Porém, ainda que possa gerar uma “cacofonia”, como define o Le Monde, a diversidade de visões não divide o partido, argumenta Gilles Ivaldi. Para isso, contribuem vários fatores. Em primeiro lugar, destaca o investigador, o facto de o partido não se focar na política externa, mas em “problemas nacionais e locais”, sobre os quais a linha oficial é muito mais clara. Por outro lado, o facto de a liderança da UN ser, na prática, bicéfala. Jordan Bardella é o presidente do partido, mas Le Pen tem uma enorme preponderância — uma coexistência pacífica entre os líderes favorece uma coexistência pacífica entre as duas fações.
Por último, as duas linhas de política externa conseguem encontrar inimigos comuns: Emmanuel Macron e a UE. Ao discursar no Parlamento Europeu no passado dia 20, Bardella declarou que a atual ordem internacional e, particularmente, as ameaças de Trump à Europa “não são um acidente”, mas “o resultado de décadas de cegueira estratégica”. Um mês antes, na Assembleia Nacional, Le Pen acusava Macron de “ter encorajado as instituições europeias a interferirem na política de defesa”. A posição, que se estende aos dois extremos do partido, é criticada por oficiais de Defesa franceses que falaram ao Politico. “Vimos que o principal inimigo de Le Pen é a Europa, não a Rússia”.
Falta mais de um ano para Emmanuel Macron abandonar o Eliseu e os candidatos para ficar com o seu lugar ainda nem estão apresentados, mas as empresas de sondagens já colocam a questão: se as eleições presidenciais fossem hoje, em quem votaria? 35% dos eleitores franceses responderam Jordan Bardella, 33% Marine Le Pen, numa sondagem da OpinionWay, citada pelo Le Figaro. Ao Observador, Gilles Ivaldi ressalva que, ao contrário das eleições municipais daqui a alguns meses, focadas na política interna, a política externa “vai assumir a dianteira em 2027”.
Afinal, no sistema semi-presidencialista francês, a política externa é a área onde o Presidente goza de mais autonomia para executar a sua agenda — a ação de Emmanuel Macron nesta área tem sido particularmente visível e a sua resistência a Trump já lhe valeu uma pequena subida de popularidade, que se arrasta há quase um ano por mínimos históricos. Ora, esta área é precisamente um dos pontos mais ambíguos da UN, que lidera as sondagens.
Eric Sangar, professor na Sciences Po de Lille, nota, ao Public Senat, que o eleitorado da UN é particularmente polarizado nestes temas, num reflexo do que se passa no interior do partido, pelo que a manutenção desta ambiguidade permite manter os votos de todos os eleitores. Já Gilles Ivaldi destaca outros dois fatores. Por um lado, historicamente, a UN nunca teve necessidade de firmar uma posição sobre política externa para ganhar eleições, dado que “os seus eleitores, até recentemente, eram principalmente classe média e classe trabalhadora, com pouco interesse em assuntos internacionais”.