A gestão política da recente tempestade que assolou o país beneficiou a imagem de António José Seguro, com 45% dos eleitores a considerarem a sua atitude mais adequada face à catástrofe. Os dados relativos ao nono dia da sondagem diária da Pitagórica – para o JN, TSF, TVI e CNN – revelam que, em contraste, apenas 14% dos inquiridos validaram a postura mais mediática de André Ventura, uma diferença que acentua o perfil de “porto de abrigo” que Seguro tem capitalizado nesta fase decisiva da campanha para a segunda volta.

A curiosidade mais marcante deste barómetro é a forma como a tempestade serviu de teste ao “fator presidencial”: quando confrontados com um cenário de falha grave nos serviços públicos essenciais decorrente de crises desta natureza, 66% dos portugueses apontam Seguro como o candidato melhor preparado para intervir, deixando Ventura com apenas 20% de confiança neste indicador específico.

Kristin: o Governo e o presidente

Um dado relevante é a avaliação da resposta do atual Governo (AD) às consequências da depressão Kristin, mais visíveis em municípios da região Centro: apenas 23% a consideram positiva ou muito positiva, enquanto 43% a classificam como negativa ou muito negativa. Neste contexto, a maioria dos portugueses (66%) defende que o papel presidente da República deve ser o de exigir mais rapidez e eficácia ao Governo, em vez de se manter discreto ou apoiar publicamente a ação governativa. Estes dados sugerem que o eleitorado espera um presidente interventivo e vigilante perante as falhas do Estado.

E é aqui que o líder do Chega e candidato a Belém pode marcar pontos. Ventura ganha terreno quando o tema é especificamente o escrutínio ao Executivo. No cenário de um Governo que demore a reagir a uma crise grave, 35% dos eleitores acreditam que o líder do Chega teria mais força para pressionar uma resposta rápida, embora Seguro continue a liderar este indicador com 53%. No que toca à recuperação da confiança nas instituições políticas, Seguro volta a destacar-se com 68%, reforçando a sua imagem de estabilidade face aos 20% de Ventura.

Intenções de voto e resiliência de Ventura

Apesar da desvantagem na sua gestão política da crise meteorológica causada pela depressão Kristin (mais denunciada e mediatizada, comparativamente ao seu adversário), André Ventura não perdeu fôlego nas intenções de voto. O candidato do Chega subiu para os 29,5%, o seu valor mais elevado na série iniciada a 26 de janeiro, enquanto António José Seguro recuperou ligeiramente para os 53,2%. A margem entre ambos permanece confortável para o antigo líder do PS, mas a subida de Ventura indica uma mobilização crescente da sua base na antecâmara do sufrágio.

A confiança na vitória final, contudo, parece imune às variações diárias. Independentemente de em quem pretendem votar, 90% dos inquiridos estão convictos de que Seguro será eleito presidente da República. Esta perceção de inevitabilidade é partilhada até por setores que não votam no candidato, contrastando com os parcos 6% que acreditam numa reviravolta protagonizada por Ventura.

Segmentação social e regional

A análise detalhada dos dados mostra que o apoio a Seguro é particularmente robusto no Norte do país (59%) e entre o eleitorado feminino (59,3%). O candidato consegue ainda captar uma fatia importante de votos moderados, herdando 55,6% dos eleitores que na primeira volta escolheram Luís Marques Mendes (candidato apoiado pela AD) e 62,2% dos que votaram no almirante Gouveia e Melo.

André Ventura, por seu lado, mantém o domínio no eleitorado masculino (35,6%) e entre os jovens dos 18 aos 34 anos (35,1%). A sua capacidade de transferência de voto é quase total dentro do seu próprio campo (96,3%), mas continua a encontrar barreiras na conquista de eleitores de outras candidaturas de Direita, como a de João Cotrim de Figueiredo, onde capta apenas 20,6%.

Antevisão do pós-eleições

A tempestade parece ter agudizado a sensação de incerteza quanto à coesão nacional. O número de portugueses que antecipa um país mais dividido após as eleições subiu para os 25%, igualando agora os que acreditam numa maior união. Para a maioria (44%), o cenário pós-eleitoral é condicional: o estado da nação dependerá diretamente do nome que sair das urnas no próximo domingo. Com 85% dos eleitores a garantirem que vão “de certeza” votar, a mobilização será a chave final para confirmar ou desafiar as tendências registadas neste nono dia de sondagem. Aliás, António José Seguro tem repetido, quase diariamente, que as sondagens correm o risco de contribuir para a abstenção, uma vez que muitos eleitores poderão pensar que está tudo decidido e que o seu voto não fará a diferença.

Pormenores

Seguro é o destino natural do PS: Entre os eleitores que votaram no PS nas últimas legislativas, a fidelidade a António José Seguro é esmagadora, atingindo os 84,5% das intenções de voto.

Divisão sobre a liberdade de voto: A decisão do primeiro-ministro de não apoiar nenhum candidato divide o país: 48% concordam com a neutralidade, enquanto 33% discordam da opção de Luís Montenegro.

Seguro visto como mais autónomo: Para 61% dos inquiridos, António José Seguro será o candidato mais independente dos partidos no exercício do cargo, face a apenas 19% que atribuem essa nota a Ventura.

Tracking poll: Sondagem diária até 6 de fevereiro

O JN publicará uma “tracking poll”, diariamente, até 6 de fevereiro, último dia em que é permitida a publicação de sondagens. Poderá seguir a evolução das intenções de voto na edição online, ao princípio da noite, ou na edição impressa. Um estudo de opinião que funciona de uma forma diferente do habitual. Arranca como qualquer outra sondagem, com uma amostra de cerca de 600 inquéritos, que representam o nosso universo eleitoral. A cada dia, acrescentam-se cerca de 200 entrevistas, retirando-se as 200 mais antigas. Ao fim de três dias, a amostra estará completamente renovada, relativamente ao dia de arranque. E assim sucessivamente até às vésperas da ida às urnas que, para usar uma frase feita, mas nem por isso menos verdadeira, é a “sondagem” que conta.

Ficha técnica

Durante 3 dias (1, 2 e 3 de fevereiro de 2026) foram recolhidas diariamente pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN um mínimo de 202 a 203 entrevistas (dependendo dos acertos das quotas amostrais) de forma a garantir uma sub-amostra diária representativa do universo eleitoral português (não probabilístico). Foram tidos como critérios amostrais o Género, 3 cortes etários e 20 cortes geográficos (Distritos + Madeira e Açores). O resultado do apuramento dos 3 últimos dias de trabalho de campo, resultou numa amostra de 608 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,06%.

A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de “telemóvel” mantendo a proporção dos 3 principais operadores móveis. Sempre que necessário foram selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI – Computer Assisted Telephone Interviewing).

O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores portugueses, sobre temas relacionados com as eleições Presidenciais, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha bem como a intenção de voto dos vários candidatos. Foram realizadas 1244 tentativas de contacto, para alcançarmos 608 entrevistas efetivas, pelo que a taxa de resposta foi de 48,87%.

A distribuição de indecisos é feita de forma proporcional.

A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva. A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC – Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.