A Ucrânia aumentou a sua dívida pública em cerca de 43,5 mil milhões de euros em 2025, mas conseguiu reduzir de forma significativa os custos de financiamento, graças a um modelo assente em empréstimos garantidos por ativos russos congelados. A informação é avançada pela ‘Euromaidan Press’, que destaca uma mudança profunda na estrutura da dívida do país em guerra.
A maior fatia do novo financiamento — cerca de 34,9 mil milhões de euros — teve origem em empréstimos concedidos ao abrigo do acordo ERA dos países do G7, garantidos por lucros provenientes de ativos do banco central russo congelados no Ocidente. A este montante somam-se cerca de 11,1 mil milhões de euros em empréstimos concessionais da União Europeia.
Segundo a ‘Euromaidan Press’, estes empréstimos do ERA incluem períodos de carência entre 11 e 12 anos e serão pagos com receitas geradas pelos ativos russos, e não através do orçamento do Estado ucraniano. Como resultado, o custo médio da dívida caiu de 7,2% para 4,55%, enquanto os custos da dívida externa recuaram ainda mais, de 4,5% para apenas 1,9%.
Prazos mais longos e menor pressão financeira
O prazo médio de reembolso da dívida mais do que duplicou, oferecendo a Kiev um alívio significativo no curto e médio prazo. A dívida total da Ucrânia ascende agora a cerca de 196,2 mil milhões de euros, um aumento de 29,5% face a 2024, com o rácio dívida/PIB a aproximar-se dos 100%.
Apesar do crescimento nominal, a composição da dívida alterou-se de forma relevante. A dívida externa comercial representa agora menos de 10% do total, enquanto o prazo médio de pagamento passou de 6,3 anos, em 2021, para 13,37 anos atualmente. A dívida com garantia estatal desceu para cerca de 3%, prolongando uma tendência de redução observada nos últimos quatro anos.
Este modelo, sublinha a ‘Euromaidan Press’, poderá servir de referência para outros conflitos, ao permitir financiar um país aliado com os bens apreendidos ao agressor, em vez de recorrer diretamente aos contribuintes dos países apoiantes.
Alívio financeiro não resolve crise demográfica
Apesar das condições mais favoráveis da dívida, os desafios estruturais da Ucrânia mantêm-se. A população nas áreas controladas pelo Governo caiu para cerca de 31 milhões de pessoas, face aos 41 milhões antes da invasão em grande escala. A diferença de cerca de 10 milhões inclui 6,7 milhões de refugiados no estrangeiro, aproximadamente 2,4 milhões em territórios ocupados e dezenas de milhares de mortos na guerra.
A taxa de natalidade — cerca de um filho por mulher — está entre as mais baixas do mundo, enquanto a escassez de mão de obra atingiu níveis recorde, limitando o potencial de recuperação económica a médio prazo.
A inflação ao consumidor recuou de um pico de 15,9%, registado em maio, para 8% no final do ano, num contexto de ajustamento económico à redução da força de trabalho disponível.
Pressão energética e custos adicionais
A campanha russa contra as infraestruturas energéticas agravou a pressão sobre a economia ucraniana. Moscovo já danificou todas as centrais elétricas do país, forçando Kiev a gastar cerca de 1,7 mil milhões de euros em importações de gás de emergência, enquanto milhões de pessoas enfrentaram cortes de eletricidade de até 12 horas.
União Europeia como principal credora
Cerca de 75% da dívida pública da Ucrânia é agora externa, sendo que mais de metade é devida à União Europeia. Bruxelas detém aproximadamente 40% da dívida total do Estado ucraniano, através de financiamento concedido em condições favoráveis, com possibilidade de compensação dos pagamentos pelos Estados-membros através do Fundo de Assistência à Ucrânia.
Em dezembro, os líderes europeus aprovaram 90 mil milhões de euros em empréstimos sem juros até 2027, reembolsáveis apenas se a Rússia pagar reparações de guerra. Em paralelo, permanecem congelados 210 mil milhões de euros em ativos russos, utilizados como instrumento de pressão para futuras negociações.
A dívida da Ucrânia continua a crescer, mas o peso financeiro está a ser progressivamente transferido para o país agressor.