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Um novo estudo aponta o gotejamento litosférico como a causa do percurso invulgar do rio Green, que atravessa a cordilheira dos Montes Uinta.

Os rios são conhecidos por seguirem o caminho mais fácil, contornando obstáculos no seu percurso até ao mar. O Rio Green, no oeste dos Estados Unidos, parece, no entanto, quebrar esta regra. Em vez de contornar as imponentes montanhas Uinta, no Utah, o rio atravessa diretamente a cordilheira, esculpindo um desfiladeiro com até 700 metros de profundidade.

Um novo estudo publicado na JGR Earth Surface sugere que este caminho aparentemente ilógico pode ser explicado pelo facto da crosta terrestre se comportar mais como cera macia do que como rocha sólida.

O Rio Green estende-se por aproximadamente 1170 quilómetros através de Wyoming, Utah e Colorado, antes de desaguar no Rio Colorado. O mistério reside no nordeste do Utah, onde o rio atravessa o coração das montanhas Uinta, cujos picos se elevam a cerca de 4 quilómetros de altura. Esta rota formou-se dezenas de milhões de anos depois da própria formação das montanhas, o que levanta a questão: porque é que o rio simplesmente não as contornou?

Investigadores da Universidade de Glasgow acreditam que a resposta reside num processo conhecido como “gotejamento litosférico“. Este fenómeno ocorre quando porções densas da crosta terrestre afundam lentamente, ou “gotejam”, para o manto que se encontra por baixo, fazendo com que a superfície por cima ceda antes de recuperar ao longo de milhões de anos. Utilizando imagens sísmicas e modelação computacional avançada, a equipa reconstruiu como a crosta da região mudou ao longo do tempo.

A análise revelou um padrão distinto de elevação em forma de alvo em torno das Montanhas Uinta, juntamente com evidências de que a crosta abaixo delas é vários quilómetros mais fina do que o esperado. Este material em falta corresponde de perto à queda de altitude de aproximadamente 400 metros necessária para permitir que o Rio Green estabelecesse o seu curso através da cordilheira, explica o IFLScience.

Neste cenário, o terreno sob as montanhas afundou temporariamente à medida que a crosta cedia, criando um caminho suficientemente baixo para o rio fluir. À medida que o terreno recuperou e as montanhas se voltaram a elevar, o rio já estava estabelecido, erodindo gradualmente a rocha e preservando o seu curso invulgar.

As consequências deste processo vão muito além de um único canhão fluvial. Quando o rio Green finalmente se uniu ao rio Colorado, remodelou a geografia do oeste da América do Norte, influenciando a divisória continental e alterando habitats que orientaram a evolução da vida selvagem regional.

“Durante cerca de 150 anos, os geólogos debateram como estes rios se uniam”, disse o autor principal, Adam Smith, da Universidade de Glasgow. “Acreditamos que temos agora provas convincentes de que o gotejamento litosférico puxou o solo para baixo o suficiente para o tornar possível”.


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