Sem um acordo de não-proliferação nuclear entre as duas superpotências mundiais, o planeta vai lentamente “entrar numa fase de opacidade total que é bastante preocupante e aceitação de uma confrontação nuclear”. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal garantem: “Desde 1991, nunca tivemos num ponto tão incerto quanto a direito internacional”

Esta quinta-feira é diferente de todas as outras. Este 5 de fevereiro acaba por entrar para a história, porque 80 anos, cinco meses e 30 dias depois do Enola Gay ter largado a bomba que ficou conhecida como ‘Little Boy’ nos céus de Hiroshima, no Japão, o mundo pode estar prestes a entrar numa nova corrida ao armamento nuclear. O New START acabou.

Chegou o dia em que termina o único tratado que restava entre Estados Unidos e Rússia, as duas maiores potências nucleares mundiais, com o propósito de limitar os arsenais a um máximo de 1.550 ogivas nucleares de longo alcance implantadas em sistemas de lançamento. De agora em diante, acabaram-se as inspeções no terreno mútuas; a troca regular de dados sobre arsenais e localizações; as notificações obrigatórias sobre movimentos, testes e alterações; o uso de tecnologias de monitorização e a obrigatoriedade de manter os bombardeiros estratégicos ao luar, jargão militar que quer dizer que têm de estar a céu aberto para que possam ser monitorizados pelo inimigo.

“Agora, entrámos no caos.” Ao preocupante aviso do major-general Agostinho Costa junta-se a explicação sobre o que está em causa com esta mudança de paradigma: “Entrámos numa era em que cada um desenvolve o que quer, como quer, a lógica até agora era que a confrontação nuclear seria a exceção, a partir de agora a confrontação nuclear passa a ser a regra”.

Para o especialista em estratégia militar e Defesa, o pressuposto vai continuar a ser o mesmo: “Ambas as potências têm e querem ter a capacidade de se destruir mutuamente a qualquer momento”. Agostinho Costa considera que esta premissa é um “facto”, mas que, a partir deste 5 de fevereiro e sem amarras do último acordo de não-proliferação que restava entre as duas grandes potências nucleares, passamos a ter uma ameaça nuclear em esteroides. E têm Washington e Moscovo necessidade de ter mais armas nucleares? O major-general dá a entender que se calhar não, porque “1.550 ogivas nucleares chegam e sobram para destruir o mundo umas quantas vezes”.

O cogumelo provocado pela explosão do “Little Boy” sobre Hiroshima (Getty)

O perigo das perceções

Os especialistas em geoestratégica, geopolítica e de estratégia militar ouvidos pela CNN Portugal também teorizam que, apesar do fim do New START, uma nova era e o “caos” que Agostinho Costa teme podem não chegar. O mundo pode ficar precisamente neste mesmo modo de estagnação, com Rússia e EUA optarem por continuar a cumprir as diretrizes apesar de não o terem de fazer. Contudo, o mais provável parece ser que isso não passe de wishful thinking, como dizem os norte-americanos e ingleses para caracterizar um pensamento que se quer que aconteça, mas que na realidade o mais provável é que não venha a acontecer.

E porquê? Numa tentativa de adivinhação do futuro com base no passado e no comportamento clássico, tanto humano como dos Estados, o mais provável é que, sem a atual monitorização de arsenais, a determinado dia, um dos lados acuse o outro de estar a aumentar a produção de ogivas nucleares. É expectável que a resposta do outro lado seja a negação e é quase certo que isso de nada vai servir. Isto porque perante a primeira suspeita, mesmo que infundada, a resposta será inevitavelmente produzir mais ogivas, o que desencadeará uma cadeia de reações semelhantes noutros Estados. Para este resultado .não é sequer necessário que haja um incumprimento, a suspeita bastará. A isto, Tiago André Lopes chama o perigo de “viver de impulsos e de perceções de realidade” como acredita que acontecerá de agora em diante.

O professor na Universidade Lusíada e especialista em Relações Internacionais, realça que, com o fim do New START, desaparece também o seu ponto “mais interessante”: “As famosas inspeções de parte a parte”. E sem estas inspeções, as potências deixam de ter uma “noção generalizada” do tamanho do arsenal nuclear do adversário e entram num campo de previsões, suspeitas e alegações que rapidamente podem levar ao reativar de uma indústria que tem estado adormecida.

“A perceção de que se tem mais, ou vender a perceção de que ‘X’ tem mais, permite a ‘Y’ tomar certo tipo de ações”, teoriza Tiago André Lopes, explicando em que se poderia materializar este tipo de raciocínio: “Os Estados Unidos podem alegar que de repente há armas nucleares na Nigéria e entrar pela Nigéria adentro sem provas, sem nada. Ou podem acusar a China de estar a aumentar os stocks a uma velocidade alucinante para justificar que, por isso, têm de ceder armas nucleares ao Japão, à Coreia e à Mongólia”. “Entramos numa fase em que deixa de haver forma de verificar stocks e de verificar até as condições de armazenamento, até do ponto de vista técnico.” O fim do acordo é, por isso, “perigoso”, diz.

O silêncio de Washington

Barack Obama e Dmitry Medvedev assinaram o New START em 2010. Acordo entrou em vigor em 2011, foi prorrogado em 2021 por mais cinco anos, em 2023 a Rússia suspendeu a sua participação e agora termina o acordo. (Getty)

O New START foi assinado em 2010 por Barack Obama, então presidente dos EUA, e Dmitry Medvedev, à data, presidente russo, acabando por entrar em vigor em fevereiro de 2011. O objetivo central do tratado foi, desde a sua criação, limitar a proliferação de armas através de restrições e da monitorização mútua – tanto norte-americanos como russos podiam realizar até 18 inspeções no terreno do adversário – dos arsenais das duas maiores potências nucleares mundiais. O tratado inicial tinha uma duração de dez anos. Em 2021, acabou por prorrogado por mais cinco anos, até que, em 2023 no seguimento da invasão da Ucrânia, Moscovo optou por suspender a sua participação no acordo.

A Rússia nunca abandonou formalmente o New START e declarou que continuaria a respeitar o limite de 1.550 ogivas nucleares, mas a suspensão motivou o fim das inspeções periódicas e as trocas de informação rotineiras e de movimentações de armamento de destruição maciça entre as duas superpotências nucleares. Posteriormente, a 22 de setembro de 2025, Vladimir Putin anunciou, durante uma reunião do Conselho de Segurança da Rússia transmitida pela televisão estatal que a Rússia estaria “pronta, após 5 de fevereiro de 2026, para continuar a respeitar as restrições quantitativas centrais previstas no tratado New START”. 

O presidente russo garantiu que Moscovo estava decidido a renovar o acordo por mais um ano, mas que essa só seria “uma medida viável se os Estados Unidos agissem de forma semelhante e não tomassem medidas que minassem ou violassem a atual proporção de capacidades de dissuasão”. A declaração terminou com a Putin a constatar que o fim do New Start teria consequências negativas para a estabilidade global.

Esta quarta-feira, na véspera do fim do acordo, a TASS, agência de notícias estatal russa, voltou a publicar uma notícia sobre o tema com o título: “Ainda não houve resposta dos EUA”. A notícia citava o assessor do Kremlin Yury Ushakov numa conferência de imprensa após conversações entre Vladimir Putin e Xi Jinping. A TASS lembrou ainda que, a 5 de outubro, questionou Donald Trump numa conferência de imprensa sobre o fim do New Start e que o presidente dos EUA classificou como uma “boa ideia” a intenção de prorrogação de Putin, mas garantindo que, desde então, não chegou qualquer tipo de manifestação oficial norte-americana ao Kremlin.

O presidente russo, Vladimir Putin, conversa com o presidente chinês, Xi Jinping, por videoconferência no Kremlin, em Moscovo, na quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026. (Vyacheslav Prokofyev/Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP)

De realçar ainda que na véspera do fim do New Start, Vladimir Putin e Xi Jinping reuniram-se através de videoconferência, com Pequim a anunciar que os dois países estão “a entrar numa nova fase de desenvolvimento”, sem fazer qualquer referência ao nuclear. Putin, por sua vez, destacou que Rússia e China “estão a conduzir um diálogo ativo sobre energia nuclear pacífica e a avançar com projetos de alta tecnologia, incluindo no setor da indústria e na exploração espacial”.

Para Tiago André Lopes esta é a “primeira e mais importante questão” sobre o fim do New START: “Porque é que os EUA não respondem ao pedido de renovação russo?”. “Se a Rússia se dispôs, por várias vezes e já o disse, a avançar com a renovação e que só estão à espera de uma confirmação do lado dos EUA, a questão é porquê não o fazem?”, questiona o especialista em Relações Internacionais, sublinhando que a reposta para esta pergunta é algo que “não existe”. “Os EUA estenderam uma pré-resposta quando, no início do seu mandato, Trump disse que achava que o acordo tinha de ser alargado à China, esta é a posição de Trump, Mark Rubio e de Pete Hegseth, os três defendem que a China tem que fazer parte do New Start”.

“A verdade é que desde setembro do ano passado, a Rússia está à espera de uma resposta dos EUA, e reafirmou a vontade de estender o acordo. Se não fosse possível fazer um acordo novo, renová-lo por pelo menos mais um ano, ou seja, ficávamos com acordo até 2027”, explica Tiago André Lopes.

Para o professor de Relações Internacionais, a postura da Casa Branca é um reflexo da “ideia de sempre” de Donald Trump. O presidente dos EUA “não acredita no direito internacional, não acredita em multilateralismo e acredita numa visão muito clássica de Defesa que passa por ter mais capacidade do que os outros”, descreve Tiago André Lopes que explica como Trump tende a olhar o mundo: “A defesa faz-se de forma ofensiva, acumulando o máximo poder possível, porque se formos o mais poderoso de todos, ninguém se vai meter connosco e, para isso, não podemos ter amarras legais”.

“Ora, os tratados criam amarras, criam número limite de ogivas nucleares, limitam o desenvolvimento das capacidades dos Estados. Era para isso que servia o New START, era para amarrar os Estados, portanto, sem o tratado de amarra não existe. Mas não existe para os EUA nem para todos os outros”, afirma Tiago André Lopes.

De acordo com Moscovo, os EUA nunca emitiram uma resposta oficial à intenção russa de prorrogar por mais um ano o NEW START (Getty)

Agostinho Costa, enquanto experiente militar, lembra que os russos garantiram que mesmo sem acordo vão continuar a cumprir o New START por mais um ano, mas “isso é conversa” e “entretanto surgiram indicadores” no pior sentido. “Do lado russo, surgiram três novas armas russas, o Oreshnik, o Burestvesnik e o Poseidon. E, o mais preocupante, é que ouvimos Trump dizer que o orçamento do próximo ano vai aumentar 50%”, diz e acaba por concluir: “Com o fim do New START, ficamos sem nenhum acordo de redução de armas estratégicas entre as duas potencias nucleares principais”.

“A partir de hoje, estamos entregues a uma corrida armamentista em que os norte-americanos vão desenvolver o chamado Golden Dome. Muito provavelmente vamos ter uma corrida ao armamento nuclear. Não quero ser catastrofista, mas também não quero ser demasiado otimista”, garante o major-general Agostinho Costa.

Desta quinta-feira em diante, os parâmetros sob os quais se regem a geopolítica e a geoestratégia alteraram-se por tem indeterminado. O mundo vai “entrar numa opacidade total que é bastante preocupante e numa fase em que a aceitação de uma confrontação nuclear entre as duas superpotências é algo que nos devia preocupar sobre maneira”, refere Agostinho Costa.

“Desde 1991 [fim da Guerra Fria], nunca tivemos num ponto tão incerto quanto a direito internacional como agora. Nem durante a questão da guerra, do genocídio no Ruanda, nem durante o genocídio no Camboja, nunca, como agora, tivemos uma direita internacional tão instável e um quadro tão incerto. E é muito difícil todos nós percebermos, à luz do que está a acontecer agora, qual é a utilidade de todas estas regras e de todos estes princípios que não produzem efeitos nenhuns”, culmina Tiago André Lopes.