Numa leitura apressada, é fácil concluir que a principal diferença da nova variante do BYD Atto 2 se resume à bateria de maior capacidade. Nada mais longe da realidade. O interior foi revisto, a suspensão traseira é agora distinta — e melhor — e, segundo a própria BYD, até a plataforma que serve de base a esta versão Comfort difere da utilizada no Atto 2 de menor autonomia. Com o modelo já em Portugal, foi possível colocá-lo à prova em contextos variados, da cidade às viagens mais longas, onde a autonomia adicional faz, teoricamente, maior diferença.

Mais europeu

Exteriormente, as alterações são subtis. É no interior que se encontram as mudanças mais evidentes. Os bancos são agora mais envolventes e o selector de mudanças passou para uma haste na coluna de direcção, libertando espaço na consola central, onde surge um carregador sem fios mais potente. O ecrã central deixa também de ser rotativo — uma funcionalidade que, segundo a BYD, não era particularmente valorizada pelos clientes europeus, algo fácil de acreditar.

Perde-se algum efeito cénico, daqueles que impressionam nos primeiros minutos, mas ganha-se em solidez. A montagem transmite maior robustez e, sobretudo, desaparecem os ruídos parasitas naquela zona, frequentes em mecanismos móveis sujeitos às vibrações das estradas nacionais.

O habitáculo mantém uma apresentação cuidada, agora mais sóbria e claramente orientada para o gosto europeu. Não se trata de um segmento premium, o que fica patente nos plásticos mais duros das zonas inferiores das portas, mas os materiais nas áreas de contacto frequente revelam atenção ao detalhe. A habitabilidade continua a ser um dos pontos fortes, fruto da plataforma dedicada. O piso plano atrás facilita a vida a três adultos no banco traseiro e o espaço para as pernas é generoso, mesmo com um condutor de estatura elevada. A bagageira não impressiona nos números, mas cumpre com honestidade o papel familiar.

Melhor “pisar”

É na dinâmica que a evolução técnica se faz sentir de forma mais clara. Ao abandonar o eixo de torção traseiro em favor de uma suspensão independente multilink, os engenheiros da BYD deram um salto qualitativo evidente. O pisar é mais refinado. Irregularidades do asfalto, tampas desniveladas ou raízes que levantam o alcatrão são filtradas com eficácia, sem que isso se traduza num excesso de movimentos da carroçaria em curva. O compromisso entre conforto e estabilidade está bem conseguido.

O motor eléctrico passa agora a debitar 150 kW, o equivalente a 204 cavalos. É um ganho significativo face às versões de entrada e sente-se na resposta imediata e vigorosa. As ultrapassagens fazem-se com a rapidez típica dos eléctricos, mas a gestão do binário é suficientemente progressiva para não colocar em causa a tracção, mesmo à saída de curvas mais apertadas.




O tecto em vidro ajuda a criar uma sensação de espaço a bordo
SM

No capítulo sensível da autonomia, convém separar marketing e realidade. A bateria LFP de 64,8 kWh anuncia valores optimistas, mas em utilização real os números são mais contidos. Em percurso misto, combinando cidade e estrada nacional, é razoável contar com cerca de 350 quilómetros. Em auto-estrada, a uma média próxima dos 120 km/h, a autonomia desce para cerca de 280 quilómetros.

Não chega para uma viagem Porto–Lisboa sem paragens, é certo. Mas a velocidade de carregamento compensa. A versão Comfort aceita potências até 155 kW em postos rápidos e, no teste, confirmou-se a capacidade de manter valores elevados durante boa parte da curva de carga. Dos 10 aos 80 por cento bastam cerca de 25 minutos. Numa viagem em auto-estrada, a paragem técnica exige pouco mais do que o tempo de beber um café e responder a um ou dois emails. Em 15 minutos recuperámos cerca de 120 quilómetros de autonomia a ritmo de auto-estrada. É isto que permite retirar o Atto 2 do contexto exclusivamente urbano e encará-lo como carro principal.

Sempre a “apitar”

A tecnologia de assistência à condução está presente em força, por vezes com excesso de zelo. O sistema de manutenção na faixa é demasiado interventivo e o aviso de excesso de velocidade — obrigatório por lei — faz-se ouvir com insistência sempre que interpreta mal um sinal. Também o sistema de monitorização do condutor revela limitações: basta olhar para o mapa de navegação no ecrã central para surgir um aviso de distracção.




O ecrã central funciona como um íman para impressões digitais
SM

O sistema de infoentretenimento, com suporte para Android Auto e Apple CarPlay, é, felizmente, rápido e intuitivo, permitindo configurar estas ajudas, ainda que algumas exijam nova desactivação sempre que se liga o carro. É o preço da segurança moderna, dirão uns; uma burocracia irritante, dirão outros.

Em sentido positivo, destaca-se a generosa dotação de série. Há V2L (que transforma a ficha de carregamento numa tomada eléctrica), bomba de calor (para aumentar a eficiência em dias frios), chave digital via smartphone e possibilidade de trancar ou destrancar o automóvel por NFC. A lista inclui ainda câmara de 360 graus e carregador interno de 11 kW, adequado a wallboxes e postos públicos AC.

Veredicto

O BYD Atto 2 Comfort não é um automóvel que procure emocionar ao volante, nem aquele que oferece a maior autonomia em auto-estrada. Mas a rapidez de carregamento torna-o numa opção credível como único carro da família, confortável no quotidiano urbano e competente nas viagens mais longas ocasionais. É uma proposta honesta, tecnicamente sólida e com uma experiência de utilização superior ao que a ficha técnica deixa antever. Num segmento cada vez mais concorrido, destaca-se pela relação qualidade/preço. Mas, curiosamente, a concorrência chinesa aperta. O Changan Deepal S05 e o Leapmotor B10 são maiores e ainda mais impressionantes numa análise de características/preço.

Motor

150 kW de potência (156cv) e 290 Nm de binário

Bateria

64,8 kWh totais, 58 kWh úteis, 400 volts, química LFP

Carregamento 

Lento (AC): 11 kW (0-100% em 6h15)

Rápido (DC): até 155 kW (26 min. e 100 kW de média entre 10-80%)

Bidireccional: V2L (3,3 kW)

Autonomia

WLTP (combinado): 485 km

Teste: 350 km (auto-estrada) a 560 km (cidade) 

Prestações

0-100 km/h: 7,5 segundos

Dimensões

4,310×1,1830×1,675 m (CxLxA), 1680 kg

Mala: 450 litros (expansível para 1370 litros)

Preço

Desde: 39.425€