Para quem tem lido as minhas resenhas, deve-se ter tornado óbvio que sou algo assimétrica. Tanto rejubilo com uma maratona de Kubrick, como passo temporadas obcecada pelo Big Brother Brasil. Está nessa altura do ano, já agora. Se houver aí fãs, mandem mensagem que não tenho uma alminha com quem falar deste lado do Atlântico. E foi nessa assimetria que Ryan Murphy me apanhou. Fiquei meio pelo beicinho por ele com Glee, um “coming of age” musical, carregadinho de referências pop recheado de miúdos multi-talentosos, o que é que há para não amar?
Vai daí, Murphy atira-me à cara com American Horror Story, uma antologia de terror como nunca tinha visto em televisão. Eu, que consumi terror péssimo durante a minha juventude, uma vez que os bons filmes do género estavam em clara desvantagem na prateleira do videoclube (sim, sou assim tão velha), rejubilei com American Horror Story. Horror tão pavoroso quanto bonito (a fotografia, os cenários, o guarda-roupa…), com boas histórias, ótimos personagens bastante prejudicados da cabeça e atores do caraças.
Foi esta antologia que resgatou Jessica Lange (se nunca viram O carteiro toca sempre duas vezes, vão ver) e Angela Basset (a Tina Turner no biopic What’s Love Got to Do with It), catapultou Evan Peters (e Murphy deu-lhe mais um empurrãozinho com o protagonista de Dhamer), Sarah Paulson (odiosa em 12 Anos Escravo, perfeita em tudo o que faz) e Lily Rabe (a filha de Harrison Ford em Shrinking, uma obsessão atual). Foi onde Lady Gaga se estreou como atriz (e esse mérito ninguém lhe tira) e onde todos os atores gatos de cabelo negro e olhos azuis têm um lugar. Claramente, Murphy tem um tipo e ninguém aqui o vai julgar por isso.
E porque é que estou a falar de American Horror Story? Não saiu nenhuma temporada nova, certo? Mais ou menos. The Beauty, disponível na Disney+, estreou-se dia 21 de janeiro. Tendo visto os primeiros 4 de 11 episódios, diria que a nova série do criador podia bem fazer parte da antologia. Já explico porquê.
The Beauty começa com uma sequência ao som de Fire Starter dos Prodigy, o que apela instantaneamente ao meu eu adolescente caótica, e é perfeito para o que se segue. Um desfile, em Paris, protagonizado pela belíssima Bella Hadid que começa a limpar o sarampo à assistência e avança para os papparazi sem dó nem piedade, o que lhe deve ter dado especial prazer, mediática como é. Segue-se uma perseguição de mota, em que ela enverga um conjunto em cabedal vermelho, mantendo-se cheia de pinta, apesar do surto homicida. Semeia o caos e cadáveres num restaurant trés “Oh là là” e quando sai tem a polícia toda da cidade à espera dela de arma em riste e… a modelo rebenta, qual granada com pernas esguias, espalhando tripas e sangue por todo o perímetro.
Não foi uma bomba, um disparo ou qualquer engenho, foi um “eu qualquer dia expludo” nada metafórico. Que raio é que se passou, perguntam vocês? É aqui que entra a dupla de investigadores da trama. Cooper Madsen (Evan Peters, ator-fétiche de Murphy) é americano e tem uma parceira inglesa, Jordan Bennet (Rebecca Hall, a morena de Vicky Cristina Barcelona e que entrou recentemente num dos meus episódios preferidos de The Studio). E não só fazem parelha no trabalho, como se emparelham um no outro nas horas vagas, se é que me faço entender.