Na depressão Kristin, o valor máximo registado na base de Monte Real, reconhecido pelo IPMA, é de 175,9 km por hora, mas o Instituto não exclui que tenham ocorrido rajadas com magnitude superior.

Na tempestade Kristin, há dezenas de milhares de pessoas sem energia elétrica há 10 dias. E só no final do mês é que a E-Redes admite repor totalmente o serviço, com metas intermédias de 95% para este sábado e 98% para o próximo. Depois de ter sido reduzido de forma progressiva, o número de clientes sem fornecimento está a subir há dois dias (69 mil no final de sexta-feira, dos quais 61 mil na região atingida pela Kristin) por causa da propagação dos efeitos do mau tempo a outras áreas do país.

É certo que a Kristin será classificada como um evento excecional no sistema elétrico, estando em cima da mesa a possibilidade desta classificação envolver as tempestade subsequentes — a Leonardo já passou, a Marta vai passar este sábado — que agravaram as dificuldades de restabelecimento do serviço e deixaram mais clientes sem energia.

A tempestade que mais pessoas afetou, um total de 1,7 milhões, foi a dupla depressão Elsa e Fabien de 2019, mas o tempo sem serviço foi mais curto. É claro que o recorde absoluto neste indicador será o apagão de 28 de abril que afetou todos os pontos de abastecimento em Portugal durante horas, mas a ERSE ainda aguarda pelo relatório final da ENTSO-E (associação de operadores de rede europeus) para o classificar como evento excecional. O custo de repor o serviço não se compara com o que vai ser suportado por causa da destruição física da infraestrutura pela Kristin.

Sendo um evento dessa natureza, uma parte dos custos de reparação terá de ser suportado pelo sistema elétrico e pelas tarifas pagas pelos consumidores. O cenário não é descartado pelo secretário de Estado da Energia em entrevista à rádio Observador. Mas Jean Barroca considera prematuro indicar qual poderá ser esse impacto e não avançou com estimativas financeiras.

Impacto da depressão Kristin na rede elétrica vai ser incorporado no custo do sistema, mas ainda é cedo para contabilizar efeito na fatura

As contas não estão feitas porque é preciso contabilizar o que foi destruído e planear a forma como vai ser reconstruído — no imediato com soluções mais provisórias para acelerar a reposição do fornecimento —  mas também no médio e longo prazo com opções que assegurem maior resiliência e nas quais se incluem o recurso a mais rede subterrânea.

Outra variáveis no custo passam pelo grau de cobertura dos danos pelos seguro e ainda pela vontade de Portugal, longe de estar ainda assegurada, de ir buscar fundos europeus que estão previstos para aumentar a resiliência das redes.

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Jean Barroca assinala que o sistema elétrico nacional tem por ano um negócio de 6 mil milhões de euros, o que é bastante significativo. Todos os anos há custos e contingências incluídas nas tarifas. Mas também é preciso perceber que parte destes investimentos são depois anualizados.

Uma coisa é certa. O impacto para as tarifas não será no curto prazo. “Os custos associados a eventos excecionais de grande impacto são apurados pelos operadores de rede e reportados à ERSE, conforme previsto no Regulamento da Qualidade de Serviço dos setores elétrico e do gás”. E a fatura de cada ano será avaliada para definir o “nível de referência de custos, no pressuposto de uma gestão eficiente, a recuperar pelas tarifas no período de regulação seguinte, que no presente caso tem início em 2030“.

Os danos causados nas infraestruturas elétricas pela depressão serão quantificados de forma detalhada pelos operadores da rede — neste caso a REN (Redes Energéticas Nacionais) e a E-Redes — bem como quanto custaram as ações de resposta e reposição do serviço. Essa informação é posteriormente sujeita a análise pela ERSE.

Em paralelo, a REN e E-Redes submetem a cada dois anos planos de investimento que incluem projetos específicos destinados a promover a resiliência das redes, reduzir a sua vulnerabilidade a eventos climáticos extremos e mitigar os impactos de ocorrências futuras.

A proposta para a rede de distribuição entre 2026 e 2030 contempla, aponta a ERSE, projetos que melhoram a resiliência das redes, tais como: a renovação da rede de AT (alta tensão)/MT (média tensão), a modernização, expansão e digitalização das redes, bem como a abertura e restabelecimento da rede secundária de faixas de gestão de combustível. É no quadro destes planos que serão avaliadas intervenções ao nível do enterramento de mais rede do que o agora previsto.