A ministra do Ambiente já defendeu publicamente que as linhas elétricas deveriam ser enterradas, como forma de reforçar a resiliência da rede. A discussão voltou para cima da mesa numa altura em que cerca de 120 mil clientes da E-Redes continuam sem eletricidade, dias depois da passagem da tempestade Kristin, que causou elevados prejuízos em várias regiões do país. Ainda que longe de ser consensual, a Ordem dos Engenheiros não tem dúvidas de que, “em termos de vantagens, é manifestamente superior” ter infraestruturas enterradas.
“O que é barato sai caro, muitas vezes. Temos conhecimento de engenharia para tornar este tipo de infraestruturas mais resilientes. Mais de 50% da nossa infraestrutura de média e baixa tensão é aérea, gerida essencialmente a nível municipal e local. (…) Tem de se pensar seriamente em paulatinamente pôr este tipo de infraestruturas de abastecimento de energia de eletricidade de média e baixa tensão enterradas em galerias, apesar de ser mais caro. À partida, o instrumento sai mais caro, mas depois, no ciclo de vida, provavelmente não deve ser ponderado. Em termos de vantagens, é manifestamente superior”, defendeu o bastonário Fernando Almeida Santos, no Fórum TSF.
Nas regiões mais afetadas pela tempestade Kristin, a Ordem dos Engenheiros criou uma bolsa de profissionais voluntários para apoiar a reconstrução, avaliação de danos e peritagens técnicas. Estão disponíveis cerca de 200 engenheiros, de várias especialidades, para prestar apoio gratuito à população.
“Um cidadão pode precisar de aconselhamento, por exemplo, porque caiu uma chaminé numa varanda e é necessário perceber como deve repor a estrutura, em que condições de segurança e se a varanda foi afetada. Esse apoio é prestado de forma graciosa pelo engenheiro voluntário. A Ordem assume todos os custos associados, como deslocações ou aquisição de equipamento necessário à avaliação”, explicou Fernando Almeida Santos.
Para aceder a este apoio, os cidadãos devem consultar o site da Ordem dos Engenheiros ou contactar a estrutura de missão que está a coordenar a reconstrução das zonas afetadas.
Também ouvido no Fórum TSF, Xavier Viegas, professor da Universidade de Coimbra e especialista em gestão do risco, defendeu que Portugal precisa de estar melhor preparado para este tipo de eventos extremos, sublinhando o papel da ciência.
“Os cientistas têm a obrigação de conhecer melhor estes fenómenos e perceber como se desencadeiam. Hoje temos já bastante conhecimento científico e instituições com capacidade de antecipação, como se viu com o IPMA, que conseguiu prever com alguns dias de antecedência o que poderia acontecer.”
Ainda assim, o especialista reconhece que a dimensão da destruição acabou por surpreender: “Não conhecíamos a extensão do que ia acontecer, o que torna difícil saber antecipadamente onde seriam necessários os meios de socorro e de ajuda. Estas situações têm de ser melhor preparadas, melhor planeadas, melhor antecipadas e depois concretizadas no terreno.”
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.