Com a voz da sua experiência, fala para os agricultores de Portugal: “Vão em frente, mas adaptem-se ao que não conseguimos controlar.” É preciso pensar no que nos pode dar a nossa terra, sem pressa nem pressão. Caso contrário, conclui, “não há futuro”.
Joana Vacas Freixa tem 38 anos e está já a aproximar-se do limite da idade para ser considerada uma jovem agricultora. Apesar de ter atrás de si quatro gerações de agricultores na Herdade da Torre, com 22 hectares, na região de Alcácer do Sal, no Alentejo, as mudanças que fez nas suas terras são recentes.
Licenciada e mestre em Gestão de Empresas pela Nova SBE, a jovem agricultora apresentou no início de 2025 uma candidatura ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), que a levou a ser distinguida como Jovem Agricultora do Ano no Concurso Nacional de Jovens Agricultores, uma iniciativa da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).
No final de 2025, venceu o Prémio de Melhor Jovem Agricultora da Europa, na categoria de Desenvolvimento Rural e Sustentabilidade, durante a 11.ª edição do Congresso Europeu de Jovens Agricultores, onde representou Portugal.
Procurámos perceber a razão desta distinção. Joana Vacas Freixa explica o que mudou para a gestão sustentável de montado de sobro e fala no novo ciclo, iniciado em 2024, com a reactivação da exploração de gado ovino, apostando na valorização da raça autóctone do merino preto.
O que é que o seu projecto tem de diferente?
O projecto consiste em três grandes áreas de actuação. A primeira passa por reintroduzir na exploração agrícola, na zona de Alcácer do Sal, uma raça autóctone de gado ovino que é o merino preto. Até aqui a aposta era na ovelha merina branca.
Porquê esta raça? Foi por se adequar melhor às condições climáticas?
Adequa-se muito bem às condições climáticas da região. É uma raça autóctone, rústica e as raças rústicas são normalmente animais mais rijos e mais fortes. É também uma raça histórica, que tem estado um pouco esquecida no mercado português.
Joana Freixa apostou na raça autóctone de gado ovino que é o merino preto
DR
Por que é que tem sido esquecida? Não dá lucro? É mais exigente em termos de cuidados?
Não, é o contrário. Dá até mais lucro do que as outras. É verdade que os animais são mais caros, a compra de efectivo que são as ovelhas reprodutoras. Mas estes animais são muito rústicos, duram muito tempo, são animais que produzem, fazem filhos muito facilmente.
Quantos têm agora?
Neste momento, aproximadamente 300. Também tenho alguns borregos. Comecei com zero no Verão de 2024, quando comprei o primeiro lote de 70, e em dois ou três anos gostaria de ter mil.
Além da reintrodução desta raça, que mudanças fizeram nesta herdade com 400 hectares?
Consegui a autorização ambiental, que é obrigatória, para a execução de dois furos para captação de água, que serão explorados com energia solar. A ideia é canalizar toda esta água por toda a exploração de forma a maximizar a actividade extensiva, melhorar as pastagens e, nomeadamente, a zona de sobreiros.
E a terceira área de actuação?
A terceira é uma forma de planear o pastoreio de uma maneira mais eficiente, sustentável. No fundo, é ter cercas mais pequenas, em que o gado passa períodos mais curtos. Desta forma, conseguimos dar mais descanso ao solo para haver uma regeneração mais eficiente e sustentável da pastagem. Isto é um bocadinho técnico.
A Herdade da Torre, em Alcácer do Sal
DR
Não, é importante. Explique-me melhor essa opção.
É a ideia do descanso do solo, que normalmente não é feita dessa forma. No Alentejo, estes animais são levados e deixados durante mais tempo em áreas grandes, largados no campo. O que eu e outros agricultores pretendemos, nomeadamente os agricultores mais jovens, é ter o gado em pequenas parcelas durante um período curto, e roda. Assim, aquele solo tem mais descanso e consegue-se regenerar a pastagem de uma maneira mais natural.
Tem quantas pequenas áreas destas?
Neste momento temos apenas 14 ou 15, mas a ideia é duplicá-las. Ou triplicá-las.
Tendo em conta a situação económica e política em que nós vivemos, acho que devemos perceber que o tema da soberania alimentar é cada vez mais relevante. O mundo pode dar as voltas que vai dar, mas nós precisamos de todos de comer, comida na mesa, não é?
Joana Vacas Freixa
Mas isso requer a aquisição de mais terra?
Não, é só fazer cercas. Cercas fixas ou móveis.
Em que fase está o projecto a nível geral?
Estou a finalizar os furos da parte da captação de água. E a instalação da energia solar também está em curso.
Mas teve que avançar dinheiro para isso ou não?
Tive que avançar dinheiro, que depois será a parte reembolsada.
Acha que os agricultores portugueses estão a ser apoiados para mudar as práticas agrícolas?
Pela minha experiência, que passa por um projecto de jovem agricultora, acho que os apoios que temos são uma mais-valia no mercado português (que vai sendo definido por regras comunitárias) para pessoas que querem iniciar ou reiniciar uma actividade no sector agrícola. É fundamental que continuem. É realmente importante ter incentivos à instalação para iniciar a actividade agrícola, porque é muito difícil.
Quais são os principais desafios?
É um sector de rentabilidades baixas e, muitas vezes, são precisos muitos anos até se conseguir o equilíbrio e o retorno do investimento feito. Se não houver estas ajudas, é difícil.
Também cultiva cereais e arroz para alimentar o gado, para uma maior autonomia. Porque é que a sustentabilidade foi importante para o seu projecto?
Por vários motivos. Acredito que se consegue fazer muitas vezes o mesmo de uma forma diferente e gastando menos. A agricultura que conheci no passado era muito à base de passar máquinas, gastar combustível, gradar, mexer a terra, e, no fundo, os benefícios, com os anos, não eram assim tantos. Por outro lado, vivemos num país que está geograficamente numa zona em que a escassez de água é um problema, apesar de que a verdade é que neste último ano e meio tem sido uma excepção, em relação aos últimos dez anos.
Sim, segundo os dados do IPMA do boletim sobre 2025, já não chovia tanto em Portugal há mais de uma década.
É verdade. Agora, atenção, não sabemos se isso vai permanecer, não é? Provavelmente não. É difícil fazer essas previsões.
Porém, na região do Alentejo tudo indica que a falta de água vai continuar a ser um problema grave…
O Alentejo e o Algarve são regiões onde a falta de água é um problema e será nos próximos anos, é evidente. Portanto, o que é que temos de fazer? Temos que conseguir continuar a ter recursos saudáveis, neste caso árvores, pastagens e solos. Com Verões mais de extremos no que se refere ao calor, por exemplo, temos de conseguir manter o equilíbrio. São condições que nenhum de nós controla directamente. E foi isso que procurei fazer.
Temos de fazer mais com menos água, mas também com menos agressão ao ambiente. Temos de deixar que a própria natureza desenvolva o que tem de bom
Joana Vacas Freixa
Adaptar-se?
Sim, temos de fazer mais com menos água, mas também com menos agressão ao ambiente. Temos de deixar que a própria natureza desenvolva o que tem de bom.
Também temos de contar com fenómenos mais extremos mais frequentes. Como vai gerir estes problemas?
Com prevenção e adaptação, pensando uma visão mais de médio a longo prazo, e também tentar procurar uma agricultura que requer menos água. É uma forma de proteger os nossos recursos naturais, fomentar o que a própria biodiversidade nos dá de maneira natural. No fundo, tentar tirar o melhor do que temos, porque não vamos conseguir mudar as condições climáticas.
Temos de perceber se as culturas que estamos a fazer são adequadas. Acho que houve alguns erros no passado. Tentámos pôr certos produtos, neste caso, produtos lucrativos, em zonas onde a terra terra e as condições climáticas não são propícias ou que consomem muitos recursos. Temos casos óbvios em Portugal e no Alentejo em particular.
Se a nossa terra dá para este género de produtos, porque é que estou a procurar uma que não é claramente adaptada às minhas condições? Não vou produzir ananás em Alcácer do Sal, certo?
Vê esse esforço de adaptação?
Isso não tem acontecido. A agricultura em Portugal tem sido muito explorada de forma intensiva. Tirar o máximo e o mais rápido possível. Isso tem de mudar, porque temos de preservar e manter aquilo que é a nossa terra de uma maneira sustentável e equilibrada. Daqui a 100 anos, não vamos ter como o fazer.
Sem adaptação, a agricultura em Portugal não tem futuro?
Não há futuro. Mas também penso que esta mudança de mentalidade é algo que já está a acontecer. Acho que as novas gerações pensam de maneira diferente.
A agricultura em Portugal tem sido muito explorada de forma intensiva, a explorar o máximo que se pode. Tirar o máximo e o mais rápido possível. Isso tem que mudar, porque temos que preservar e manter aquilo que é a nossa terra de uma maneira sustentável e equilibrada
Joana Vacas Freixa
Uma vez que está a passar por esta experiência de transformação, há algum conselho que possa dar a quem está a arregaçar as mangas, queira mudar a agricultura e esteja a tentar singrar?
Antes de mais, diria que acho que não devemos desistir do sector agrícola em Portugal. Começa por aí. Somos um país com uma área agrícola muito relevante. E tendo em conta a situação económica e política em que vivemos, devemos perceber que o tema da soberania alimentar é cada vez mais relevante. O mundo pode dar as voltas que der, mas todos precisamos de comer, comida na mesa, não é? Comida que temos condições óptimas para produzir.
Mas é um desafio…
Sei que não é fácil iniciar uma actividade em que a rentabilidade é baixa, em que os benefícios são baixos e demoram muito tempo a vir. Portanto, isso não é fácil. Mas acho que não devemos desistir. Ao longo deste ano, tenho tido muitas oportunidades de estar com muitos jovens, vejo que há cada vez mais vontade de entrar e vejo que há pessoas com muita formação nesta área, que têm realmente capacidade de trazer uma visão diferente para a agricultura.
E tratar as nossas terras de uma forma diferente, com outro respeito?
Com outro respeito, não tenho a menor dúvida. Com outro respeito e de uma maneira eficiente, porque é assim: no final do dia, vamos ser sinceros, a agricultura é um negócio como outro qualquer. Portanto, temos que conseguir fazer mais com menos. Por último, acho que é importante haver projectos que realmente tornem esta actividade aliciante e atractiva. E, em particular, projectos para jovens, abaixo dos 40 anos. Caso contrário, é difícil.
Qual é a parte inovadora da sua abordagem?
Sinceramente não sei até que ponto é que é mais inovador. O prémio que ganhei foi sobre desenvolvimento rural e sustentabilidade. Até diria que o meu projecto passa sobretudo por reintroduzir uma espécie autóctone, a preocupação pela soberania alimentar, e depois a tal gestão de uma forma eficiente e sustentável da terra e do solo. Acho que há outros projectos no sector muito mais inovadores.
No meio da nossa conversa, não ficou claro o conselho a quem quer investir neste sector. Apesar de tudo, é “vão em frente”?
Sim, vão em frente, mas adaptem-se ao que não conseguimos controlar. Têm que tomar decisões racionais pensando naquilo que nos pode dar a terra onde estamos.