Esta quinta-feira é o dia que mais preocupa as autoridades no que toca ao risco de inundação. Corresponde ao pico da tempestade Leonardo, a quinta a atingir o continente neste mês de janeiro, numa altura em que os solos já não têm capacidade para absorver água, as barragens estão a descarregar de norte a sul do país e Portugal está a receber milhares de litros por metro cúbico de água de Espanha, sobretudo nas bacias do Tejo e do Guadiana.

“Vai ser um dia muito difícil”, sublinharam o presidente da APA, Pimenta Machado e a ministra do Ambiente durante uma reunião na Agência Portuguesa do Ambiente esta quarta-feira onde foi feito o balanço da gestão das cheias.

“Preocupa-nos muito amanhã” quando o pico da tempestade Leonardo será atingido. “É a quinta grande tempestade, a somar a um mês de dezembro que foi muito chuvoso, a um mês de janeiro que bateu também recordes de chuva e, portanto, estamos com certeza muito preocupados”, afirmou Maria da Graça Carvalho. A ministra que acumula a energia e o ambiente, duas das áreas mais sensíveis na crise de eventos climáticos que atingiu o país, apelou à população para seguir as recomendações da proteção civil e evitar comportamentos de risco.

À medida que a Leonardo segue para norte, o mapa das regiões de maior risco passa do sul para o centro. Na região norte, tem sido até agora possível controlar melhor o risco de inundação.

Regiões de maior risco de cheia, 4 de fevereiro

Previsões da Agência Portuguesa do Ambiente para esta quinta-feira

As previsões mais atualizadas do IPMA (Instituto Português do Mar e Atmosfera) dão conta de um alívio das previsões para o fim de semana. “A boa notícia”, afirmou a diretora da APA para os recursos hídricos, é que quase não vai chover no domingo. “Vamos ter uns dias de alívio para preparar um novo evento que virá na terça-feira” disse Maria Felisbina Quadrado.

Já o presidente da APA, José Pimenta Machado, destacou a gestão feita pela agência que desde outubro está a preparar os efeitos de um inverno que se previa muito chuvoso. Neste momento em que já há pouca capacidade para absorver mais água, a APA tem aproveitado os dias de menos chuva e os períodos de maré-baixa para fazer descargas e cheias controladas para evitar o pior.

A tempestade Leonardo começou por atingir mais o sul do país e a Grande Lisboa esta quarta-feira, com as bacias dos rios Guadiana e Sado a terem o nível de alerta de risco mais alto. No Alentejo há, aliás, registo da primeira vítima mortal desta depressão, um homem cujo carro foi arrastado pela água perto de uma barragem em Serpa.

Mapa de monitorização de risco de cheias ,4 de fevereiro APA

Mapa de monitorização de risco de cheias para o dia 4 de fevereiro da APA

Para além da chuva intensa, há também descargas de Espanha, que avisou Portugal, nos rios Tejo e Guadiana. É neste que estão a ser feitas as descargas mais expressivas, a partir da barragem e ribeira da Chança, o que está obrigar o Alqueva também a descarregar. Havia um caudal de cinco mil metros cúbicos por segundo a chegar à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António. O rio pode saltar o leito e já foram emitidos alertas para Mértola, onde foi evacuado um lar de terceira idade, e para algumas localidades do sotavento algarvio. No Algarve, todas as barragens estão cheias.

Cenário idêntico verifica-se na bacia do Sado, que atingiu um nível de caudal nunca visto desde 1989. Com a agravante de que neste caso, o rio já invadiu a baixa de Alcácer do Sal há vários dias e todas as barragens a montante atingiram o limite.

O Tejo também está a receber descargas de Espanha, cerca de 1500 metros cúbicos por segundo a partir de Cedillo, mas ainda não foi atingido o nível de limite de cheias que se situa na estação de Almourol. O caudal do Zêzere também está a ser gerido com descargas das barragens do Cabril e de Castelo de Bode, com o efeito da chuva a ser aqui ampliado pela neve que caiu na região da Serra da Estrela.

Apesar desta não ser a bacia que mais preocupa as autoridades, é no Ribatejo que há mais localidades com previsão de um risco mais elevado de cheias significativas a partir desta noite de quarta-feira e de quinta-feira. Nomeadamente:

Rios Tejo e Sorraia: Abrantes, Almeirim, Alpiarça, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Constância, Coruche, Entroncamento, Gavião, Golegã, Mação, Salvaterra de Magos, Santarém, Vila Franca de Xira, Vila Nova da Barquinha.

Na escala das preocupações das autoridades, o Mondego merece uma atenção especial, em particular Coimbra e Figueira da Foz. As cheias neste rio são diferentes porque a partir de Coimbra há diques, e se um deles ceder pode gerar uma onda de cheia com muita energia e incontrolável. O caudal do Mondego tem sido controlado através da barragem da Aguieira, que já encaixou 180 milhões de metros cúbicos.

Segundo a ministra do Ambiente e Energia, as autoridades estão concertadas com as câmaras e estão identificadas as pessoas e negócios que terão de ser evacuados caso se atinja o nível crítico. As zonas de maior risco são:

Rio Mondego: Coimbra, Figueira da Foz, Condeixa-a-Nova, Montemor-o-velho, Miranda do Corvo, Soure.

Mais a norte, as atenções estão viradas para os rios Vouga e Águeda.

Rio Vouga: Albergaria-a-Velha, Aveiro, Estarreja, Ílhavo, Mira, Murtosa, Ovar, Vagos e Cantanhede.

Rio Águeda: Águeda