A destruição provocada pela tempestade Kristin deixou um rasto de materiais perigosos espalhados por estradas, quintais e zonas residenciais, levando a organização ambientalista Zero e a Associação de Empresas Portuguesas de Remoção de Amianto (AEPRA) alertarem para um “risco grave e inaceitável” de exposição a fibras de amianto libertadas por placas de fibrocimento danificadas.
A Direcção-Geral da Saúde (DGS) já havia emitido, na quarta-feira, recomendações de segurança no âmbito dos trabalhos de limpeza, remoção de destroços e reconstrução após a passagem da tempestade Kristin, por forma a proteger as populações da contaminação por amianto.
Várias denúncias recebidas após a tempestade dão conta, segundo um comunicado da Zero, de placas de Lusalite partidas e abandonadas na via pública, sobretudo na região Oeste, como consequência dos ventos fortes que arrancaram coberturas de casas, fábricas e armazéns.
“Sempre que materiais contendo amianto se partem ou se degradam, libertam fibras extremamente perigosas”, afirmou Íria Roriz Madeira, arquitecta e membro da Zero. A inalação destas partículas, recorda, está associada a doenças muito graves, incluindo asbestose, cancro do pulmão e mesotelioma.
O cenário é agravado pela exposição dos resíduos, que permanecem acessíveis em bermas, junto a habitações ou em terrenos descampados. “Há placas que foram projectadas para as estradas e estão a ser continuamente esmagadas pelo tráfego automóvel”, alerta a Zero numa nota de imprensa.
Sempre que materiais contendo amianto se partem ou se degradam, libertam fibras extremamente perigosas
Íria Roriz Madeira
A associação ambientalista garante já ter comunicado todos os casos ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da GNR. Embora a chuva atenue temporariamente a dispersão aérea das fibras, o perigo aumenta quando o tempo seca e o material permanece fragmentado e liberta partículas para a atmosfera.
Solidariedade perigosa
A AEPRA denuncia ainda práticas informais que têm surgido em grupos de apoio às populações afectadas, onde cidadãos disponibilizam placas de fibrocimento para reparar coberturas destruídas. Para a associação, esta solidariedade aparente mascara um acto ilegal e perigoso.
“Transferem para terceiros um problema ambiental e de saúde pública”, afirma Marina Côrte-Real. Além de proibida, a reutilização de materiais contendo amianto coloca em risco quem os manuseia e todos os que vivem nas imediações.
As duas associações chamam a atenção para o perigo adicional enfrentado por equipas de socorro, autarquias e voluntários que, sem formação ou equipamento adequado, removem destroços que podem libertar mais fibras cancerígenas. Relembram também que qualquer pessoa que aceite ou utilize estes resíduos passa a ser legalmente responsável pela sua remoção e posterior encaminhamento para aterros autorizados.
Proibido em Portugal desde 2005, o amianto não pode ser reutilizado, reciclado ou sujeito a qualquer forma de valorização, nos termos da Portaria n.º 40/2014. A recomendação é clara: evitar tocar ou remover materiais suspeitos, sinalizar locais contaminados, limitar a circulação nas áreas afectadas e comunicar imediatamente às autoridades.
O desespero de famílias que ficaram sem condições de habitabilidade nas suas casas tem levado alguns a desconsiderar o perigo. “Temos conhecimento de pessoas que afirmam que a chuva dentro de casa é pior do que o amianto”, observa Marina Côrte-Real, que considera esta percepção um sinal de desconhecimento profundo sobre o risco “sério, silencioso e potencialmente fatal” associado a estes materiais.
A resposta, defendem as duas associações, deve ser integrada nas operações de emergência e exclusivamente executada por equipas especializadas.