Tudo partiu de uma ordem que exigia um regresso a um “padrão de ouro para a ciência”, só que os especialistas dizem que essa ciência é imparcial

A doença cardíaca é a principal causa de morte entre homens e mulheres norte-americanos – e tem-no sido há mais de 100 anos. Na verdade, as doenças cardiovasculares constituem a principal causa de morte em adultos em todo o mundo, sendo responsáveis por uma em cada três mortes.

Os cardiologistas apontam a inatividade física, o tabagismo, a hipertensão, o colesterol elevado e a diabetes como culpados, tal como uma dieta pouco saudável repleta de cereais refinados, açúcares adicionados e gorduras saturadas que obstruem as artérias, presentes nas carnes vermelhas e processadas e nos laticínios gordos.

As Diretrizes Alimentares para os Americanos 2025-2030, recentemente divulgadas, restringem os cereais refinados, os açúcares adicionados e os alimentos ultraprocessados – uma medida aplaudida pelas organizações médicas.

Contudo, a pirâmide alimentar revista – que inverte a lógica das pirâmides anteriores – coloca também a carne vermelha e outros alimentos ricos em proteína e gordura saturada num papel de destaque no topo, ao lado de vegetais frescos e frutas conhecidos por protegerem a saúde.

Em declarações à CNN, os principais cardiologistas consideram tratar-se de um raciocínio invertido.

“Promover a gordura saturada e aumentar a quantidade de proteína vai contra toda a ciência da nutrição e da cardiologia”, afirma Kim Williams, diretor do departamento de medicina da Universidade de Louisville, no Kentucky.

“Investigamos isto há décadas e sabemos definitivamente que a gordura saturada – como a gordura da manteiga, o sebo de vaca e a carne vermelha e processada – está estritamente associada a mais mortes por doença cardiovascular”, sublinha Williams, ex-presidente do American College of Cardiology. “Isto não está em conformidade com a ordem executiva 14303 do Presidente Trump, que exige que todas as políticas federais utilizem as melhores provas científicas disponíveis.”

Essa ordem executiva, assinada por Trump a 23 de maio de 2025, exigia um regresso a um “padrão de ouro para a ciência” para garantir “que as decisões federais sejam informadas pelas provas científicas mais credíveis, fiáveis e imparciais disponíveis”.

No entanto, segundo os cardiologistas, é exatamente a ciência imparcial, verificada e credível que as novas diretrizes ignoram. De facto, ensaios clínicos aleatorizados – o atual padrão de ouro da investigação – descobriram que substituir gorduras saturadas por óleos vegetais e de sementes reduziu a doença cardiovascular em cerca de 30%, um benefício semelhante ao das estatinas.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., é visto ao lado da pirâmide alimentar reformulada, que promove proteínas de origem animal, na sede da agência em Washington, em 8 de janeiro. (Kent Nishimura/Bloomberg/Getty Images)

“Não há dúvida de que, quando removemos a gordura saturada da dieta e adicionamos gorduras polinsaturadas e monoinsaturadas provenientes de peixe, sementes e plantas, salvamos vidas ao melhorar a saúde cardiovascular”, garante Monica Aggarwal, professora associada de medicina cardiovascular na Universidade da Flórida, em Gainesville.

“As pessoas vão olhar para a nova pirâmide e pensar ‘Oh, posso comer o bife que quiser’. As redes sociais já estão cheias de manchetes como: ‘A carne de vaca voltou ao topo’, ‘A manteiga voltou’ ou ‘O sebo de vaca é o caminho a seguir'”, lamenta a especialista. “No entanto, não há debate sobre o facto de a gordura saturada nesses alimentos estar ligada à doença cardíaca.”

Descartar décadas de ciência

Numa conferência de imprensa realizada a 8 de janeiro sobre as novas diretrizes, as autoridades federais manifestaram o seu desdém pelas orientações nutricionais do passado.

“Durante décadas, fomos alimentados com uma pirâmide alimentar corrupta que teve um foco míope na diabolização de gorduras saturadas naturais e saudáveis, dizendo-nos para não comer ovos e bife e ignorando um ponto cego gigante: hidratos de carbono refinados, açúcares adicionados e alimentos ultraprocessados”, afirmou Marty Makary, comissário da FDA (agência federal do medicamento e alimentação dos EUA), no briefing.

As novas diretrizes alimentares recomendam que menos de 10% das calorias diárias totais provenham de gorduras saturadas, um valor não muito distante das recomendações da American Heart Association (AHA) para manter as gorduras não saudáveis abaixo dos 6%.

No entanto, os especialistas alertam que 10% ou menos é um objetivo impossível se a maior ênfase do movimento Make America Healthy Again (MAHA) for comer mais proteínas com gorduras saturadas.

O Nutrition Source, um recurso online da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, colocou recentemente à prova as novas diretrizes, que recomendam três porções de laticínios por dia.

Se essas três porções fossem de produtos gordos – leite gordo com cerca de 5 gramas de gordura saturada e quase uma chávena de iogurte grego gordo com cerca de 28 gramas de queijo cheddar, cada um com 6 gramas de gordura saturada -, o total seria de 17 gramas.

De acordo com os cálculos de Harvard, para uma pessoa numa dieta de 2.000 calorias por dia, com um limite de 22 gramas de gordura saturada, restariam apenas 5 gramas para o resto do dia. Se adicionar uma única colher de sopa de manteiga (7 gramas) ou sebo de vaca (6 gramas), a pessoa já ultrapassou o seu limite diário de 10% de gordura saturada.

Ao adicionar um hambúrguer normal cozinhado em casa (mais de 13 gramas), ou um “Steakburger 7×7” da Steak ‘n Shake (66 gramas de gordura saturada e 7 gramas de gorduras trans) e uma dose grande das suas batatas fritas em sebo de vaca “RFK’d” (24 gramas de gordura saturada e 2,5 gramas de gorduras trans), os níveis de gorduras perigosas disparam.

A CNN contactou a Biglari Holdings, proprietária da Steak ‘n Shake, para obter comentários, mas não obteve resposta até ao momento da publicação.

O papel das gorduras trans na saúde cardíaca

As gorduras trans encontradas nos alimentos da Steak ‘n Shake são consideradas o pior tipo de gordura saturada, segundo os especialistas. Este tipo de gordura é proibido nos Estados Unidos, exceto em quantidades minúsculas, devido à sua forte ligação a ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVC). Fabricadas através de um processo industrial no qual se adiciona hidrogénio a óleos vegetais líquidos para os tornar mais sólidos, as gorduras trans são baratas de produzir e aumentam o prazo de validade dos alimentos.

Fontes naturais de gorduras trans encontram-se na carne, leite, manteiga e queijo de animais ruminantes – vacas, ovelhas, cabras – e são consideradas por alguns no movimento MAHA como saudáveis.

Os cardiologistas discordam. As gorduras trans naturais encontradas em alimentos de animais ruminantes e, em menor grau, na carne de porco e aves, são “ativamente pró-inflamatórias” e levam à aterosclerose ou endurecimento das artérias, explica Kim Williams.

“O sebo de vaca contém gorduras trans de ruminantes em níveis muito acima do que é considerado seguro. Quando combinado com elevada gordura saturada, como em alimentos fritos ou hambúrgueres gordurosos, o risco combinado é substancial”, avisa o médico.

Ciência de longa data

Os avisos sobre os perigos da gordura saturada não são novos. A American Heart Association recomendou uma mudança da gordura saturada causadora de doenças para opções saudáveis em 1961, agindo com base em recomendações fundamentadas em dados do seu comité de nutrição, estabelecido pela primeira vez em 1954.

As atualizações ao longo dos anos às diretrizes do American College of Cardiology e da American Heart Association reiteraram esse conselho, citando centenas de estudos de referência sobre o papel das gorduras na doença cardíaca.

“Nunca foi uma questão de ‘sem gordura’ ou ‘pouca gordura'”, esclarece o cardiologista preventivo Andrew Freeman, diretor de prevenção cardiovascular e bem-estar no National Jewish Health, em Denver.

“Todos os tipos de gordura podem desempenhar um papel numa dieta saudável, mas a ênfase está nas gorduras polinsaturadas e monoinsaturadas”, refere Freeman. “É isso que a dieta mediterrânica e outras dietas predominantemente vegetais demonstraram.”

Estudos descobriram que a premiada dieta mediterrânica pode reduzir o risco de diabetes, demência, perda de memória, depressão e cancro da mama. A investigação também ligou esta dieta a ossos mais fortes, colesterol mais baixo, um coração mais saudável e uma vida mais longa.

Apoiada por décadas de estudos científicos, a dieta mediterrânica limita o consumo de carne vermelha e laticínios integrais. (Cortesia da Oldways)

A pirâmide da dieta mediterrânica foca-se em frutas e vegetais frescos, cereais integrais, sementes, algum peixe e azeite saudável para o coração, com ênfase em refeições com família e amigos e exercício diário. A carne vermelha e os doces são extremamente limitados, concebidos para serem servidos apenas em ocasiões especiais.

Proteína insuficiente?

O comissário da FDA, Marty Makary, focou-se também na necessidade de mais proteína na dieta americana, especialmente para as crianças.

“As antigas diretrizes tinham uma recomendação de proteína tão baixa que a estamos a aumentar em 50% a 100% – as crianças precisam de proteína”, defendeu Makary. “As antigas diretrizes de proteína serviam para prevenir a fome e o definhamento. Estas novas diretrizes de proteína são concebidas para que as crianças americanas prosperem, e baseiam-se na ciência, não em dogmas.”

Contudo, a maioria dos norte-americanos, incluindo as crianças, consome hoje em dia muito mais proteína do que normalmente necessita, contrapõem os peritos.

“Exceto os muito doentes ou idosos, a deficiência de proteína quase não existe nos Estados Unidos”, nota Freeman. “Sabemos também que o excesso de proteína sobrecarrega os rins e está ligado a certos cancros.”

“Se olharmos para o que o MAHA defende, é exatamente o oposto do que Trump está a fazer com esta orientação. Não bate certo”, conclui o especialista. “Precisamos que os nossos políticos se concentrem em mudar comportamentos pouco saudáveis, não em promovê-los. Aumentar a gordura saturada que muitas vezes vem associada às proteínas que a nova pirâmide recomenda não é do interesse de ninguém.”