ICE Out. Uma frase simples que se transformou no grito de protesto contra a atuação do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE, na sigla inglesa). A máxima chegou, esta semana, à cerimónia dos Grammy, com vários artistas a declará-la nos seus discursos ou a usar um pin com ela gravada; e inspirou a música de Bruce Springsteen, Streets of Minneapolis – uma canção de protesto contra o ICE que surge em resposta às mortes de Renée Good e Alex Pretti, dois cidadãos norte-americanos que perderam a vida, no mês de janeiro, durante as operações do ICE na cidade de Minneapolis.
A correspondente em Washington D.C., Paula Alves Silva, lembra ao SAPO que “durante o último ano, o ICE mudou drasticamente o modus operandi”. “As táticas são violentas, as localizações incluem espaços que o ICE evitava, tais como escolas, tribunais ou locais de trabalho, e há muito mais botas no solo”, explica a jornalista que vive há 12 anos nos EUA.
“Era como se estivéssemos numa distopia, como se a nossa cidade estivesse a ser invadida, lembra Elise Powers”
“Estamos numa zona de guerra aqui. Tenho medo de sair à rua e do que posso encontrar”, conta ao SAPO Elise Powers, 28 anos, residente em Powderhorn Park, numa zona central de Minneapolis, maioritariamente latina, e onde o ICE atua “constantemente”.
Minneapolis é também a cidade onde, em 2020, George Floyd foi assassinado por um agente da polícia, um caso que desencadeou uma das maiores ondas de protestos contra a violência policial nos Estados Unidos e no mundo. Cinco anos depois, a cidade volta a ser palco de contestação num contexto que muitos residentes descrevem como sem precedentes.
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Protestos contra o ICE em Minneapolis
Créditos: CHARLY TRIBALLEAU / AFP
No dia em que Renée Good foi morta, a seis quarteirões da casa de Elise, “havia sirenes, helicópteros e tudo mais a sobrevoar a área, era surreal”. Juntou-se com amigos nessa noite “para ninguém ficar sozinho”. “Ficámos na sala a observar os helicópteros a sobrevoar a casa, era como se estivéssemos numa distopia, como se a nossa cidade estivesse a ser invadida”, conta.
Elise fala do pavor que sente ao sair à rua e dos vídeos que circulam, onde agentes do ICE mandam parar carros, tiram as pessoas de lá, arrastam mulheres grávidas e onde o clima de medo se instala.
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Agentes do ICE em Minneapolis
Créditos: Stephen Maturen / Getty Images via AFP
Paula Alves Silva acrescenta que “foram recrutados mais de dez mil novos agentes, uma grande parte sem qualquer experiência, e incluindo membros da organização neofascista Proud Boys” e que “estão a fazer detenções indiscriminadas, onde se prioriza a dramatização da cena, por forma a incutir uma atmosfera de medo”. “Em última instância, o que se pretende com a escalada das situações e o clima de terror é conduzir os imigrantes à autodeportação”, completa.
Tudo isto está a contribuir para um crescente medo e pânico na sociedade norte-americana. “Vivencia-se um grande nível de ansiedade entre as famílias não documentadas ou em processo de legalização. E é um sentimento cada vez mais presente junto das crianças que vivem com o receio de ver o pai ou a mãe serem detidos”, refere Paula Alves da Silva.
Elise revela que fica nervosa quando conduz e que vive com medo do que pode encontrar quando sai de casa. Trabalha num centro de terapia para crianças com autismo e conta que os protocolos mudaram, as portas estão todas trancadas e as entradas são muito mais controladas. “No dia seguinte ao assassinato da Renée Good, estava a liderar uma reunião e desabei a chorar com a minha equipa. Digo-lhes constantemente que preciso que estejam em segurança e que conheçam o ambiente que os rodeia”, conta Elise. A morte de Alex Pretti repetiu esse temor.
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Elise Powers tem participado nas manifestações contra o ICE em Minneapolis
Créditos: Elise Powers
Cerca de 90% das crianças com que trabalha são de famílias imigrantes. “Há motoristas do centro, quase todos somalis, a serem parados pelo ICE logo depois de deixarem as crianças. Parte-me o coração pensar que um dia uma criança autista, que não fala e que não sabe pedir ajuda, possa ficar sozinha no carro porque o motorista foi detido”, conta a jovem norte-americana.
O medo estende-se à vida pessoal: “O meu namorado é negro e eu certifico-me de que ele anda sempre com o passaporte, tenho medo de que o tirem do carro. Mas mesmo com passaporte, eu acho que já não importa. Estão a levar pessoas sem sequer pedir identificação. Simplesmente metem as pessoas nos carros e levam-nas para o centro de detenção. Vivo aterrorizada com a possibilidade de isso acontecer com o meu namorado.”
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Agentes do ICE detêm um manifestante em Minneapolis
Créditos: CHARLY TRIBALLEAU / AFP
Paralelamente a este clima de medo, Paula Alves Silva afirma que “uma grande parte da população norte-americana continua a ter uma vida quotidiana normal”, mas explica que se sente uma “enorme frustração junto dos democratas, dos moderados e já de muitos republicanos que temem que estas ações possam generalizar-se a todos os cidadãos que apresentem resistência ou contrariem as posições do governo”.
Há um receio de que o ICE se transforme numa “força paramilitar” e que “o que acontece de forma localizada passe a ser uma realidade nacional”, contextualiza a jornalista.
Paula Alves Silva lembra ainda o desenvolvimento de tecnologia de reconhecimento facial com intenção de monitorizar cidadãos, incluindo redes sociais. “Existe o receio de que essa tecnologia possa ser usada contra os meios de comunicação social, cidadãos, políticos e ativistas que revelem posições contrárias ao governo e que, desse modo, possam ser acusados de serem terroristas domésticos, um termo que tem já sido usado para justificar a detenção de manifestantes.”
“É palpável uma tensão crescente na sociedade norte-americana que começa a reconhecer que o país pode estar ou ter já se transformado numa autocracia, nota a jornalista”
A “Gestapo de Trump”?
Todas estas alterações que se deram neste segundo mandato de Trump fizeram com que, pela internet e também nos protestos de rua, circule uma nova alcunha para o ICE que a compara com a polícia política da Alemanha nazi, a “Gestapo de Trump”. Paula Alves Silva considera que existem pontos relevantes a analisar, sobretudo no que toca ao treino destes novos agentes.
“São expostos a vídeos que apelam ao nacionalismo, há um apelo à ação que reponha uma América ancorada nos chamados valores brancos, aniquilando o país que celebra a sua multiculturalidade. E para tal está a ser criada uma imagem de que todos os imigrantes, independentemente do seu estatuto legal, são criminosos. Uma espécie de inimigo interno que gera medo e divisão”, sublinha a jornalista.
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Cartazes contra o ICE em Minneapolis
Créditos: CHARLY TRIBALLEAU / AFP
Elise Powers relata que no seu bairro, “as pessoas têm medo de sair de casa” e que “há famílias que não saem há semanas, fecham as portas e mesmo assim o ICE entra, arromba portas e detém pessoas em roupa interior e sem sapatos”. A norte-americana sublinha ainda que “há observadores legais a serem ameaçados com armas”.
Todo este clima leva a crer que o ICE tem carta branca para atuar da pior forma e a correspondente em Washington confirma-o como “um objetivo amplamente referido, sobretudo pelo conselheiro de Segurança Interna, Stephen Miller, que, em declarações recentes, enviou uma mensagem clara aos agentes do ICE para que prendessem o máximo de pessoas que conseguissem a qualquer custo, e ofereceu-lhes ‘imunidade federal’”.
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Agentes do ICE em Minneapolis
Créditos: CHARLY TRIBALLEAU / AFP
Operações que em nada se aproximam da forma como o ICE atuava durante o mandato de Biden. Nessa altura, relembra a jornalista, “o ICE apenas prendia imigrantes com antecedentes criminais graves e a detenção era concretizada após uma investigação rigorosa acerca da pessoa”.
Com a mudança de presidente, vários oficiais do ICE em posições de liderança “foram substituídos por membros da patrulha de fronteira, conhecida por usar táticas mais agressivas”, indica Paula Alves da Silva. Além disso, a criação de novos centros de detenção recebeu um financiamento de 45 mil milhões de dólares. “Só no último ano, o número de detidos passou de 39 mil para 73 mil e morreram 32 pessoas nestes centros, um número recorde. E não se prevê que as detenções em massa diminuam”, completa a correspondente internacional.
Quando o discurso discriminatório aponta a certas minorias
A perseguição a certas minorias e grupos tem também sido frequente nas operações do ICE. Há, de facto, uma campanha coordenada em curso contra a imigração, e ambas as entrevistadas confirmam esta ideia ao SAPO.
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Palavras de ordem contra o ICE nas ruas de Minneapolis
Créditos: CHARLY TRIBALLEAU / AFP
Elise Powers descreve como as alegadas fraudes em programas sociais e de saúde mental se tornaram motivo de retórica antigovernamental e de pressões regulatórias. Os protocolos nos centros de autismo mudaram muito. “O Departamento de Serviços Sociais do Minnesota está a controlar a forma como profissionais na área do autismo, como eu, têm de documentar tudo. Temos muitos passos extras, muitas vezes demorados e irrelevantes”, conta Elise.
A norte-americana conta que muitos centros de tratamento de autismo de propriedade somali foram acusados de fraude e detalha: “Um deles recebeu indevidamente 14 milhões de dólares em fundos públicos e enviou o dinheiro para o Quénia, isso irritou Trump e alimentou a ideia de que toda a população somali em Minneapolis é um problema, o que não é verdade.” Numa declaração, em dezembro, Donald Trump classificou os imigrantes somalis como “lixo” e afirmou que não os queria no país.
Estes casos de fraudes aconteceram há cinco anos, altura em que ficou provado que algumas instituições desviaram apoios públicos. Os envolvidos já foram julgados. Contudo, este foi o pretexto utilizado para justificar e despoletar a Operação Metro Surge nas cidades de Minneapolis e Saint Paul (ver caixa abaixo).
O estado do Minnesota tem a maior população de somalis do país. Cerca de 84 mil pessoas de ascendência somali vivem na área das Twin Cities – a maioria são cidadãos norte-americanos. De acordo com um relatório do Instituto de Políticas de Migração (MPI, na sigla inglesa), o Estado abriga apenas 0,7% dos cerca de 13,7 milhões de imigrantes sem documentos dos EUA.
“O intuito é dividir os cidadãos e torná-los mais suscetíveis a aceitar as atuais políticas de imigração”, diz Paula Alves Silva
O discurso discriminatório com alvo a certas minorias é bem visível quando se vê que as pessoas que estão presas têm “uma certa cor ou um certo sotaque, independentemente de se encontrarem legais ou não no país”, realça a jornalista. Elise reitera a ideia, afirmando que foram pessoas brancas que morreram, mas que “quem está a ser mais visado, detido e espancado são todos os outros e apenas pela sua cor de pele”.
“Quando vemos, por exemplo, a administração acusar, consecutivamente, a população somali de fraude sem apresentar provas; quando vemos os 1,5 milhões de imigrantes que chegaram durante o mandato de Biden com estatuto de asilo perderem esse estatuto e serem rotulados de ilegais; quando vemos a tentativa de encerrar programas de imigração; quando vemos que a recusa de pedidos de asilo passou de cerca de 50% durante a administração Biden para 84% com o atual governo”, enumera a jornalista, ela própria a viver como imigrante nos EUA.
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Paula Alves Silva
Créditos: D.R.
“Vivenciar esta transformação permite-me ter uma maior perceção do que significa viver num país com a pele de um imigrante, apesar de ser uma mulher branca, no sentido de admitir que podem existir repercussões relativamente ao meu estatuto legal, fruto das minhas publicações profissionais ou pessoais, apesar do seu conteúdo isento”, reconhece. Por sua vez, Elise tem vontade de se tornar uma imigrante e sair do país: “Candidatei-me a um emprego na Escócia, mas outra parte de mim diz-me para ficar e lutar.”
Operação Metro Surge
A Metro Surge, considerada a maior operação de fiscalização da imigração já realizada, começou em dezembro de 2025 nas Twin Cities (Minneapolis e Saint Paul. A escalada de violência nas táticas do ICE tem sido uma característica marcante desta operação que visa a detenção de imigrantes ilegais, mas que provocou a morte de cidadãos norte-americanos, Renée Good e Alex Pretti. O governo anunciou esta quarta-feira a retirada de 700 agentes do ICE de Minnesota, mas ainda por lá permanecem 2000 agentes. A Metro Surge tem sido alvo de protestos e vigílias, bem como greves e processos que tentam pôr um fim à operação. Dados do governo apontam para a detenção de mais de 3 mil pessoas.
Quem pode parar o ICE?
A luta contra a imigração é uma das bandeiras de Trump, que lhe confere “uma grande sensação de poder” e que “lhe trouxe uma grande taxa de aprovação até ao momento”, considera Paula Alves Silva.
Contudo, “em resultado da prática violenta do ICE e, sobretudo, dos últimos dois assassinatos de cidadãos americanos surgiu um desconforto entre os seus apoiantes, senadores e outros membros do partido”. Além do aumento dos protestos que tomaram as ruas de várias cidades norte-americanas e também além-fronteiras, em países como Itália ou Dinamarca.
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Memorial para Renée Good em Minneapolis
Créditos: SCOTT OLSON / Getty Images via AFP
“As sondagens mostram que mais de metade da população acredita que a ação do ICE está a ir longe demais e há um decréscimo da popularidade do presidente. Resta saber, com as eleições intermédias a aproximarem-se, se Trump vai reconsiderar algumas das políticas de imigração ou alterar a ação do ICE”, indica a jornalista. Elise não tem muitas expectativas: “Sinto que Trump vai tentar fazer alguma coisa, como manipular o sistema, ameaçar pessoas, desacreditar o processo. Não vejo sinais de mudança.”
Por outro lado, é possível que o Congresso possa legislar sobre a atuação do ICE, “exigindo mandados judiciais para detenções, reforçando a formação dos agentes, obrigando-os a usar identificação visível e reforçando a responsabilização e a transparência”.
Elise acredita que “o sistema arranja forma de lhes dar mais dinheiro”. E os factos dão-lhe razão. O ICE é, atualmente, “a agência policial com maior financiamento do país”, assinala Paula Alves Silva e detalha: “tem ao seu dispor 75 mil milhões de dólares, para os próximos quatro anos, além do orçamento base de cerca de 10 mil milhões.”
Bruce Springsteen canta uma cidade marcada pela repressão e pela resistência, o que ainda é visível nas ruas de Minneapolis. As pessoas continuam a protestar, juntam-se em vigílias e fazem ações contra o ICE. Tocam instrumentos e música muito alta em frente aos hotéis onde estão hospedados os agentes da polícia de imigração. “Tocar música ainda é pacífico, não vejo qualquer problema em tentar garantir que os agentes do ICE não durmam. Eles não nos dão paz, nós também não lhes damos paz”, conclui Elise Powers.