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Mulher de 65 anos relata como é viver com as duas doenças e os impactos na rotina; especialistas explicam os quadros de saúde
João Pedro Rehberger
08 Fev 2026 14:00
Tudo começou há cerca de quatro anos, quando Ana Maria Carrer Tosta passou a sentir choques no lado esquerdo do rosto. Sem dar muita importância no início, ela minimizou o sintoma. Com o tempo, porém, as dores se intensificaram, o que a levou a procurar um dentista. O profissional descartou causas odontológicas e, posteriormente, Ana buscou um neurologista que, após dois anos de investigação, diagnosticou neuralgia do trigêmeo.
Ana tem 65 anos e, destes, 40 foram dedicados à profissão de secretária acadêmica, cargo que ainda exerce em Ribeirão Preto. “Adoro meu trabalho e, sobretudo, o ambiente acadêmico. Sempre fui muito alegre e bem-humorada”, conta. O estilo de vida, no entanto, mudou com o diagnóstico. “Meu médico receitou medicamentos que não estavam ajudando. Ele disse que eu teria que me adaptar, porque a cirurgia não era recomendável para a minha idade.” Abalada, Ana relata que passou a se sentir irritada e triste com frequência.
O neurocirurgião Ricardo Santos de Oliveira, professor associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e chefe da Divisão de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP-USP), explica que a neuralgia do trigêmeo é uma dor facial causada por irritação ou hiperexcitabilidade do nervo trigêmeo, principal nervo sensitivo da face. “Os sintomas mais comuns são dores súbitas e intensas, em forma de choque, que podem durar segundos ou minutos, geralmente localizadas nas bochechas, maxilares e mandíbulas”, detalha.
Segundo o especialista, gatilhos simples podem desencadear as crises, como tocar ou lavar o rosto, vento na face, escovar os dentes, mastigar, falar e até sorrir. A intensidade dos sintomas faz com que a neuralgia do trigêmeo seja popularmente conhecida como “a pior dor do mundo”.
Após um ano sem expectativas de melhora, Ana decidiu procurar outro neurologista, que prescreveu uma nova medicação. “Comecei o tratamento e um mundo de esperança se abriu para mim. As dores e choques passaram e fiquei um ano sem sofrer nada”, relata.
Oliveira destaca ainda que a forma clássica da doença é mais comum em pessoas acima de 50 anos, com predominância em mulheres. Ele alerta que os sintomas também podem estar associados à hipertensão arterial, problemas neurovasculares ou tumores cerebrais. “Não há uma forma comprovada de prevenção primária. O essencial é o diagnóstico precoce, assim que o quadro se inicia com dores faciais”, afirma.
Descoberta da apneia obstrutiva do sono
Mesmo com a melhora proporcionada pelo novo tratamento, um médico desconfiou da qualidade do sono de Ana. Após exames, ela foi diagnosticada com apneia obstrutiva do sono (AOS) grave.
“A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a pessoa para de respirar várias vezes durante o sono devido ao colapso ou obstrução das vias aéreas superiores. A musculatura da cavidade oral relaxa em excesso, bloqueando a passagem de ar, diminuindo a oxigenação cerebral e provocando microdespertares para retomar a respiração”, explica Guido Bighetti, professor do curso de Medicina da Unaerp e cirurgião de cabeça e pescoço.
Embora não haja associação direta entre a neuralgia do trigêmeo e a AOS, o especialista afirma que pode existir uma relação indireta em alguns casos. “A hipóxia — falta de oxigênio no cérebro — gerada pela apneia pode, ao longo do tempo, aumentar a inflamação sistêmica do organismo e provocar disfunções autonômicas e vasculares, afetando o sistema nervoso”, diz.
De acordo com Bighetti, alguns grupos têm maior probabilidade de desenvolver AOS grave, especialmente por questões anatômicas. Fatores como obesidade, uso de medicamentos sedativos, tabagismo e ingestão de álcool antes de dormir também influenciam. “A prevenção está associada ao controle do peso, prática de atividade física, abandono do tabagismo, redução do consumo de álcool à noite e manutenção de uma rotina regular de sono”, orienta. A apneia também pode desencadear ou agravar doenças como hipertensão, infarto, AVC e diabetes.
No caso de Ana, os sintomas são intensos. Segundo ela, são entre 65 e 70 apneias por hora, o que significa parar de respirar mais de uma vez por minuto. A condição também voltou a impactar as crises de neuralgia. “Com essa descoberta, há cerca de um mês, elas começaram a voltar. Fiquei muito triste, pensando que aquele inferno estaria retornando”, relata.
Para tratar o problema, Ana recebeu a indicação do uso do CPAP — aparelho que impulsiona o ar pelas vias respiratórias e mantém a oxigenação adequada durante o sono. O equipamento, porém, tem custo elevado de aquisição e manutenção.
Novas esperanças
Com o objetivo de arrecadar recursos para comprar o CPAP, Ana gravou um vídeo contando sua história e publicou no Instagram em 7 de janeiro. Além de relatar a situação, disponibilizou a chave Pix para doações. O vídeo ultrapassou 8 mil visualizações.
No dia 16 de janeiro, ela publicou uma nova gravação com uma atualização positiva: conseguiu adquirir o aparelho e iniciou o tratamento. “Recebi muitas manifestações de carinho, força e coragem, até de pessoas que não conheço. Ainda falta uma parte do valor para quitar, mas agora consigo dormir sem apneias e sonhar um sonho inteiro. As dores da neuralgia ainda permanecem, mas tudo pode melhorar, com a graça de Deus. Muito obrigada”, agradece.
Como a própria Ana relata, ainda resta parte do valor do equipamento a ser paga. Interessados em ajudar podem contribuir por meio da chave Pix: 16 997284005.
Foto: arquivo pessoal