A influenciadora Evelin Camargo usou as redes sociais para compartilhar o diagnóstico de Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado a Implante Mamário (BIA-ALCL) associado à prótese de silicone, uma doença extremamente rara.
Segundo Otavio Baiocchi, onco-hematologista e head do Centro Especializado em Linfoma e Mieloma do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, estima-se que ocorra um caso a cada 2.000 a 15.000 mulheres com prótese texturizada.
Linfoma associado à prótese de silicone mamária pode ser tratado por meio de cirurgia para a retirada do implante Foto: Magryt/Adobe Stock
No Instagram, Evelin conta que, em dezembro de 2019, passou por um procedimento de redução de mama. Na ocasião, ela também colocou uma prótese de menor tamanho. Seis anos depois, em dezembro de 2025, ela sofreu com um aumento repentino das mamas.
“Meu seio esquerdo quase que triplicou de tamanho. Fui para o hospital. Fiquei muito nervosa. Inicialmente, todo mundo achou que era uma ruptura de prótese. Fiz uma ressonância magnética e o resultado mostrou que não. Tinha se formado um líquido em volta da prótese que chamam de seroma tardio”.
Segundo Baiocchi, esse líquido, o seroma tardio, é resultado do processo inflamatório ocasionado pelo uso de próteses texturizadas e/ou rugosas. “O inchaço, como sinal do linfoma associado à prótese mamária, é bastante comum. Mesmo quando o inchaço é discreto, qualquer assimetria da mama ou do mamilo de aparecimento rápido deve ser investigada. O seroma tardio surge pelo menos um ano após a cirurgia, mas geralmente entre cinco e dez anos depois”, destaca.
O quadro é diferente de cânceres de mama tradicionais, que se originam do tecido da própria mama ou da glândula mamária. O linfoma é formado a partir de mutações dos linfócitos T, provenientes do sistema imunológico humano, por conta da inflamação crônica da cápsula dos implantes mamários, em especial das rugosas ou texturizadas.
Prevenção
De acordo com o médico, não há uma forma de prevenção absoluta. Mas existem medidas que podem reduzir a ocorrência e permitir o diagnóstico precoce.
“O risco está associado principalmente às próteses texturizadas. É importante reforçar que esse câncer não é causado pelo silicone, mas pelo ambiente inflamatório crônico ao redor da prótese. A escolha da prótese correta, preferencialmente lisa e não texturizada, associada a uma técnica cirúrgica adequada e ao seguimento a longo prazo com mastologista ou cirurgião plástico, é a base da prevenção”, pontua.
Ele reforça que muitos países, incluindo o Brasil, já retiraram próteses texturizadas do mercado. “Atualmente, a principal estratégia preventiva é evitar esse tipo de prótese sempre que possível e, após discussão com o cirurgião plástico, avaliar a retirada da prótese antiga, caso seja texturizada, com a possibilidade de implante de uma prótese lisa, conforme o desejo da paciente. Mesmo sem sintomas, o acompanhamento médico regular é essencial.”
Como identificar?
Segundo o onco-hematologista, o linfoma associado às próteses mamárias podem ser confundido com a ruptura da prótese. Em casos de ruptura, ocorre o extravasamento do silicone para o tecido mamário, um quadro que pode se assemelhar ao seroma observado no BIA-ALCL. A melhor maneira de diferenciar a ruptura do seroma é por meio de exames de imagem, como a ultrassonografia ou ressonância magnética, método utilizado pela influenciadora.
“Na ruptura, a mulher costuma sentir dor, e a prótese perde sua característica arredondada. No seroma, a dor é menos comum, podendo causar apenas desconforto local e vermelhidão, e a mulher consegue, muitas vezes, palpar a prótese, pois o seroma, na maioria das vezes, é posterior, ou seja, atrás da prótese. Em alguns casos, a presença de gânglios axilares aumentados e massas palpáveis pode ser identificada pela própria paciente”, explica.
O diagnóstico definitivo do linfoma é feito por punção (procedimento que utiliza uma agulha fina para coletar células ou fluidos de nódulos e lesões) ou biópsia do seroma ou do tecido adjacente.
O material coletado deve ser encaminhado para análise, com o objetivo de identificar linfócitos T malignos por meio de imunofenotipagem ou imunohistoquímica, exames que identificam tipos específicos de células.
Tratamento
O tratamento da doença depende do estágio em que ela é diagnosticada. A maior parte dos casos, segundo Baiocchi, são curáveis por meio de procedimentos cirúrgicos, sem necessidade de quimioterapia.
“O pilar do tratamento é a cirurgia completa, com a remoção da prótese e do tecido adjacente, quando necessário. Em casos mais avançados, que são mais raros, com presença de massas ou gânglios aumentados na axila, o tratamento deve incluir quimioterapia e imunoterapia”, detalha.
A doença apresenta uma proteína específica, chamada CD30, que ajuda no diagnóstico da doença. Hoje, já existe um medicamento direcionado a essa proteína, o anti-CD30, usado no tratamento desse e de outros tipos de linfoma. Ele pode ser aplicado sozinho ou combinado com quimioterapia, conforme a situação de cada paciente. Por isso, Baiocchi reforça que o acompanhamento com especialistas é essencial para definir o tratamento mais adequado.