O campeonato de 2026 ainda nem sequer começou e já há a primeira “novela” desta nova era. A Mercedes terá encontrado um truque que lhe poderá dar uma vantagem significativa em pista, algo que as restantes construtoras de unidades motrizes estão a tentar contrariar.
A lista de mudanças, comparativamente à era anterior que terminou em 2025, é enorme, mas há pontos que têm despertado maior atenção. Um deles é a redução da taxa de compressão de cerca de 18:1 para um limite máximo de 16:1.

Pressão e Taxas de Compressão
A taxa de compressão é a relação entre o volume do cilindro quando o pistão está no ponto morto inferior e o volume quando o pistão está no ponto morto superior, geralmente expressa em forma de razão (por exemplo, 16:1 significa que a mistura ar/combustível é comprimida a um volume 16 vezes menor). Quanto maior esta relação, mais a mistura é comprimida antes da ignição, o que tende a aumentar a eficiência térmica e a potência extraída, embora também eleve temperatura e pressão internas e, portanto, o risco de detonação e a exigência sobre materiais e combustível.
A redução do rácio de compressão máximo dos motores térmicos de Fórmula 1 para 16:1 em 2026 surge como uma opção deliberada para travar ganhos excessivos de potência no motor de combustão e recentrar a performance na componente elétrica e na eficiência global do conjunto. Limitando picos de potência e a eficiência máxima alcançável por soluções muito agressivas, valoriza‑se ainda mais a gestão de energia elétrica e a aerodinâmica (incluindo a ativa), já que o motor térmico passa a ter menor margem para ganhos significativos apenas pela combustão.
Shakedown: Debriefed ✅
Bringing our Lauda Drive team together for the first time in 2026 to look back on Barcelona, and continue preparations for the season ahead 💪 pic.twitter.com/ZlXlqDFvh3
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) February 4, 2026
O truque que a Mercedes terá encontrado
A polémica centra‑se no facto de os regulamentos determinarem que o rácio de compressão é verificado à temperatura ambiente, existindo suspeitas de que a Mercedes poderá operar a valores efetivos superiores quando os motores estão quentes. Os engenheiros de Brixworth terão encontrado uma solução que permite estar conforme o exigido nos regulamentos à temperatura de teste, mas aumentar a taxa de compressão a temperaturas mais elevadas, provavelmente recorrendo a uma combinação específica de desenho de câmara de combustão e materiais que alteram ligeiramente o volume efetivo em funcionamento.
Confrontadas com este cenário, as restantes construtoras de motores mostraram‑se contra, com alguns responsáveis a exigirem mudanças, nomeadamente no método de medição da taxa de compressão (as construtoras unidas pretende que a medição seja feita com o motor quente). Reuniões recentes com a FIA envolveram especialistas técnicos e grupos de trabalho dedicados às unidades motrizes, mas, apesar dos rumores, não resultaram em alterações imediatas às regras. Ainda assim, fabricantes como Ferrari, Audi e Honda, que já tinham manifestado preocupações formais, terão conquistado também o apoio da Red Bull.

Quatro fabricantes unidos
Aparentemente, a Red Bull terá também explorado a possibilidade de aumentar a taxa de compressão usando um conceito semelhante ao suposto truque da Mercedes, mas, não encontrando um caminho suficientemente promissor, parece agora alinhar‑se com a Audi, a Honda e a Ferrari. Com quatro fabricantes potencialmente alinhados, existiria base para alcançar a maioria qualificada exigida para uma mudança imediata — desde que a FIA e a FOM concordem. Porém, tudo indica que a FIA continua a defender a interpretação atual. Além disso, o calendário joga contra uma revisão rápida: com a homologação final das unidades motrizes prevista para o início de março, seria extremamente difícil alterar projetos de raiz antes da primeira corrida. Assim, mesmo que haja consenso político, uma eventual revisão só deverá entrar em vigor mais tarde, possivelmente em 2027.
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— Oracle Red Bull Racing (@redbullracing) January 29, 2026
Mercedes defende-se
A Mercedes tem defendido a sua posição veementemente, com Toto Wolff a assumir o papel de principal porta‑voz da equipa, acusando as outras estruturas de se reunirem em segredo para tentar condicionar a legalidade da sua unidade motriz. O responsável da equipa alemã sublinha que todo o processo de desenvolvimento foi feito à luz dos regulamentos da FIA e que a Mercedes entrou em contacto com o órgão federativo para esclarecer antecipadamente a legalidade da sua filosofia de unidade motriz, recebendo garantias de conformidade. Ola Källenius, presidente do Conselho de Administração da Daimler AG e chefe da Mercedes-Benz, já admitiu que a Mercedes poderá levar o caso até às últimas consequências, com a ameaça de processo judiciais a pairar.
Assim, de um lado está a Mercedes a tentar defender‑se praticamente sozinha de um ataque que agora conta com as restantes quatro fabricantes de unidades motrizes; do outro, uma FIA que, em conjunto com a FOM, terá de decidir se mantém a interpretação atual ou se avança para alterações de curto prazo — algo pouco plausível, dada a proximidade da data final de homologação dos motores.
Fotos: Mercedes e Honda