viver na região”, disse Marwick, à Live Science.
“Assim, poderia tratar-se, por exemplo, dos Denisovanos, H. longi, H. juluensis ou H. sapiens”, notou.
“É digno de nota que muitos dos artefactos são pequenos — com menos de 50 milímetros — mas foram feitos com técnicas complexas“, observou Marwick.

As ferramentas recentemente descobertas datam de entre 160.000 e 72.000 anos atrás. Nesta época, as pessoas da região viviam como caçadores-recolectores.