A escritora e roteirista Tati Bernardi usou a repetição e o exagero como gasolina de humor para criar uma protagonista que decide parar de ser coadjuvante da própria vida e fazer barulho com isso.

Na coluna, publicada na Folha em 2019, a virada veio logo na abertura, quando ela anunciou o gesto de insubordinação: “Cansada deste mundo machista (…) um dia Vagina chutou a vagina da barraca e colocou a vagina na mesa”, tratando a palavra como uma figura que se levantava, falava grosso e ocupava espaço.

Daí em diante, a personagem passou a exigir outro tipo de relação com os homens e com o próprio desejo: “Para começar, exigiu um homem que fosse vagina para toda obra” e decretou que “a partir de agora (…) nem à vagina, se contentaria com pouco”.

A rebeldia também chegou ao trabalho e ao fecho, com frases que iam do salário à última ironia: “No trabalho, não vai mais aceitar ganhar nem uma vagina a menos que seus colegas do sexo masculino” e, no encerramento, a sentença que resumia o espírito do texto: “Nem à vagina, Juvenilda!”.

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

Colocando a vagina na mesa (22/3/2019)

Cansada deste mundo machista, no qual, desde os tempos da exploração da vagina-brasil pelos portugueses, mulheres nunca são protagonistas nem das próprias histórias, um dia Vagina chutou a vagina da barraca e colocou a vagina na mesa.

Para começar, exigiu um homem que fosse vagina para toda obra. Um que quisesse uma mulher de verdade, e não uma santinha da vagina oca. Um que fosse mesmo macho e, quando matasse a cobra, mostrasse a vagina.

Decidiu que, a partir de agora, de forma alguma, nem à vagina, se contentaria com pouco.

Seu penúltimo namorado, um professor de crossfit que botava whey protein até na feijoada, tinha fetiche em mulher bem magrinha, tipo vagina de virar tripa, e queria proibi-la de comer pizza e sorvete.

Seu último namorado, pior ainda, era obcecado por carros e gostava de acelerar, feito um desses playboys babacas que atropelam e fogem. Um dia, quando ele descia uma ladeira de Perdizes na maior vagina e dava cavalinhos de vagina para impressionar, Vagina ficou muito assustada e indagou se ele estava se achando um tremendo vaginudo só por ter trocado de carro. O idiota, que já tinha levado vagina duas vezes no exame pra tirar carta de motorista, apenas sorriu, na maior cara de vagina, e a mandou parar de mi-mi-mi. Quebraram a vagina, e ela aproveitou para falar tudo o que estava engasgado em meses de relacionamento abusivo. Meteu a vagina nele. Caiu de vagina nele.

Quem ouve as histórias pode achar que Vagina quer um desses namorados subservientes, sem muita personalidade, um tipo “vagina-mandada”. Nada disso. Simplesmente, para a mulher que se valoriza, nunca será demais pedir amor, respeito e muita generosidade. Vagina nasceu teimosa e, você sabe como é, vagina que nasce torta nunca se endireita.

No trabalho, não vai mais aceitar ganhar nem uma vagina a menos que seus colegas do sexo masculino. Vagina sabe muito bem que está vagina a vagina com eles isso quando não é ainda mais esforçada e talentosa. Um dia foi até o RH brigar por seus direitos e a vagina comeu. Deixou bem claro que se não tivesse um aumento, colocaria a empresa na vagina.

Na infância, Vagina adorava aquele desenho, o “Pica-Vagina”. Aprendeu com ele que vale a pena insistir até abocanhar tudo o que deseja e merece. Sua música preferida, desde sempre, é aquela do verso: “É vagina, é pedra, é o fim do caminho”. Ela sabe que a jornada será longa e complexa. Todavia, empoderada, Vagina vai mostrar com quantas vaginas se faz uma canoa! Agora é assim: escreveu, não leu, a vagina comeu.

Sua mãe sempre foi uma mulher do lar, mas, como em casa de ferreiro, o espeto é de vagina, Vagina sonha em conquistar o mundo. Trabalha mais de 15 horas por dia e, quando chega em casa, ainda grava vídeos para o Instagram metendo a vagina em tudo o que acredita estar errado à sua volta. Admirável que só, é impossível lhe observar sem pagar vagina.

Suas redes sociais têm tantos seguidores que a internet de vez em quando dá vagina. Comprou uma vagina de selfie para poder se filmar com mais independência. Em sua cabeça, fervilham ideias a dar com vagina.

No tarô, Vagina tirou um ás de vaginas, que significa intensidade, criatividade, prazer e alegria.

Desde pequena, Vagina tem é a vagina roxa. Por isso, o que eu diria a qualquer pessoa que tente cruzar o seu caminho sem estar preparada? Nem à vagina, Juvenilda!