O piso rápido tornou-se uma autêntica passadeira para o sucesso, o Open da Austrália é uma casa de conforto para consolidar esse mesmo sucesso. Mais do que as mudanças positivas no seu jogo que permitem que feche uma meia-final sem um único ás mas com uma panóplia de recursos para fechar os pontos, Aryna Sabalenka chegou a um ponto onde parece não ter grande rival quando joga em piso rápido. Está solta, está leve, está dominadora, tem poucas quebras, encontra soluções para quase todos os problemas. O último chamava-se Elena Rybakina, cazaque que chegava também à final sem ter perdido qualquer set como não acontecia desde a decisão de Wimbledon de 2008 em que Venus derrotou a irmã Serena Williams para o seu sétimo e último Grand Slam da carreira. Havia o histórico da final de 2023 em Melbourne que caiu para a bielorrussa, havia a última decisão da WTA Finals que foi ganha pela cazaque, havia sobretudo história para ser escrita.

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Rybakina, que tem como melhor registo no ranking WTA uma terceira posição (lugar que ocupa nesta fase), tentava dar o salto contra a dupla Sabalenka-Swiatek. A jogadora de 26 anos não tem propriamente grande histórico em Grand Slams, entre a vitória em Wimbledon em 2022, a final perdida na Austrália em 2023 e um ano para esquecer em 2025 onde não passou da quarta ronda em nenhum dos quatro torneios, mas foi dando mostras de um crescendo depois da vitória em Ningbo que lhe permitiu fechar o ano com o triunfo no WTA Finals onde bateu de forma sucessiva Anisimova, Alexandrova, Swiatek, Pegula e… Sabalenka. Pelo meio, conseguiu encontrar a estabilidade fora do court que lhe permitiu voltar a ser melhor em jogo.

A suspensão do técnico Stefano Vukov após quebrar o Código de Conduta do WTA mexeu e a vários níveis com a jogadora. Foi com o croata com quem trabalhava há alguns anos que conseguiu os seus melhores resultados, foi com o croata que atravessou o pior período desde que começou a dar nas vistas no circuito, com menos resultados e ausências por lesões que não eram explicadas. Em 2024, antes do US Open, deixou de trabalhar com Vukoc mas a parceria com Goran Ivanisevic também não correu bem e voltou ao croata, que entretanto foi suspenso. “Ficou evidente que existe uma relação tóxica, que fez chorar a jogadora várias vezes, que submeteu a abusos mentais e que fez com que atingisse os limites físicos”, defendeu então o WTA. Já o The Athletic escreveu que Vukoc fez centenas de chamadas e mensagens durante o US Open de 2024 onde já não estava presente como seu treinador, com insultos como “Devia estar na Rússia a cavar batatas”.

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“Não concordo com as decisões tomadas pela WTA sobre a minha relação com o Stefano. Nunca fiz qualquer queixa. Na verdade, sempre mantive a ideia consistente de que ele nunca me maltratou. Não estou satisfeita com a situação, principalmente quando alguns treinadores continuam a fazer comentários. Quem está fora do círculo fechado do ténis vê essas declarações e amplia a situação, torna tudo num espetáculo. Não me parece justo”, defendeu a cazaque após esse castigo, numa altura em que se percebia também que a relação entre ambos teria ultrapassado a parte meramente profissional. Davide Sanguinetti ainda trabalhou com Rybakina mas, mal acabou a suspensão, Vukov reassumiu o lugar, com a jogadora a assumir de que esse regresso foi fundamental para melhorar, também pelas indicações que lhe vai dando ao longo dos jogos.

A esse nível, Sabalenka foi encontrando a estabilidade que em alguns momentos lhe foi faltando desde que chegou aos patamares mais altos do circuito. Ainda não chegou ao ponto de ser apontada como a “grande” favorita a ganhar Roland Garros ou Wimbledon mas em piso rápido abriu uma era de completo domínio que lhe permitiu chegar à sétima final consecutiva de Majors entre quatro vitórias (duas na Austrália, duas no US Open) e duas derrotas. A bielorrussa também atravessou um período complicado em 2024, quando o seu antigo namorado, o ex-jogador de hóquei em gelo bielorrusso Konstantin Koltsov, morreu em circunstâncias inesperadas mas foi conseguindo com o tempo reerguer-se para redescobrir o ponto de equilíbrio.

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O ano de 2025 foi exemplo paradigmático disso mesmo, sem ganhar todos os torneios mas a estar presente em quase todas as decisões que lhe foram surgindo pela frente: perdeu a possibilidade de ganhar pela terceira vez seguida na Austrália diante de Madison Keys, perdeu depois a final de Indian Wells com Mirra Andreeva, ganhou em Miami e Madrid, perdeu a decisão de Roland Garros com Coco Gauff, venceu o US Open batendo Amanda Anisimova (que lhe ganhara em Wimbledon nas meias), cedeu no último torneio do ano ao perder a final do WTA Finals com Rybakina. Ainda assim, aquilo que foi mostrando neste Open da Austrália é que pode ter dias melhores ou piores mas consegue ser consistente nas chegadas às decisões – e a partir daí estaria sempre mais próxima de conquistar títulos, aquilo que faltava para consolidar o seu domínio.

No entanto, a adversária que iria encontrar do outro lado era talvez a mais complicada que podia encontrar. Rybakina é a jogadora contra quem Sabalenka mais vezes jogou (e o mesmo acontece em relação à cazaque), com ligeira vantagem para a número 1 mundial por 8-6 mas com essa premissa de que seria sempre um jogo marcado pelo equilíbrio, bem mais parecido com o que aconteceu no último WTA Finals do que se tinha visto na final em Melbourne de 2023. Houve semelhanças, no final acabou por ser uma história diferente: apesar de ter vacilado entre o final do segundo set e o início do terceiro, Rybakina recuperou o sorriso, voltou a ver a luz, bateu Aryna Sabalenka, “vingou” esse desaire que tivera há três anos e conquistou o segundo Grand Slam da carreira depois do triunfo em Wimbledon no ano de 2022 com um poderoso ás no ponto decisivo antes de uma festa comedida entre a sua equipa apesar de haver mais uma tatuagem a caminho para Vukov depois de ter imortalizado no braço a vitória da jogadora cazaque na relva londrina de 2022.

O encontro começou logo com um break de Rybakina, que viu Sabalenka chegar aos 30-0 com dois grandes serviços antes de adotar uma estratégia de dar um último passo para o lado na tentativa de antecipar onde ia cair a bola para conseguir colocar a resposta bem no fundo do court. A partir daí, geriu o primeiro parcial no seu serviço: ainda teve dois pontos de break no seu serviço no oitavo jogo, percebeu que a bielorrussa estava mais consistente nos seus jogos mas nunca deixou que a número 1 tivesse oportunidade de chegar ao gatilho que lhe permitisse equilibrar as contas, fechando o set inicial com 6-4 entre quatro ases, 68% de primeiro serviço (contra apenas 48% de Sabalenka), mais winners (13-9) e menos erros forçados (9-7).

Sabalenka tinha presente de que não poderia dar a volta enquanto não colocasse mais pressão no serviço de Rybakina até fazer o break, entrando logo no segundo set com mais pontos de break num só jogo (três) do que tivera em todo o primeiro parcial. Mais uma vez, a cazaque agarrou-se ao melhor que tinha: bom serviço, jogo em potência, colocação de bola para fechar o ponto em poucas pancadas. Foi assim que segurou esse longo segundo jogo do segundo set, anulando a possibilidade de haver um desequilíbrio inicial que chegaria apenas de novo na décima partida, com a bielorrussa a voltar da cadeira com tudo para anular o jogo de serviço de Rybakina e fazer o break em branco para fechar o segundo set também por 6-4, com 95% de eficácia nos pontos feitos no primeiro serviço naquele que foi um dos poucos parâmetros a fugir ao equilíbrio.

O encontro tinha mudado de vez, com Sabalenka a passar também para a frente no duelo de esquerdas para aproveitar uma entrada com baixa percentagem de primeiro serviço de Rybakina e fazer logo o break, a que se seguiria o 3-0 com cinco jogos seguidos ganhos pela bielorrussa. A vantagem passava por completo para o lado da número 1 mundial, a cazaque tinha ainda uma última vida para jogar no quinto jogo, quebrando o serviço da bielorrussa com apenas um ponto consentido e voltando a igualar a final. Sabalenka voltou a ter um break não concretizado de seguida mas não evitou o 3-3, quebrando de vez no seu jogo de serviço com a quarta vitória seguida da adversária. Rybakina voltava a ter tudo na mão e não tremeu, fazendo o 6-4.