O número de pessoas a viver em risco de pobreza na Alemanha aumentou em 2025 para 13,3 milhões de pessoas, ou seja, 16,1% da população, segundo dados divulgados esta terça-feira pela Destatis, o organismo responsável pela estatística do país, um aumento em relação à percentagem do ano anterior, 15,5%.

Além das pessoas que estão desempregadas ou sem trabalho momentaneamente, estão mais em risco pessoas que vivam sozinhas (30,9% das pessoas que vivem sozinhas estão em risco de pobreza) e mães ou pais solteiros (28,7%), seguindo-se pessoas na reforma (19,1%).

O comunicado da agência não distingue por género, mas as mulheres são mais afectadas pelo risco de pobreza, já que têm mais vezes pausas no emprego por terem de cuidar de filhos ou pais o que leva a menos contribuições, explica a Human Rights Watch num relatório de 2025, e são ainda mais vezes mulheres sozinhas que têm filhos a cargo.

“Não consigo alimentar decentemente os meus filhos”, contava Lisbeth C., de 43 anos, mãe de três filhos a viver numa localidade rural no estado da Saxónia, ouvida pela HRW em 2023. Apesar de trabalhar, o rendimento não era suficiente. “Ao fim do mês só temos pão e manteiga. É muito doloroso. Sinto que não estou a fazer justiça a ninguém, nem aos meus filhos, nem à família, nem à vida em geral, nem a mim mesma.”

A Destatis segue a definição de risco de pobreza da União Europeia, considerando-se em risco quem tenha menos de 60% da média do rendimento da população total do país o que, no caso da Alemanha, é de 1446 euros líquidos por mês.

Se for usado outro modo de cálculo, que junta ao indicador anterior mais dados de privação significativa material e social e taxas de emprego para calcular o risco de exclusão social, há mais pessoas afectadas: 17,6 milhões, o que corresponde a 21,2% da população, um dado que permaneceu inalterado face ao ano anterior.

Um milhão de pobres fora da estatística

A alteração deste cálculo feita recentemente foi criticada por uma série de especialistas em pobreza, que disseram em Agosto do ano passado que a alteração fez com que a taxa de pobreza descesse de 16,6% em 2023 pelo cálculo anterior para 15,5% pelo cálculo actual. O que isto fez, sublinhou então o especialista em pobreza Ulrich Schneider ao jornal Die Zeit, foi “a pobreza ser repentinamente reduzida em mais de um milhão de pessoas”.

O relatório da Destatis não menciona as crianças em risco de pobreza. Estima-se que, em relação ao ano de 2024, uma em cada sete crianças estivesse nesta situação no país.

A pobreza foi uma das grandes questões de campanha nas primeiras eleições do final da era Merkel, em 2021, mas nas mais recentes, em 2025, passou para segundo plano, com a subida do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), entretanto declarado de extrema-direita pelos serviços de informação interna, a imigração, ou guerra na Ucrânia e a dependência dos Estados Unidos.

A Alemanha é vista como um país rico, mas bastante desigual, embora a desigualdade esteja a diminuir ligeiramente (já não é um dos países europeus que se destacam no índice de Gini, que mede a desigualdade, estando ainda acima, mas já mais próximo, da média europeia). A melhoria dever-se-á à introdução do salário mínimo nacional e do Bürgergeld em vez do subsídio Hartz IV para desempregados de longa duração.

Há ainda uma percepção na opinião pública de que a desigualdade não é assim tão grande, já que muitas pessoas acham que são de classe média quando na verdade estão acima ou abaixo dessa categoria.