O corpo, essa “tecnologia de futuro”
O Salvado da portuguesa Olga Roriz, um auto-retrato dançado sobre o que pode (ou resta de) um corpo trespassado pelo tempo, pela memória e pela reinvenção, levado a palco pela primeira vez em 2025. Chotto Desh pela Akram Khan Company, em estreia nacional, baseado no solo que valeu o Prémio Olivier ao coreógrafo inglês de origem bengali e apresentado como “um conto envolvente sobre os sonhos e memórias de um jovem que procura encontrar o seu lugar no mundo, num percurso intercultural entre a Grã-Bretanha e o Bangladesh”.
Assim começa e acaba, pela mesma ordem, a 15.ª edição do Guidance – Festival Internacional de Arte Contemporânea, dedicada à “sincronização da diversidade”. Entre experimentalismos e reinvenções, do corpo ao movimento e ao pensamento crítico, o programa apela ao acertar do passo mesmo quando a dança se faz no terreno do diferente e do improvável, apontando a “novas formas de pensar e sentir, como possibilidade de crescimento de todas as nossas diferenças”, faz saber Rui Torrinha, o director artístico, na nota de intenções.
Entre talentos emergentes e consagrados, da esfera íntima à dimensão colectiva, convocam-se criações que atravessam diferentes gerações, geografias e linguagens, evidenciando o corpo como “tecnologia de futuro”, no lugar de “principal mediador entre o humano, a comunidade e o mundo natural”. Magnificat e BodyRemixRemix da Compagnie Marie Chouinard, Mercedes Máis Eu de Janet Novás e Mercedes Peón, O Sono da Montanha + O Gesto do Falcão de Tânia Carvalho, Quando Vem a Taciturna de Limiar em Limiar o Presente Frágil de Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão e Sirens de Ermira Goro são outros dos exemplos deste manifesto, que também se alimenta de conversas, masterclasses, debates, cinema e outras actividades.
Sons de Vez em bom português
Começa com Tiago Bettencourt e Rui Fernandes Quarteto. Segue, em duplas, com Retimbrar e Homem em Catarse, Milhanas e Daniela Galhoz, A Garota Não e Amy Rigby. Pausa para dar palco a Carlão. Entra nas batidas de Paus e Monchmonch, Best Youth e Ardours. E fecha a cortina ao som de Delfins.
No total, são 14 os nomes em cartaz e mais uma voltinha pelo que de melhor se faz na música nacional. Debitado à vez, em oito sábados, cortesia do festival arcoense Sons de Vez nesta que será a 24.ª edição do ritual que, assegura a autarquia, é “um verdadeiro baluarte da cultura e da identidade sonora do país contemporâneo”.
Retratos e reflexos da América
Numa aldeia remota de um país distante devastado pela guerra, um avião militar despenha-se e o piloto ferido é acolhido por quem lá vive. Mas a generosidade dos habitantes locais pode ficar por aqui, comprometendo o destino de todos. Vai depender “da forma como o mundo vê os Estados Unidos e como os Estados Unidos vêem o mundo”, revela a sinopse.
Com texto do escocês David Greig, O Piloto Americano foi às tábuas pela primeira vez em Abril de 2005. É agora levado a palco pelos Artistas Unidos, segundo a encenação de António Simão. Passaram-se duas décadas, mas o tema continua a fazer parte da actualidade: o choque cultural entre duas sociedades, a incapacidade de comunicação, as “relações de poder herdadas do colonialismo, da escravatura e da subserviência” e uma ordem que continua a opor uma superpotência ao resto do mundo. Américo Silva, Andreia Bento, Hélder Bráz, Joana Calado, Marco Mendonça, Nuno Gonçalo Rodrigues, Rúben Gomes e Simon Frankel compõem o elenco.
Porta-Jazz a dar notas na escala da empatia
De pautas afinadas com A Terra Vista do Ar, o tema desta 16.ª edição, o Festival Porta-Jazz alinha mais de uma centena de músicos de 18 nacionalidades para compor o que chama de “uma cartografia musical da empatia, da cooperação e da vertigem”. O valor não está, portanto, na “lógica triste do melhor produto, do mais premiado, do mais genial, do mais famoso”, dita a organização, mas sim nas centelhas sublimes que brotam da dimensão colaborativa – virtude esta que, aliás, está na génese do evento.
Sem cabeças-de-cartaz e com várias geografias e práticas no horizonte, entram em cena nomes como Littorina Saxophone Quartet, José Vale Summer School, Mané Fernandes, Ursa Maior, Almut Kühne, João Pedro Brandão, Marcos Cavaleiro, Satt & Olga Reznichenko, Pedro Neves, Ricardo Coelho, João Martins, AP, Hristo Goleminov Diagonal Shift ou Felix Hauptmann. Jam sessions e o espectáculo para famílias Contacto/Improvisação completam o programa.
Entre a essência e o figurino
Chega a Portugal com lastro de sucesso no Brasil onde, segundo a produtora Força de Produção, arrecadou aplausos de mais de 100 mil espectadores. O Figurante é Augusto que, por sua vez, é Mateus Solano, o actor brasileiro que neste monólogo veste o fato de um intérprete secundário do meio audiovisual.
Entre a comédia, a loucura e a melancolia, a trama espoleta uma reflexão sobre a identidade e o sentido de existência de quem vive na invisibilidade e/ou é colocado em segundo plano. “Na ânsia de fazer parte desse mundo, acabamos por nos afastar de nós mesmos a ponto de não sabermos se somos protagonistas ou figurantes da nossa própria história”, detalha Solano, que co-assina o texto com Isabel Teixeira e Miguel Thiré, a quem está entregue a encenação.
Depois da estreia em Lisboa, O Figurante vai para a estrada. Porto, Oliveira de Azeméis, Marco de Canaveses, Leiria, Faro, Figueira da Foz e Aveiro são as próximas coordenadas da digressão lusa.