Pouco dias depois de chegar ao resort Riu Cabo Verde, na Ilha do Sal, Elena Walsh começou a sentir-se mal. A inglesa estava de férias no país a celebrar o noivado do filho quando contraiu uma virose estomacal, em agosto do ano passado. A dor tornou-se tão insuportável que teve de ser levada de emergência para o hospital.

A britânica de 64 anos foi diretamente para a Clinitur, uma das duas únicas clínicas privadas em Cabo Verde recomendadas no site do Ministério dos Negócios Estrangeiros. No entanto, acabou transferida para o Hospital Regional Ramiro Figueira, gerido pelo governo.

Os médicos tinham a certeza de que estavam a tratar uma apendicite, mas poucas horas depois de terem iniciado o procedimento cirúrgico, a turista morreu. Quando o corpo chegou ao Reino Unido, uma autópsia revelou que não havia nada de errado com o órgão.

O documento concluiu que a principal causa da morte havia sido uma insuficiência cardíaca, enquanto a secundária foi apontada como gastroenterite. “As últimas palavras que ela gritou foram: ‘estás a magoar-me, estás a magoar-me’”, disse o marido, Patrick, de 60 anos, ao jornal “The Times”. “Essa foi a última vez que a ouvi”. 

Elena não foi a única a perder a vida recentemente naquele país africano. Uma investigação realizada pelo jornal britânico e partilhada no passado sábado, 31 de janeiro, revelou que outros três turistas ingleses também morreram num período de três meses após Walsh, depois de terem adoecido na região e recebido cuidados médicos em hospitais locais.

As três outras vítimas, cujas identidades não foram reveladas, tinham idades entre os 54 e 64 anos. A causa da morta foi listada como complicações médicas — incluindo gastroenterite, fraturas ósseas e insuficiência cardíaca — que foram contraídas durante as férias. 

Além disso, segundo o mesmo jornal, há outro denominador comum: todos estavam hospedados num hotel da cadeia espanhola Riu, com seis resorts em Cabo Verde, quando começaram a sentir-se mal. Apesar de muitos turistas optarem por conhecer as ilhas de forma informal, a grande maioria escolhe pacotes com tudo incluído — e a operadora turística TUI é o maior fornecedor deste tipo de serviço.

De acordo com o jornal britânico, todas as vítimas sofriam de problemas de saúde preexistentes, mas controláveis. Uma delas foi um advogado que sofria de diabete e que estava hospedado no resort Riu Karamboa com a mulher e o filho. Dez dias depois de ter chegado ao hotel, começou a ter diarreia e náuseas, tendo de ser levado ao hospital.

Os médicos disseram à mulher, Rachel, que o marido tinha uma gastroenterite. O homem teve então de ser sedado para ser transferido para Tenerife, onde iria receber tratamento especializado. A companheira, por sua vez, regressou ao hotel para ir buscar os passaportes da família. Poucos minutos depois, recebeu uma chamada da clínica onde o marido estava a informá-la sobre a sua morte. Os registos médicos da clínica diagnosticaram insuficiência cardíaca, choque cardiogénico e gastroenterite.

“O que ele passou naquelas últimas horas, e a sua morte, foi horrível… Nunca vou conseguir apagar estas imagens da minha cabeça, nunca”, disse. “Fiquei completamente sozinha para lidar com isto. A TUI não estava em lado nenhum.”

Dos surtos às mortes inesperadas em Cabo Verde

Nos últimos 20 anos, Cabo Verde tem-se tornado num destino atrativo para vários europeus, incluindo os portugueses. As ilhas do Sal e da Boa Vista, por exemplo, são constantemente referidas como alternativas mais baratas às Caraíbas.

Nos últimos meses, algumas companhias áreas têm também investido em novas rotas para o país. Como a NiT já lhe contou em setembro passado, a easyJet foi uma das empresas que lançaram novas ligações diretas para a região a preços de sonho, que na altura começavam nos 39,99€.

Um jornalista do “The Sunday Times” esteve hospedado no hotel Riu Karamboa em dezembro e relatou que num dos restaurantes ao ar livre do resort, as moscas “rodeavam os dispensadores de comida e bebida.”

O período em que a reportagem foi escrita coincidiu com a morte dos quatro ingleses. Nesse altura, o país enfrentava mais um surto contagioso, que deixou dezenas de turistas gravemente doentes. E aqueles que foram para as tais clínicas locais encontraram um cenário caótico nas urgências, segundo o jornal.

Nos últimos meses do ano passado, vários países europeus notaram um aumento de testes positivos para a shigelose, uma infeção bacteriana que causa diarreia grave, febre e cólicas estomacais — a maioria dos casos foi detetada em pessoas que tinham regressado recentemente de Cabo Verde, segundo as autoridades de saúde europeias.

Os países mais afetados foram os Países Baixos, Suécia, Irlanda e França, de acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC). A infeção é causada por fezes contaminadas e transmitida por alimentos, água ou de pessoa para pessoa. As pessoas saudáveis tendem a recuperar sem precisar de cuidados médicos, mas o cenário é diferente para os pacientes que têm problemas de saúde pré-existentes.

Jess Richards, uma viajante de 31 anos, foi uma das pessoas infetadas por shigella. A inglesa ficou hospedada no Riu Palace Santa Maria, através de um pacote que comprou da Tui, em outubro passado. A jovem recebeu uma indemnização de cerca de 4636€ da operadora turística, que negou qualquer responsabilidade.

“Nunca fui informada antes de viajar que algo se passava. Nunca recebi um email. Não havia nada no hotel”, disse. “Não vão [para Cabo Verde]. A vossa saúde e o dinheiro que têm no bolso não valem a pena correr este tipo de riscos.”

O primeiro grande surto contagioso no país aconteceu em 2022. Na altura, o “The Times” totalizou mais de 300 processos contra a TUI, que alegam que a operadora não cumpriu os padrões de segurança estabelecidos pelo Package Travel Regulations (Regulamentos de Viagens Organizadas). Os turistas terão ficados infetados não só com shigella, mas também com salmonela e E.coli.

A cadeia hoteleira Riu, porém, nega que a infeção tenha acontecido nas instalações dos resorts. Uma porta-voz garantiu que, mensalmente, são recolhidas amostras aos funcionários da cozinha e da zona de restauração em Cabo Verde e que a presença de shigella não foi detetada.

“O número de turistas em Cabo Verde que adoecem com doenças gástricas graves e debilitantes é realmente impressionante”, disse o advogado Jatinder Paul, do gabinete Irwin Mitchell. “Estou habituado a dar apoio a turistas que adoecem em resorts de todo o mundo, mas nunca vi surtos repetidos e contínuos de doenças nos mesmos resorts a tal escala e durante um período tão longo.”

Após o alerta do Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre a presença de shigelose em Cabo Verde no final de 2025, foram publicadas novas orientações no site TravelHealthPro, recorrendo a informação do Departamento de Saúde e Assistência Social, que aonselham os viajantes a lavar as mãos com frequência, a consumir apenas alimentos bem quentes e acabados de preparar e a evitar ingerir água de piscinas sem tratamento. 

Mesmo com todos os casos que têm surgido neste segundo surto e os processos contra a TUI, a operadora turística continua a vender pacotes com tudo incluído para o país. 

“Embora não possamos comentar casos individuais, a segurança dos nossos clientes continua a ser a prioridade máxima das nossas operações”, disse uma fonte da operadora ao jornal “The Times”.

A mesma fonte acrescentou: “Com padrões de excelência e medidas rigorosas em vigor, estamos empenhados em garantir a proteção dos nossos clientes onde quer que estejam. A Tui segue as recomendações do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido (FCDO) para todos os destinos e, através do nosso programa global de gestão de saúde e segurança, realiza investigações em cooperação com os hotéis parceiros e as autoridades competentes.”

Leia também o artigo da NiT sobre outra investigação que envolve Cabo Verde.