Na passada quinta-feira, Melania estreou-se nos Estados Unidos (e em Portugal). A produção da Amazon MGM chega no meio de muitas críticas e protestos contra a administração fascista de Trump.
Este produto da máquina propagandista americana tem um orçamento de cerca de 75 milhões de dólares. Conta ainda com 35 milhões de investimento em marketing. É ridículo pensar na quantidade de dinheiro injectado num projecto de vaidade. É revoltante pensar que tal dinheiro poderia ser investido em mais escolas, mais saúde, mais floresta…
Melania marca ainda o regresso do realizador Brett Ratner ao cinema, afastado por ter sido acusado por várias mulheres de conduta sexual imprópria. A escolha por este realizador reforça as ligações de Trump a Epstein, já que apresenta todo um portefólio com Epstein.
A imprensa especializada norte-americana deu conta que o filme arrecadou sete milhões de dólares (5,9 milhões de euros) de receita de bilheteira nos Estados Unidos, o que representa a melhor estreia para um documentário na última década. No entanto, apesar da headline pomposa, o prejuízo é significativo e um desastre, ainda que apenas trocos no bolso do republicano Trump. Os vários jornais que apontam que o documentário “superou as projecções” dão-se ao ridículo. Qualquer outro filme com este resultado seria considerado um desastre financeiro gigantesco, principalmente dada a sua estreia nos Estados Unidos em cerca de 3300 salas.
A Amazon em nada parece lucrar a incorporar a propaganda de Trump no seu catálogo de investimentos, certo? Serão as noções capitalistas básicas na análise do fracasso do filme suficientes para a Amazon desprender-se desta parceria?
Não. A Amazon é das maiores empresas a nível mundial, o dinheiro que perde com Melania vem como frete de negócios mais significativos. Jeff Bezos não se importa de ceder a um capricho, se tal significar a redução dos seus impostos e desregular os direitos dos trabalhadores. Por exemplo, já da passada Administração Trump de 2017, cortes nos impostos reduziram drasticamente a alíquota do imposto corporativo de 35% para 21%, o que injectou milhões em empresas como a Amazon. A aplicação destas medidas tinha usado como argumento a ideia de que viria a impulsionar salários e investimentos (o que não se sucedeu).
Mas Melania é apenas um sintoma de uma parceria que esconde ainda muito mais e uma verdade profundamente perturbadora.
A cumplicidade com a Amazon é gritante quanto ao papel na expansão e digitalização do sistema de deportação dos EUA. Isto, através da divisão menos conhecida mas mais lucrativa da empresa — a Amazon Web Services (AWS). A AWS fornece infra-estrutura para dezenas de agências governamentais dos EUA, a Agência de Segurança Nacional (NSA), departamentos de polícia locais e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE).
Já durante o primeiro mandato de Trump, diversas plataformas hospedadas pela AWS foram usadas para localizar famílias, deter imigrantes e facilitar a separação de crianças dos pais. Em 2025, essas ferramentas estão de volta, com o reforço amedrontador da ICE.
A pergunta é: se a Europa se opõe ao fascismo e preza pela democracia, porque contou Melania com distribuição nas salas portuguesas e europeias?