Uma infeção bacteriana espalhou-se pelo tecido facial e provocou uma necrose severa, deixando Carme com o rosto desfigurado. “Não conseguia comer porque a boca não abria, metade do nariz tinha desaparecido e não conseguia respirar corretamente. Fisicamente era muito desagradável e não conseguia levar uma vida normal”, contou ao jornal espanhol “El País”.

Há quatro meses, Carme submeteu-se a um transplante facial complexo no Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona, ​​para restaurar a função facial perdida. O procedimento, que contou com a participação de 100 profissionais, é raro: apenas 54 foram realizados no Mundo, seis em Espanha e três desses neste hospital. Contudo, a intervenção de Carme, que pediu anonimato ao jornal, é especialmente inédita, já que se trata do primeiro transplante facial a nível mundial com recurso a um dador eutanasiado.

De acordo com a equipa médica do hospital, a dadora, que tinha recebido autorização para a morte medicamente assistida, não só decidiu doar os órgãos e tecidos, como quis doar o rosto. “A dadora quis saber se o seu rosto era adequado para doação. Foi a expressão máxima de amor e generosidade para com o próximo”, disse Joan-Pere Barret, chefe de Cirurgia Plástica e Queimados do Vall d’Hebron, citado pelo mesmo jornal.

Carme necessitava de um transplante da parte central do rosto. Como a dadora estava em processo de eutanásia, foi possível desenvolver diretrizes personalizadas com planeamento em 3D tanto para o recetor como para o dador. “Conseguimos reunir com os engenheiros e, utilizando modelos de software, planear as melhores opções de reconstrução para as estruturas ósseas, de forma a alcançar a melhor função possível”, afirmou Barret.

A dadora e a recetora nunca se conheceram, conforme estipulado por lei. Carme retomou uma vida normal. “A minha vida está a começar a melhorar: consigo falar, estou a começar a comer, tenho sensibilidade na zona transplantada, consigo beber”, disse.

Intervenção multidisciplinar

Para se conseguir um rosto funcional capaz de desempenhar funções vitais básicas – como respirar, ver e comer – é necessária uma equipa multidisciplinar, desde a cirurgia plástica à imunologia e à psiquiatria. São transplantados pele, tecido adiposo, nervos periféricos, músculos faciais e ossos da face. O procedimento recorre a técnicas de microcirurgia neurovascular, uma vez que os nervos e os vasos sanguíneos têm de ser reconectados adequadamente para garantir a máxima funcionalidade facial, além de conferir expressividade e sensibilidade ao rosto.

O dador e recetor devem ser do mesmo sexo e tipo sanguíneo, e devem ter medidas antropométricas da cabeça semelhantes. Além disso, antes da operação, é feita uma avaliação psicológica do candidato a transplante. “Avaliamos a sua adaptabilidade, capacidade de lidar com a situação, expectativas e adesão ao tratamento”, explicou Sara Guila, da equipa de psiquiatria e psicologia do hospital.

Foto: David Zorrakino / Europa Press