Ao longo das aldeias de Coimbra e de Leiria o cheiro a gasolina e a vibração dos geradores é uma constante. Tem sido uma corrida para os arranjar. Filipe já não conseguiu nenhum em Coimbra: “Tinha uma lista de mais de 70 pessoas e estamos a falar do de Coimbra. Mas eu precisava dele agora”. Teve de ser o irmão a ir comprá-lo na sexta-feira ao Seixal, no distrito de Setúbal. Era o último, custou 430 euros e tem 3000 watts, o que significa que não dá para grandes luxos.

“Dá para manter a comida na arca e frigorífico e é só. Não há aquecimento”, diz, acrescentando que o jantar dessa noite ainda terá de ser à luz de velas. “É uma despesa enorme. Um gerador de 3000 watts para ligar o básico, uma arca e um frigorífico são 2,50 L de gasolina só para estar a trabalhar duas horas a abastecer estas duas coisas. Quem é que consegue pagar isto?”. A falta de eletricidade, a somar à ausência de rede e internet, traz outros problemas, principalmente para quem trabalha em casa, como é o caso de Filipe. O designer, que trabalha para uma empresa holandesa, ainda tentou ir fazê-lo a partir de uma biblioteca municipal, mas não foi o único a ter a ideia, o que sobrecarregou a rede e o impediu de trabalhar a 100%.

Noutras aldeias o principal problema é a falta de água. Em Sobreiras, Ferreira do Zêzere, a rede de abastecimento só foi resposta na sexta-feira ao final do dia, depois de muita insistência da população junto das autoridades locais. “Vou poder finalmente tomar banho”, congratulou-se Sérgio depois de mais um dia dedicado a reparações nas vizinhanças. Já em Degracias este sábado a água continuava a faltar, obrigando muitos dos moradores a recorrer às casas de familiares e amigos para a higiene básica.

Apesar das dificuldades, o apoio das autoridades locais, seja de bombeiros ou elementos das Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais, tem sido essencial, vão descrevendo os moradores das várias localidades onde o Observador passou. Mas não é suficiente, é preciso apoio das autoridades centrais, sublinha Filipe. “O Governo não percebeu nadinha do que se está aqui a passar”, lamenta o morador de Câneve, criticando as palavras da Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, que disse esta sexta-feira que “há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade, no gabinete”.

“A ministra vem dizer que estão a fazer trabalho de gabinete, venham é ao terreno. Não é num gabinete a olhar para as letras de um relatório que vão perceber a realidade do que se está a passar”, denuncia. O designer critica também a falta de atenção que os estragos provocados pela tempestade Kristin receberam da comunicação social em comparação com o apagão do ano passado. “O ano passado afetou toda a gente e estavam sempre a passar o problema. Este ano não, foi o Benfica que ganhou, foi o Trubin. E o resto do país?”, questiona.