Numa breve conversa, Ricardo Trigo, professor de climatologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista em fenómenos extremos climáticos, descreve ao Azul o que está por detrás da sucessão de tempestades que atingiu Portugal, o papel das alterações climáticas na intensidade dos fenómenos e o que esperar nos próximos dias. “Vem aí mais um rio atmosférico”, avisa, sobre a tempestade Leonardo. Mais um rio atmosférico que, desta vez, desaba num território já fragilizado e, por isso, pode causar mais danos do que seria de esperar.

Admitindo que nos últimos dias houve uma conjugação de factores com uma brutal força destruidora, o investigador sublinha que não há evidência de que estes fenómenos sejam mais frequentes, mas sim mais intensos — e que a percepção pública é moldada pelos episódios mais extremos. Sobre a resposta das autoridades, é claro: falhou a comunicação, falhou a preparação e falharam infra-estruturas que “não podem falhar”. “Os bombeiros ficarem sem telhado é ridículo. O SIRESP [Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal] falhar é ridículo”, diz Ricardo Trigo.

Estas tempestades sucessivas num curto espaço de tempo são normais?
Não existe um “normal” nestas coisas. Já houve sequências semelhantes, embora não sejam muito frequentes. Há cerca de 15 anos, por exemplo, três tempestades no Norte da Europa causaram centenas de milhões de euros em danos. Não é comum, mas acontece.

O que está na origem desta sucessão?
É o desenrolar normal da atmosfera. Não há nada de extraordinário no facto de ocorrerem várias tempestades seguidas.

Qual é a relação com as alterações climáticas?
A sequência em si tem pouca relação. O que pode estar ligado às alterações climáticas é a intensidade: temperaturas mais altas no mar e na atmosfera aumentam a evaporação e a capacidade de o ar reter humidade. Cada grau de aquecimento pode traduzir‑se em 6 a 7% mais precipitação e isso importa. Se em vez de chover 50 milímetros chover 60 ou 70, o impacto é muito maior. A coisa complica-se.

Portanto, o efeito das alterações climáticas na chuva é sobretudo na intensidade?
Sim. Não há mais tempestades — há tempestades mais intensas. O mesmo se aplica à ciclogénese explosiva. Não vemos mais eventos, mas vemos eventos mais intensos. A pressão no centro das depressões desce mais rapidamente e mais profundamente, e isso aumenta a força dos ventos.




Destruição no quartel dos Bombeiros Voluntários de Leiria, depois da passagem da depressão Kristin
PAULO NOVAIS/Lusa

Num curto espaço de tempo sofremos o efeito de um rio atmosférico, de um “ciclone‑bomba” e de um sting jet. Isto não é invulgar?
Os rios atmosféricos são os mais comuns. Em Dezembro, há três anos, Lisboa teve cinco rios atmosféricos num só mês, lembra-se? A ciclogénese explosiva é mais rara e o sting jet [uma pequena área de ventos muito intensos, frequentemente com velocidades de 160 km/h ou mais] ainda mais raro.

E, insisto, não há relação com as alterações climáticas?
As alterações climáticas podem influenciar em dois deles, um que é o transporte de maior humidade de rios atmosféricos, e os modelos apontam que deverá haver mais rios atmosféricos com as alterações climáticas em toda a fachada europeia, mesmo em sítios onde pode vir a chover menos. Outro é a ciclogénese explosiva.

Também chamado de “ciclone-bomba”. É incorrecto usar este termo?
Não é incorrecto. Vem do inglês. O problema é que muitas pessoas acham que é exagero ou alarmista, quando na verdade é uma classificação técnica. Assim como quando falamos em rios atmosféricos não é por ser mais bonito ou poético. Aliás, o que vem aí agora é mais um rio atmosférico.




Efeitos da tempestade Kristin
Sérgio Azenha

O que é que isso quer dizer?
Um rio atmosférico é uma faixa muito longa — pelo menos 2000 km — com grande concentração de humidade transportada dos trópicos para as latitudes médias. Normalmente começa perto das Caraíbas. Quando essa humidade se combina com ventos fortes associados a uma depressão, forma‑se um rio atmosférico. São fenómenos muito relevantes para Portugal, Galiza, Normandia, Reino Unido e Noruega.

O facto de a temperatura do oceano estar acima do normal ajuda a que, no processo do rio atmosférico chegar até a Europa, haja mais evaporação do que precipitação, porque ele também vai precipitando a meio. Mas como a temperatura está relativamente elevada, continua a evaporar e, portanto, chega cá e depois, durante uma série de horas, vai impactar nas zonas costeiras.

Este rio atmosférico da tempestade Leonardo vai afectar sobretudo que zonas?
Pelo que vi, deverá atingir todo o país, mas com maior intensidade no Sul.

O que esperar nos próximos dias?
Muita precipitação, alternando entre Norte e Sul, e vento mais forte no Sul com a chegada do rio atmosférico. Não deverá ter a magnitude da semana passada, mas o território está fragilizado e fenómenos moderados podem causar danos maiores. Um vento de 100 km/h, que normalmente não causaria grandes danos, pode agora provocar estragos significativos. O solo, as árvores e as estruturas já estão debilitados. Vamos ter mais pequenas inundações, quedas de árvores, deslizamentos e muros a ceder.




Cheias em Soure
Sérgio Azenha

É possível preparar‑nos?
Algumas coisas sim: retirar pessoas e bens de zonas baixas, identificar estruturas instáveis. Mas há danos que são inevitáveis quando há semanas de chuva intensa.

O que esperar nos próximos dias?
Muita precipitação, alternando entre Norte e Sul, e vento mais forte no Sul com a chegada do rio atmosférico. Não deverá ter a magnitude da semana passada, mas o território está fragilizado e fenómenos moderados podem causar danos maiores. Um vento de 100 km/h, que normalmente não causaria grandes danos, pode agora provocar estragos significativos. O solo, as árvores e as estruturas já estão debilitados. Vamos ter mais pequenas inundações, quedas de árvores, deslizamentos e muros a ceder.

É possível preparar‑nos?
Algumas coisas sim: retirar pessoas e bens de zonas baixas, identificar estruturas instáveis. Mas há danos que são inevitáveis quando há semanas de chuva intensa.

O oceano mais quente intensifica o fenómeno?
Sim. À medida que o rio atmosférico avança, vai precipitando, mas também evapora mais porque o oceano está mais quente. Chega à Europa ainda com muita carga de humidade.

Há explicação para estes fenómenos mais ou menos raros estarem mais intensos?
As alterações climáticas podem aumentar a ocorrência de rios atmosféricos e intensificar depressões. Os modelos apontam para mais rios atmosféricos na fachada atlântica europeia, mesmo em regiões onde a precipitação total pode diminuir. Quanto ao sting jet, há tão poucos casos — três em 30 anos em Portugal — que não há estatística suficiente.




Efeitos da tempestade Kristin na Marinha Grande
Paulo Pimenta

As alterações climáticas estão a aumentar a frequência e intensidade destes fenómenos, certo?
É verdade e não é. O número total de eventos pode não aumentar. O que aumenta é o número de fenómenos muito fortes. É como ter cinco ondulações num terreno: continuam a ser cinco, mas se três passam de um metro para três metros, o impacto muda completamente.

Mas este mês tivemos muitas tempestades seguidas.
Sim, mas há dois ou três anos, no meio de secas prolongadas, a percepção seria outra.

No clima não se pode olhar para um mês, mas para décadas…
Sim, é preciso olhar para décadas, não para semanas.

O que sabemos com certeza?
Que as alterações climáticas aumentam a intensidade dos extremos — tanto de precipitação como de temperatura. Não temos mais furacões, mas temos mais furacões de categoria 3, 4 e 5. E isso molda a percepção pública.

Sabemos que a temperatura está a aumentar. As ondas de calor são mais frequentes e mais intensas.
Sim, aí sim. Há mais calor e esse está mesmo a aumentar [na intensidade e frequência], tanto a nível médio como dos extremos. A precipitação está a aumentar de intensidade. A percepção de aumento da frequência é enganadora: o que aumenta é a intensidade dos extremos. A água é limitada. O que muda é a forma como circula — evapora mais e precipita mais. Os extremos em hidrologia e os extremos em temperatura são de natureza diferente.