Num mercado de delivery dominado pela lógica da escala e da velocidade, a Volup nasceu para desafiar a norma. Num momento em que a palataforma completou cinco anos, em dezembro passado, falámos com o fundador, Álvaro Meyer, que olhou para trás e reconheceu que a decisão que parecia mais arriscada no início acabou por se tornar a chave da identidade da marca ao recusar competir apenas em volume e assumir um caminho mais exigente, centrado na qualidade e na curadoria. Em vez de alargar a oferta a todo o tipo de restaurantes, apostou numa seleção restrita de parceiros que nunca tinham feito delivery e que receavam ver a sua marca desvalorizada neste formato.
A ideia tomou forma em plena pandemia, mas a origem é anterior pois teve origem numa frustração pessoal. Para quem apreciava boa gastronomia, as opções de entrega ao domicílio eram surpreendentemente limitadas e, para muitos restaurantes de topo, a alternativa existente não era compatível com o nível de serviço que queriam manter. Entre salas fechadas e clientes fechados em casa, a oportunidade tornou-se evidente uma vez que havia espaço para um modelo capaz de transportar a experiência gastronómica para fora do restaurante.
Cinco anos depois, a Volup opera com mais de 70 parceiros em Lisboa, entre eles restaurantes com estrelas Michelin, distinções Repsol e chefs de referência, e construiu uma reputação baseada na atenção ao detalhe. Dos menus adaptados a embalagens desenhadas para proteger texturas e temperaturas, passando por formação dos estafetas e diálogo constante com as equipas de cozinha, cada etapa é pensada para que a experiência chegue ao cliente com o mesmo cuidado com que seria servida à mesa.
A estratégia não foi a mais fácil, nem a mais rápida, mas consolidou um posicionamento claro: a Volup não pretende substituir o restaurante, mas prolongar a relação que cada cliente tem com ele.
À medida que o consumo em casa ganha novas formas e significados, o modelo continua a provar a sua relevância, seja através de menus de degustação, caixas concebidas para partilhar ou pop‑ups com restaurantes que fazem entregas apenas em momentos especiais.
Em 2025, a marca iniciou o seu processo de internacionalização em Madrid, num teste controlado que prepara agora o lançamento oficial em 2026. Um movimento que confirma aquilo que sempre esteve no ADN da Volup: crescer, sim, mas nunca à custa da qualidade.
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Alvaro Mayer
Créditos: Divulgação
A Volup fez cinco anos no passado mês de dezembro. Quando olha para trás, qual foi a decisão mais arriscada tomada no início e que hoje se revela decisiva para a identidade da marca?
A decisão mais arriscada é o que hoje em dia define a identidade e diferenciação da Volup tanto para clientes como para Chefs que foi a escolha de não competir em volume ou conveniência pura. Fizemos uma aposta contra-corrente e optámos por um caminho mais exigente: trabalhar apenas com uma seleção dos melhores restaurantes locais, muitos dos quais nunca tinham feito delivery, e construir uma operação de entrega capaz de respeitar o seu nível de qualidade e excelência. Esse caminho implicou crescer mais devagar e assumir maior complexidade operacional desde o início, mas foi decisivo para a marca que somos hoje.
Como surgiu a ideia de lançar esta plataforma num momento em que passávamos por uma pandemia?
A pandemia foi o contexto, mas a ideia surgiu de uma frustração muito pessoal. Sempre fui muito interessado em gastronomia e, quando comecei a encomendar mais comida em casa em 2020, percebi que as opções se resumiam quase sempre ao mesmo: hambúrgueres, pizzas e pouco mais. Lisboa tinha restaurantes extraordinários, mas eles simplesmente não estavam disponíveis em delivery. Falei com vários restaurantes que frequentava antes da pandemia e a resposta foi consistente: não queriam trabalhar com as plataformas existentes porque sentiam que isso podia desvalorizar a marca, comprometer o serviço e afastá-los do tipo de cliente que procuravam. Não era falta de vontade de chegar a mais pessoas, era falta de um modelo que respeitasse o seu trabalho.
Com os restaurantes fechados e as pessoas em casa a recorrerem cada vez mais ao delivery, esse problema tornou-se impossível de ignorar. Ficou claro que existia espaço para uma solução diferente capaz de levar mais do que opções rápidas até a casa das pessoas. A Volup nasceu exatamente dessa vontade de criar um delivery que respeita o trabalho do Chef e que permite aos consumidores viver experiências gastronómicas especiais, mesmo em casa.
Em que é que o modelo da Volup se diferencia das plataformas de delivery tradicionais, que privilegiam escala e rapidez, e o que implica, na prática, este foco na curadoria, no detalhe e na alta gastronomia?
A principal diferença é que não tratamos o delivery como um substituto da experiência de restaurante, nem como um serviço de conveniência pura. Para nós, é uma extensão cuidada dessa experiência, pensada para contextos diferentes. Ao adaptar menus e pratos especificamente para entrega ao domicílio, permitimos que restaurantes de alta gastronomia (muitos dos quais nunca tinham considerado fazer delivery) consigam oferecer conveniência aos seus clientes, sem comprometer a qualidade, a marca ou o tipo de relação que têm com eles.
Isso implica curadoria rigorosa de parceiros, trabalho próximo com os Chefs na adaptação dos pratos, escolha cuidada de embalagens, formação contínua dos estafetas e um acompanhamento atento do serviço ao cliente. O objetivo é garantir que a comida chegue com a qualidade certa, para que depois cada cliente possa criar a sua própria experiência no conforto de casa ou até no escritório.
Hoje, esta abordagem faz ainda mais sentido porque, depois da pandemia, muitas pessoas deixaram de ver o comer em casa apenas como uma solução prática e passaram a procurar mais qualidade e significado nas refeições do dia a dia
Começaram com cinco restaurantes e hoje têm mais de 70 em Lisboa. Fala frequentemente de curadoria e não apenas de oferta. Como se constrói, e mantém, uma curadoria exigente sem comprometer o crescimento?
Crescendo com intenção. Não medimos crescimento apenas pelo número total de parceiros ou por quem adicionamos recentemente à plataforma, mas pela coerência e qualidade do conjunto. A curadoria constrói-se com critérios claros e exigentes e com muita disciplina para não diluir o posicionamento e a diferenciação da marca. Isso passa não só por escolher bem novos parceiros, mas também por dedicar tempo e recursos a otimizar e desenvolver os parceiros atuais: melhorando menus, operações e experiência. Preferimos crescer de forma mais consciente e sustentável, mantendo a identidade da Volup, do que aumentar a oferta à custa da qualidade.
Que tipo de experiências são exclusivas da vossa plataforma?
Trabalhamos com vários parceiros exclusivos, incluindo restaurantes distinguidos com estrelas Michelin, que não estão disponíveis noutras plataformas. Desenvolvemos também propostas pensadas especificamente para entrega ao domicílio e para o contexto da casa, como a Temaki Party do Kanazawa — em que os elementos chegam preparados para serem montados no momento — ou as Sushi Boxes do Kabuki — combinações pré-definidas de nigiris, sashimi, rolos e outras peças, pensadas para partilhar. Temos ainda formatos pouco comuns neste tipo de serviço, que mostram que é possível levar experiências gastronómicas mais complexas para fora do restaurante, como o menu de degustação do Bichomau, um parceiro exclusivo distinguido no Guia Repsol 2025.
Mais recentemente, testámos um novo modelo de pop-up, pensado para trabalhar com restaurantes que não têm capacidade operacional para fazer entrega ao domicílio a tempo inteiro, mas que se juntam à Volup por tempo limitado, em ocasiões especiais ou com menus dedicados. O primeiro foi com O Frade, para celebrar o nosso quinto aniversário, e estamos já a preparar novos pop-ups com o 100 Maneiras, Carnal e Eleven.
Por fim, optamos deliberadamente por não ancorar a nossa proposta em descontos de preço ou promoções do tipo “2 por 1”. Em vez disso, trabalhamos com os parceiros para criar ofertas com mais valor gastronómico e mais significado: pode ser a oferta de uma entrada ou sobremesa, um produto especial criado para a ocasião, ou algo mais exclusivo — como aconteceu com a Chef Marlene Vieira no seu lançamento na plataforma, em que oferecemos o seu livro de receitas. Identificamos também produtos que não estão normalmente disponíveis na Volup, como a Wasabi Popcorn do Kabuki ou a sobremesa Dorayaki do Kanazawa, oferecidos apenas aos clientes no restaurante ou em eventos especiais, tornando a experiência ainda mais diferenciadora.
A Volup trabalha com restaurantes distinguidos com estrela Michelin, para quem uma má experiência pode pôr em causa anos de reputação. Como é que garantem um nível de serviço à altura dessa exigência?
Essa responsabilidade é algo que levamos muito a sério. Com restaurantes deste nível, o ponto de partida é assumir que a experiência em casa nunca deve tentar replicar ou substituir a experiência do restaurante. Em vez disso, trabalhamos com cada Chef para criar menus específicos para delivery, pensados para funcionar bem fora da sala, mas mantendo exatamente o mesmo nível de qualidade do produto.
Antes do lançamento, testamos pratos, ajustamos técnicas e ingredientes e definimos embalagens adequadas para garantir consistência. Depois, operamos segundo padrões elevados de hospitalidade e mantemos uma comunicação constante com os parceiros para afinar detalhes sempre que necessário.
O objetivo é simples: que o Chef se sinta confortável em assinar uma experiência diferente da do restaurante, com a mesma exigência gastronómica e uma relação preço-qualidade particularmente interessante. Ao mesmo tempo, este modelo permite que novos clientes descubram a cozinha do Chef num contexto mais informal, e que clientes habituais continuem a ter acesso à sua comida em dias em que não conseguem ir ao restaurante, não têm reserva ou simplesmente preferem ficar em casa.
Cinco anos depois, quem é hoje o cliente típico da Volup?
É alguém que aprecia boa comida e está disposto a pagar por qualidade. São clientes que acreditam que comer em casa também pode, e deve, ser uma experiência cuidada e memorável, não apenas uma solução prática.
Em média, as encomendas são para duas pessoas, mas vemos também muitos pedidos para momentos de partilha: famílias com filhos, jantares entre amigos ou ocasiões especiais em casa.
A maioria dos nossos clientes é portuguesa, mas temos também uma base crescente de clientes estrangeiros muito fiéis, que reconhecem na Volup um padrão de qualidade e curadoria semelhante ao que procuram quando comem fora.
Qual o tipo de comida ou restauração que é claramente um best-seller?
O sushi continua a ser a categoria mais procurada, seguido da comida portuguesa.
Também observamos que parceiros com distinções Michelin, Repsol ou similar tendem a ter uma procura muito consistente, o que confirma a ligação direta entre reconhecimento, qualidade e confiança do cliente.
A sustentabilidade tornou-se uma exigência, mas a alta gastronomia vive muito do detalhe e da apresentação. Quais os desafios que se colocam à empresa hoje em dia neste tema?
O principal desafio é conciliar sustentabilidade com a exigência que a alta gastronomia implica em termos de apresentação e preservação do prato. Nesse sentido, temos vindo a trabalhar de forma ativa com fornecedores e parceiros para identificar soluções de embalagem cada vez mais responsáveis, privilegiando opções sem plástico sempre que possível. Os nossos sacos de transporte são também em papel.
Ao nível da operação, a nossa visão de médio prazo é tornar a frota progressivamente mais sustentável, com o objetivo de evoluir para uma frota 100% elétrica.
O ano de 2025 marca o início da expansão internacional, com Madrid como primeira paragem. Como tem corrido a experiência?
O ano de 2025 foi de soft-launch controlado em Madrid, pensado sobretudo como uma fase de aprendizagem antes do lançamento oficial. Optámos deliberadamente por testar o modelo num ambiente restrito, para validar a operação com estafetas locais, ajustar embalagens e garantir que a nossa tecnologia responde bem às exigências de um segundo mercado. Paralelamente, estamos em conversas avançadas para preparar a próxima vaga de parceiros e construir uma oferta à altura do posicionamento da Volup. Ainda não podemos divulgar nomes, mas estamos muito confiantes na qualidade dos Chefs e restaurantes que têm demonstrado interesse em juntar-se à nossa rede.
O objetivo é fazer o lançamento oficial na primeira metade de 2026. Madrid é um mercado com grande potencial, pela sua dimensão e dinâmica, e acreditamos que, com as bases bem consolidadas, poderá tornar-se um pilar muito relevante para a Volup.
O objetivo é continuar a expansão internacional?
Sim, mas no momento certo. Para já, a prioridade é continuar a consolidar Lisboa e Madrid, crescer sem perder qualidade e evoluir a nossa tecnologia e funcionalidades. A partir daí, vemos claramente potencial para levar o modelo da Volup a outras cidades europeias e fora da Europa também. A expansão faz parte da ambição, mas sempre com o mesmo princípio: crescer sem comprometer a identidade.