O presidente da Câmara Municipal de Leiria, Gonçalo Lopes, mostrou-se este sábado, 31 de Janeiro, bastante incomodado com a falta de militares no terreno para acudir à situação de calamidade que a região Centro está a viver desde a passagem da tempestade Kristin, na madrugada de quarta-feira. E, sem nomear André Ventura, também criticou quem vai para o terreno fazer campanha eleitoral, com a entrega de donativos, procurando tirar partido do sofrimento das populações.
”Não é preciso alguém pedir ao Exército para ir para o terreno, não é necessário à Protecção Civil pedir ao ministro da Defesa para pôr pessoas no terreno porque quem está atento, quem está solidário não precisa de ordens de ninguém, é para estar na linha da frente”, disse o autarca em declarações transmitidas pela SIC Notícias, garantindo que desconhece onde é que os militares estão a ser empenhados na região, fazendo eco das preocupações que têm sido levantadas por outros autarcas.
“A situação que estamos a viver obriga à acção, obriga à determinação, obriga a meios, obriga à presença”, disse Gonçalo Lopes, lembrando que a situação de calamidade “está mais do que identificada” e exige que “todos os recursos” estejam mobilizados a nível nacional para o que diz ser uma das maiores catástrofes da última década em Portugal.
“Temos animais a morrerem em capoeiras, em silviculturas; temos empresas das maiores do país que vão estar encerradas semanas a fio, temos empresas de construção que ficaram destruídas, pessoas que estão a sofrer sem água e sem luz e sem tomar banho há mais de dois dias e a informação que me dão é que não sabem quando é que a situação vai poder ser reposta”, disse.
Na sexta-feira, em visita ao concelho de Figueiró dos Vinhos, outro dos mais afectados pela tempestade, o ministro da Defesa, Nuno Melo, fez depender o accionamento dos meios militares do pedido por parte da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.
Acompanhado pelo chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, José Nunes Fonseca, Nuno Melo reiterou que as Forças Armadas estão disponíveis para empenhar militares para “ajudar a debelar estas situações emergentes, seja a desimpedir terrenos, ajudando no abate de árvores ou numa actividade mais braçal”, mas disse que isso depende do pedido da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil. Sem avançar com um número concreto de militares que estariam prontos a ser usados neste tipo de acções, o governante disse, citado pela agência Lusa, que estariam disponíveis “centenas ou milhares, se necessário”.
Este sábado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em visita à Figueira da Foz, procurou meter água na fervura e disse que “o empenhamento das Forças Armadas vai crescendo à medida das necessidades”, adiantando vários números e locais onde estes meios estão a ser empenhados, como os concelhos de Ferreira do Zêzere, Alvaiázere e Coimbra.
“Sou um defensor desde sempre do papel essencial das Forças Armadas em matéria de Protecção Civil”, disse aos jornalistas, lembrando que o sistema de Protecção Civil tem várias componentes, entre agentes de protecção civil, bombeiros e forças de segurança. Mas salientou que o papel das Forças Armadas é “essencialíssimo”, dada a sua “capacidade de resposta imediata em termos logísticos”.
O Exército anunciou que vai mobilizar este sábado mais 13 equipas de intervenção para as zonas de Tomar e Ferreira do Zêzere, mantendo também todas as operações em curso desde quarta-feira para a resposta à crise provocada pelo mau tempo.
Numa nota enviada à Lusa, o porta-voz do Exército refere que, durante o dia de hoje, prevê-se a mobilização de sete equipas de intervenção para Tomar e seis equipas de intervenção com motosserra para Ferreira do Zêzere, distrito de Santarém, encontrando-se ainda em fase de mobilização cinco geradores. E revela que o Exército mantém no terreno, desde quarta-feira, um destacamento de engenharia, mobilizado para Ferreira do Zêzere, com a missão de limpar itinerários e estradas.
Na quinta-feira, foram mobilizados outros três destacamentos de engenharia – uma para a Marinha Grande e dois em Ferreira do Zêzere – e empenhados três módulos de energia com geradores, em Alvaiázere (distrito de Coimbra), para accionamento de electrobombas em estações de captação de água, apoio aos bombeiros e apoio a um lar de idosos. Em Tomar, desde quinta-feira que o Exército está a assegurar apoio de alojamento a 48 bombeiros e apoio ao município com uma equipa de desobstrução de itinerária equipada com motosserras.
“Carrossel de pessoas”
Sem nomear André Ventura, o autarca de Leiria também se mostrou hoje incomodado com o facto de o candidato presidencial se ter mostrado na sexta-feira a recolher donativos, como “meia dúzia de garrafas de água”, para ir levar às regiões afectadas, onde prometeu voltar este sábado. “Aproveitar-se do que está a acontecer para fazer campanha, não. É uma ofensa a quem está a sofrer, a quem está há mais de dois dias sem água e sem luz, com dificuldades extremas”, disse o autarca.
“Aquilo que eu tenho assistido nos últimos dias é um carrossel de pessoas a vir a Leiria como se um jardim zoológico se tratasse”, disse. Com Lusa