As barragens portuguesas descarregaram, desde o início de Janeiro, uma quantidade de água equivalente à consumida durante um ano inteiro em todo o território nacional, como preparação para dar resposta à sucessão de tempestades que começou com a depressão Ingrid.

A informação foi avançada pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, após uma reunião na Agência Portuguesa do Ambiente (APA), na Amadora, Lisboa, para um balanço da situação das cheias em Portugal. Graça Carvalho afirmou que as descargas preventivas nas barragens foram uma decisão arriscada, mas essencial para evitar cheias de grande dimensão e destacou que o processo tem sido feito em coordenação com produtores hidroeléctricos, autoridades espanholas e de acordo com as marés.

“Para termos a noção da preparação que foi preciso… Era uma decisão arriscada, porque a tempestade podia não vir e estaríamos a descarregar a água. Mas ainda bem que o fizemos, só assim é que tem sido possível impedir que haja uma grande cheia, como já houve no passado”, referiu a ministra, realçando o “contacto permanente” com as autoridades espanholas para gerir as barragens dos dois países.

José Pimenta Machado, presidente da APA, destacou a “natureza excepcional do momento” e referiu que a agência se preparou preventivamente para este “comboio de tempestades” através da descarga das albufeiras. “Libertamos 739 hectómetros cúbicos para encaixar os valores das cheias, que é exactamente aquilo que todos os portugueses consomem por ano”, explicou Pimenta Machado, destacando que as descargas foram feitas em barragens de norte a sul do país, totalizando um “valor brutal de água libertada” — um hectómetro cúbico equivale a um milhão de metros cúbicos ou mil milhões de litros.


Pimenta Machado deu como exemplo as barragens do Algarve que nunca enchiam e que estão, agora, a libertar água. E referiu que as barragens de Santa Clara, no sudoeste alentejano, e de Monte da Rocha, na bacia do Sado, vão fazer descargas.

“As barragens são uma das infra-estruturas fundamentais para minimizar o efeito das cheias. Libertámos as águas para que, quando chegasse a tempestade, em que os caudais dos rios ganham grande volume, não tivéssemos água em excesso, que iria provocar cheias”, disse ainda o responsável da APA.

Em declarações transmitidas pela RTP Notícias, a ministra do Ambiente indicou ainda que esta quinta-feira foi um dia particularmente difícil no Tejo, após Espanha também ter tido necessidade de fazer descargas nas suas barragens, elevando temporariamente o caudal, que entretanto já “está mais baixo”.

Libertamos 739 hectómetros cúbicos para encaixar os valores das cheias, que é exactamente aquilo que todos os portugueses consomem por ano



Pimenta Machado



Quanto à aproximação da tempestade Marta, Maria da Graça Carvalho destacou que as próximas horas serão novamente de “muita tensão”. “Sado, Tejo e Mondego, nos próximos dias, são as nossas preocupações”, apontou, assegurando que está a ser feita uma gestão ao “minuto” para que “os impactos sejam o menor possível” e haja tempo para avisar as pessoas em caso de necessidade de evacuação de alguns locais.

A próxima depressão, que chega esta noite, vai entrar em Portugal numa região entre Sines e Lisboa e vai afectar a zona de Alcácer, que já está a sofrer com fortes inundações, disse a ministra, explicando que a depressão atingirá depois a zona do rio Tejo, também em situação de cheias, e ainda outro rio igualmente preocupante, o Mondego.

Para esta sexta-feira e sábado, há um elevado risco de inundações nos rios Vouga, Águeda, Mondego, Tejo, Sorraia e Sado. Com risco de inundações (não elevado) estão também os rios Lima, Cávado, Ave, Douro, Tâmega, Lis e Guadiana.