Durante mais de sete décadas, a promessa da energia de fusão permaneceu uma miragem científica, sempre “a 30 anos de distância”. No entanto, avanços recentes em laboratórios internacionais sugerem que a tecnologia está, finalmente, a transitar dos esquemas teóricos para uma realidade de engenharia palpável.

Do ceticismo ao otimismo na energia de fusão

Durante muito tempo, a fusão nuclear foi vista como um milagre da física inalcançável. Contudo, o tom da comunidade científica alterou-se drasticamente. O centro desta mudança reside numa nova geração de reatores, conhecidos como tokamaks, que evoluíram de meras curiosidades experimentais para instrumentos capazes de confinar plasma a temperaturas que mimetizam o interior das estrelas.

O princípio que rege este processo é o mesmo que alimenta o nosso Sol: forçar a união de núcleos de hidrogénio para formar hélio, libertando vastas quantidades de energia. Para replicar este fenómeno na Terra, são necessárias temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius e campos magnéticos suficientemente potentes para conter a matéria, que, de outra forma, derreteria qualquer metal conhecido.

O grande desafio histórico tem sido manter a estabilidade sob estas condições extremas tempo suficiente para obter um ganho líquido de energia.

Progressos tangíveis: o projeto ITER

Os últimos anos foram marcados por progressos notáveis. O reator experimental chinês, Experimental Advanced Superconducting Tokamak (EAST), ultrapassou recentemente um limiar empírico de densidade conhecido como o limite de Greenwald, demonstrando que é possível operar a densidades mais elevadas sem perder a estabilidade.

Paralelamente, o reator WEST em França e o KSTAR na Coreia do Sul estenderam significativamente a duração do plasma.

Estes bancos de ensaio fornecem agora dados cruciais para a experiência mais ambiciosa até à data: o ITER. Este reator de 23.000 toneladas, em construção no sul de França, é fruto da colaboração de mais de 30 países. O objetivo é demonstrar, inequivocamente, que a fusão controlada pode gerar mais energia do que a que consome.

Um marco fundamental para o projeto ocorreu no final de 2025, com a chegada a França do módulo final do solenoide central. Este íman, o mais potente do mundo, funcionará como o “coração” do sistema, impulsionando as correntes de plasma necessárias para sustentar as reações, superando assim anos de atrasos técnicos e desafios de engenharia.

A entrada da IA no mundo da energia de fusão

Para além do hardware, a inteligência artificial (IA) está a transformar radicalmente a investigação nesta área. Modelos de machine learning são agora utilizados para prever e corrigir instabilidades no plasma em tempo real, sintetizar dados experimentais em falta e otimizar os padrões de confinamento magnético.

Estas tarefas, demasiado complexas para operadores humanos executarem em tempo útil, estão a comprimir o ciclo de iteração entre experiências. O que antes demorava anos a analisar, a IA processa agora com uma rapidez sem precedentes.

Gigantes tecnológicos como a Google, Microsoft, Amazon e Meta, impulsionados pelas necessidades energéticas crescentes dos seus centros de dados de IA, formaram parcerias com startups de fusão. Embora a física ainda guarde segredos e a economia favoreça os sistemas atuais, o sonho de “engarrafar” um pedaço do sol parece agora menos ficção científica.

 

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