Por uma combinação de fatores, os preços das casas continuam a subir e construir habitação a preços acessíveis “exige escala, tempo e estabilidade, fatores que nem sempre estão reunidos”. O resultado é “um desfasamento entre aquilo de que o mercado precisa e aquilo que é mais seguro desenvolver neste momento”, explica Sylvia Bozzo, marketing manager do Imovirtual. Em entrevista ao SAPO, Sylvia explica como isso contribuiu para tornar a compra de casa num processo que envolve muito mais emoção. E já não é encarado como uma escolha de momento, capaz de ser melhorada conforme a vida o pede e proporciona, mas antes como uma decisão definitiva e que nada tem que ver com investimento
Como é que a crise na habitação modificou o processo de decisão de compra de casa?
Procurar casa sempre envolveu uma combinação de racionalidade e emoção, mas no contexto atual o peso do fator emocional é claramente maior. Quem procura habitação fá-lo hoje num cenário de escassez de oferta, pressão constante sobre os preços e incerteza regulatória, o que gera ansiedade, receio de perder oportunidades e, muitas vezes, decisões tomadas por exclusão e não por verdadeira escolha. Em vez de optarem pela casa que idealizam, muitas pessoas acabam por escolher a casa que conseguem. Isso traduz-se em concessões sucessivas — na localização, na tipologia, no espaço ou até no momento da decisão. O processo de procura passou a ser marcado por urgência, frustração e adiamentos constantes, afetando não apenas a decisão final, mas todo o percurso emocional associado à ideia de ter casa própria.
Quais são os compradores mais afetados por este novo ecossistema de menos oferta e mais caro: os jovens, a classe média?
Os mais afetados são, sobretudo, os jovens e a classe média. Para muitos jovens, entrar no mercado tornou-se particularmente difícil devido ao aumento das entradas iniciais exigidas, às condições de financiamento e à instabilidade dos rendimentos. A casa própria deixou de ser um objetivo de curto ou médio prazo e passou, em muitos casos, a ser um projeto indefinidamente adiado.
A classe média, por sua vez, vive hoje uma pressão muito silenciosa. São famílias que, até há poucos anos, tinham capacidade para comprar casa em determinadas zonas e que agora se veem obrigadas a rever expectativas, mudar de localização ou optar pelo arrendamento. Este desfasamento entre rendimentos e preços gera uma sensação clara de perda de controlo sobre decisões que antes eram encaradas como naturais. No fundo, este contexto está a alterar a forma como diferentes perfis encaram a habitação — menos como um ativo financeiro e mais como um projeto de vida condicionado por fatores externos.
O processo de procura passou a ser marcado por urgência, frustração e adiamentos constantes, afetando não apenas a decisão final, mas todo o percurso emocional associado à ideia de ter casa própria.
Mas comprar casa continua a fazer sentido ou devia estimular-se mais o mercado do arrendamento — e de que forma?
Não existe uma resposta única. A decisão entre comprar ou arrendar depende do perfil de quem procura casa, dos seus objetivos de vida, da fase em que se encontra e da localização do imóvel. Se olharmos apenas para a lógica financeira, em muitos territórios o arrendamento surge hoje como uma opção mais racional. Ainda assim, isso colide com um fator profundamente enraizado na cultura portuguesa: a perceção da casa própria como sinónimo de estabilidade e segurança.
Num mercado marcado por escassez de oferta e preços elevados, o arrendamento deixou de ser apenas uma solução temporária e passou a assumir um papel estrutural para uma parte significativa da população. Nesse contexto, é essencial fortalecer este segmento do mercado. Isso implica criar condições que incentivem a oferta de arrendamento, com regras claras, previsibilidade fiscal e contratos equilibrados. Um mercado de arrendamento mais robusto e estável dá maior flexibilidade às famílias, reduz a pressão imediata sobre a compra e permite que as decisões sejam tomadas com mais tempo, menos ansiedade e maior informação.
Hoje a compra de casa é encarada como algo mais definitivo?
Cada vez mais. Para muitas pessoas, comprar casa deixou de ser um passo intermédio para se tornar uma decisão de longo prazo, quase definitiva. A ideia de “comprar agora e trocar mais tarde” tornou-se menos viável num contexto de preços elevados, custos de transação significativos e maior incerteza económica.
Isso faz com que quem compra hoje tente antecipar o futuro: pensa não apenas nas necessidades atuais, mas também naquilo que poderá precisar daqui a dez ou quinze anos. A casa passa a ser vista como um verdadeiro projeto de vida, o que aumenta o peso emocional da decisão e o receio de errar.
este contexto está a alterar a forma como diferentes perfis encaram a habitação — menos como um ativo financeiro e mais como um projeto de vida condicionado por fatores externos.
Quais são as zonas ou cidades em que os preços mais subiram?
Nos últimos anos, a subida de preços tem sido mais evidente nas grandes áreas metropolitanas, como Lisboa e Porto, mas também em territórios que até há pouco tempo eram percecionados como mais acessíveis e que passaram a absorver parte da pressão desses mercados. Municípios da periferia, várias capitais de distrito e zonas costeiras com boa qualidade de vida registaram aumentos muito significativos.
Este movimento reflete uma redistribuição natural da procura. Quando os preços nos centros urbanos atingem níveis difíceis de suportar, as pessoas procuram alternativas nas zonas adjacentes, alargando a pressão a territórios que anteriormente não estavam no radar.
Este contexto reforça também a importância de uma estratégia de desenvolvimento mais equilibrada a nível nacional, com investimento em transportes, infraestruturas e incentivos à atividade económica fora do eixo Lisboa–Porto, criando condições reais para que a procura se distribua de forma mais sustentável.
Que fatores mais impulsionaram essa subida? Há uma componente de ajuste do mercado?
A subida resulta de uma combinação de fatores. Existe, por um lado, uma escassez estrutural de oferta que não acompanhou o crescimento da procura. Por outro, assistimos a uma alteração clara no perfil da procura, impulsionada por fenómenos como o teletrabalho, a mobilidade e a procura por melhor qualidade de vida. Há também um efeito de ajustamento do mercado, sim, sobretudo em zonas que estiveram relativamente estáveis durante vários anos e que agora registam valorizações mais rápidas. A perceção de que algumas áreas estavam subavaliadas contribuiu para essa aceleração recente.
Construir habitação a preços acessíveis exige escala, tempo e estabilidade, fatores que nem sempre estão reunidos. O resultado é um desfasamento entre aquilo que o mercado precisa e aquilo que é mais seguro desenvolver neste momento.
Mas porque é que parece haver uma maior aposta na construção premium quando existe tanta procura da classe média e dos jovens?
Essa perceção resulta, em grande parte, do contexto económico e regulatório atual. Os custos de construção aumentaram de forma significativa — materiais, mão-de-obra e financiamento — o que faz com que muitos projetos só sejam viáveis em segmentos de preço mais elevados. Ao mesmo tempo, a falta de incentivos consistentes e de previsibilidade nas políticas públicas dificulta o desenvolvimento de projetos direcionados à classe média. Construir habitação a preços acessíveis exige escala, tempo e estabilidade, fatores que nem sempre estão reunidos. O resultado é um desfasamento entre aquilo que o mercado precisa e aquilo que é mais seguro desenvolver neste momento.
É expectável que a subida de preços continue ou já existem sinais de abrandamento?
Em algumas zonas já se notam sinais de maior moderação, sobretudo onde os preços atingiram níveis difíceis de sustentar face aos rendimentos. Ainda assim, falar de uma inversão generalizada é prematuro. Enquanto a oferta continuar limitada e a procura se mantiver ativa, especialmente nas áreas urbanas e zonas com boa qualidade de vida, a pressão sobre os preços tenderá a persistir. O que se desenha é um mercado mais desigual, com ritmos diferentes consoante as localizações.