Há muitos anos, na década de 90, entrevistei Mel Brooks. No final da conversa, ele perguntou-se se eu sabia a diferença entre comédia e tragédia. E passou a explicar-me: “Estou em casa e apetece-me comer uma sandes – adoro comer, sonho muitas vezes com comida e que estou a nadar todo nu num mar de esparguete – e quando vou cortar o pão, corto-me num dedo. Dou um grito e começo a sangrar. A minha mulher entra então na cozinha e diz-me: ‘Não sejas choramingas, vai pôr um penso nesse dedo e depois não te esqueças de limpar o sangue da bancada!’. Cortei um dedo e fui humilhado pela minha mulher. Tragédia! A seguir, saio de casa para ir almoçar com uns amigos e vejo um vizinho meu, todo bem vestido, meter a perna numa boca de esgoto aberta. Parte um pé e fica com as calças e um sapato cheios de caca. Coitado! Mas aconteceu-lhe a ele e não a mim. Comédia!”.

Enquanto falava, Brooks, então na casa dos 70, mexia-se, levantava-se do sofá onde estava sentado, mimava a situação do corte de pão e do dedo na cozinha e do acidente do vizinho. Com toda esta energia, não admira que esteja à beira de fazer 100 anos (no próximo dia 28 de junho) e continue ativo e cheio de bom humor, tal como a personagem do Homem com 2000 Anos que criou e interpretou nos anos 60 na televisão, no The Steve Allen Show: “Conheci Jesus Cristo, casei várias centenas de vezes, tive mais de 42 mil filhos, e não há um que me venha visitar”. A HBO aproveitou o centenário dele estar aí à porta e estreou há pouco o documentário biográfico Mel Brooks: The 99 Year Old Man!, de Judd Apatow e Michael Bonfiglio; e a Cinemateca, o estarmos em mês de Carnaval para lhe dedicar o ciclo ‘Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!’, que começa a 2 de Fevereiro.

Mel Brooks (nascido Melvin Kaminsky) entrou no mundo do espectáculo depois da II Guerra Mundial, a tocar piano e bateria e fazer comédia stand up em clubes noturnos de Nova Iorque e nos hotéis das Montanhas Catskill frequentados na sua maioria pelas famílias de judeus americanos da classe média. Foi depois trabalhar na televisão, nos anos 50, ao lado de nomes como Woody Allen, Carl Reiner ou Neil Simon para os inovadores e popularíssimos Your Show of Shows e Caesar’s Hour, do seu mentor e amigo Sid Caesar. Em 1963, Brooks colaborou com Ernest Pintoff na curta-metragem animada The Critic, uma paródia às animações abstractas de Norman McLaren, em que dava voz a um espectador agastado que não percebia o que estava a ver, e que ganhou o Óscar da categoria.

Este gosto pela paródia tornou-se ainda mais claro e elaborado em 1965, na série Olho Vivo (Get Smart, no original), que criou e escreveu com Buck Henry, um gozo pegado aos filmes de James Bond, e de espionagem em geral, com Don Adams no papel de Maxwell Smart, o agente secreto mais burro e desastrado da história (“Foi a primeira série de televisão a ter um idiota como herói”, comentaria Brooks mais tarde). Dois anos depois, em 1967, Mel Brooks realizou o primeiro filme, O Falhado Amoroso, uma farsa sobre o pior musical de sempre, Primavera para Hitler, concebido por dois produtores vigaristas que apostam num falhanço gigantesco para depois fugirem com o dinheiro das velhinhas ricas que um deles seduziu e que investiram na produção.

Devido às características do musical, centrado em Hitler e nos nazis, a fita teve problemas de distribuição, mas Mel Brooks ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original, batendo nomes como Stanley Kubrick e John Cassavetes (em 2001, houve uma versão para a Broadway, The Producers, filmada em 2005 como Os Produtores). E após Balbúrdia no Leste (1970), comédia passada na Rússia após a revolução comunista e baseada num livro de dois escritores russos (o filme, The Twelve Chairs no original, teve este título oportunista  em Portugal por só se ter estreado após Balbúrdia no Oeste), o realizador e ator assinou, em 1974, o primeiro de uma série de títulos que o consagrariam como o mestre da paródia aos géneros cinematográficos clássicos. O citado Balbúrdia no Oeste, em que Mel Brooks vira do avesso o western, estigmatiza o racismo a rir e anarquiza o filme no clímax, fazendo-o transbordar para o próprio estúdio e “invadir” e destruir um musical que estava a ser rodado no set ao lado, culminando com um duelo entre o xerife (negro) e o vilão, junto a um cinema, em Los Angeles.

Seguiram-se paródias jubilatoriamente absurdas e cinefilamente rigorosas ao cinema de terror (Frankenstein Júnior, 1974), aos filmes mudos (A Última Loucura de Mel Brooks, 1976, em que a única pessoa que diz uma palavra é… o mimo Marcel Marceau), aos filmes de Alfred Hitchcock (Alta Ansiedade, 1977 – Hitch gostou tanto que presenteou Brooks com uma caixa de vinho francês caríssimo), aos épicos históricos (Uma Louca História do Mundo, 1981), a Guerra das Estrelas e à  ficção científica (A Mais Louca Odisseia no Espaço, 1987), aos filmes de Robin Hood e de capa e espada (Robin Hood: Heróis em Collants, 1993 – que Mel Brooks tinha já gozado em 1975 na série As Trapalhadas de Robin dos Bosques, vista à altura na RTP), e às fitas de vampiros (Drácula: Morto mas Contente!, 1993). A única exceção a esta matriz foi a comédia satírica Porca de Vida (1991), em que Brooks interpreta um rico empresário que aposta com outro que consegue viver como sem-abrigo nas ruas de Los Angeles.

Tal como se revela nos seus filmes, o estilo cómico de Mel Brooks é uma mescla agitada mas homogénea de humor tipicamente judaico (em que é um émulo de Woody Allen) e dos seus tempos de stand up e de argumentista de televisão (os diálogos rápidos, os jogos de palavras, as tiradas espirituosas), de partes gagas ao estilo clássico e de nonsense paródico, de referências cultas e de baixa comédia. Neles encontramos ainda atores que se tornaram habitués dos elencos do realizador, e seus cúmplices de rodagem, como Gene Wilder, Madeline Kahn, Marty Feldman, Cloris Leachman, Dom DeLouise, Kenneth Mars ou Harvey Korman.

No ciclo da Cinemateca veremos também filmes que inspiraram ou entram em díálogo com as respetivas paródias de Mel Brooks (no dia de abertura, por exemplo, passa Balbúrdia no Oeste às 21.30, e antes, às 18.30,  Rio Bravo, de Howard Hawks), títulos como Ser ou Não Ser, de Alan Johnson, remake da obra homónima de Ernst Lubitsch, que Brooks produz e interpreta, ou a referida e oscarizada curta animada The Critic. Mel Brooks disse certa vez numa entrevista: “O humor é apenas mais uma defesa contra o universo”. O ciclo ‘Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!’ mostra como ele se tem defendido durante tanto tempo e sempre tão bem, e proporcionado algumas das melhores e mais sonoras gargalhadas das nossas vidas. Azar o teu, universo!