As missas deste domingo na freguesia de Reguengo de Fetal terminaram com um aviso atípico. Perante a congregação, o presidente da Câmara da Batalha pediu que se evitassem riscos durante as reparações após a passagem da tempestade Kristin, apelo surgido um dia depois de um morador de 73 anos ter morrido enquanto reparava o telhado da casa de familiares. Tinha passado os últimos dias a ajudar outros vizinhos e preparava-se para acabar o trabalho na casa da cunhada, relata o sobrinho e ex-autarca Carlos Sousa. “A última coisa que ele fez foi pedir à cunhada que estava no sótão um balde de água e uma esponja para lavar o trabalho que fez, ele ia descer no imediato”, conta ao Observador, a partir do Centro Recreativo e Desportivo da Torre.

O acidente “serviu de aviso” numa altura em que “ainda há muitos telhados para arranjar”, reconhece, atrás do balcão do centro, João. Vai servindo cafés aos moradores do lugar da Torre, não longe de Reguengo. “Nestas semanas vão continuar as reparações”, explica. É uma necessidade que se sente um pouco por toda a região centro do país, fortemente atingida pela passagem da depressão, particularmente no distrito de Leiria.

Os trabalhos de reparação já provocaram uma outra vítima mortal: um homem de 66 anos que morreu em Alcobaça também enquanto arranjava um telhado. Há ainda a registar centenas de feridos, a maior parte dos quais deu entrada no Hospital de Santo André, em Leiria. Até cerca das 16h30 deste domingo, tinham sido atendidos nesta unidade hospitalar 545 feridos, indicou fonte da Unidade de Saúde Local ao Observador. São, na maioria, doentes com traumatismos, mas a  maior “preocupação” neste momento, admite a mesma fonte, é o número de pessoas que chegam ao hospital por intoxicações com origem nos geradores que têm permitido nos últimos dias assegurar eletricidade em muitas regiões afetadas pela depressão. Este domingo, foi noticiado que um homem de 74 anos acabou por morrer devido à exposição.

“Oh, Bruno, como é que estão as telhas? Aproveita-se alguma coisa?”. João Gonçalves, de 71 anos, está de olhos postos no telhado da casa de férias da família onde três vizinhos — que não são profissionais — vão martelando a chaminé que, como tantas por toda a região Centro, tombou na madrugada da tempestade. Antes de recorrer à vizinhança o reformado ainda tentou pedir ajuda aos bombeiros e à Proteção Civil, mas não teve sorte. “Disseram que tinham muito que fazer, que tinham de limpar as estradas, cortar as árvores no meio das estradas, que é a primeira prioridade deles e que não podem ajudar toda a gente e eu fiquei entalado”, relatou ao Observador ainda no fim de tarde de sexta-feira no lugar de Sobreiras, em Ferreira do Zêzere.