As linhas de água nacionais debitaram para a albufeira de Alqueva cerca de 2500 metros cúbicos por segundo (m3/s) na madrugada de domingo para segunda-feira, ao contrário do que seria suposto. De Espanha e a partir do açude de Badajoz, o volume de afluências situou-se pouco abaixo dos 500m3/s.

Este dado não só destaca a importância dos rios e ribeiras localizados em território português, a montante de Alqueva, como também contraria a ideia de que a grande albufeira acumula apenas água vinda de Espanha. Este caudal efluente entrou em Alqueva durante a madrugada de segunda-feira e comprova a capacidade do sistema de poder encaixar elevados volumes de água.

Apesar do alarme social, a situação em Alqueva “é de tranquilidade”, garantiu ao Azul José Pedro Salema, presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA). O responsável frisou que o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) “tem um conjunto de infra-estruturas dimensionadas para aguentar situações muitíssimo piores do que a estamos a atravessar neste momento”, uma situação que considera “perfeitamente controlada”.

Num comentário ao facto de Alqueva ter de recorrer a descargas, José Pedro Salema explicou a importância de a albufeira continuar a manter capacidade de encaixe para receber novos volumes de água. “Abrir os descarregadores de meio-fundo não é um problema”, acrescenta.

Só os caudais que vão para jusante acabam por causar algum transtorno nas povoações ribeirinhas. Assim, a partir das 09h00 de segunda-feira, Alqueva está a libertar, através dos descarregadores de meio-fundo, um caudal de descarga inicial de 600m3/s, que, somado ao caudal turbinado (800m3/s), perfaz um caudal total lançado de 1400m3/s a jusante da Barragem de Alqueva, acrescidos de mais 100 hectómetros cúbicos lançados pelo rio Ardila, em Pedrógão.


Remover embarcações

Alertados para esta operação, os municípios espanhóis de Sanlúcar do Guadiana e de Ayamonte emitiram avisos para que todos os proprietários de barcos removessem as embarcações, para não serem afectadas pelas descargas efectuadas a partir da Barragem de Pedrógão, cerca de 1500m3/s, volume acrescido de 50m3/s lançados pela barragem espanhola do Chança, no troço internacional do Guadiana.

As embarcações foram deslocadas para locais situados em Ayamonte e Vila Real de Santo António e também para curvas naturais do rio onde a corrente é mais fraca. “A gestão controlada dos caudais permitiu, assim, reduzir o risco de cheias a jusante, protegendo populações e bens ao longo do rio Guadiana”, salientou o presidente da EDIA.

O excesso de água libertado por descargas de barragens, pelas suas consequências, ficou expresso no alagamento da vila de Alcácer do Sal. A solução para este problema “está a passar pela gestão dos recursos hídricos na bacia do Sado”, adiantou José Pedro Salema.

Durante o último sábado, a partir da albufeira de Alvito estão a ser lançados caudais na albufeira do Roxo, para, através deste procedimento, reduzir os débitos às barragens do Pego do Altar e Vale de Gaio, travando, desta forma, a necessidade de se abrir as comportas nestas últimas duas reservas de água, e minorar as consequências da cheia em Alcácer-do-Sal.

Optimismo na agricultura

Um cenário “muito optimista” passou a estar ao alcance do sector agrícola, com o enchimento pleno que se observa nas barragens nacionais, observa José Núncio, presidente da Federação Nacional de Regantes de Portugal (Fenareg). “É um acontecimento histórico ter todas as barragens cheias”, assinala o presidente da Fenareg, referindo que, nos meses de Janeiro e Fevereiro, “é a altura certa para que as inundações possam ocorrer”.

A abundância de água está, contudo, a criar um problema que pode vir a revelar-se difícil de solucionar: a esmagadora maioria das albufeiras já deixou de ter capacidade de encaixe para receber mais afluências. “Estamos a tentar obter mais capacidade nas albufeiras efectuando descargas”, adianta José Núncio.

No entanto, as barragens com funções agrícolas têm menos capacidade de regulação que os sistemas hidroeléctricos. “Temos descarregado o máximo que podemos, mas os meios são muito limitados e não podemos dar garantias de retenção à altura das afluências que são esperadas nos próximos dias”, salienta o presidente da Fenareg, quando o Instituto Português do Mar e da Atmosfera antecipa níveis de precipitação “devastadores”.

Até a região sul do país (Ourique e Odemira), onde a escassez de água é crónica e a seca severa e extrema permaneceu durante anos, apresenta reservas de água que já não se observavam há, pelo menos, uma década. É caso da Barragem de Santa Clara, que neste momento tem a reserva de água num nível próximo dos 80%. Até o Monte da Rocha, a mais problemática albufeira a nível nacional, que em 2025 de encontrava no vermelho (menos de 20% de armazenamento), está agora com 61,5% de volume de água acumulado.