Tradicionalmente associado ao enoturismo, o Douro é muitas vezes apresentado como um destino reservado aos apreciadores de vinho. No entanto, a região tem muito para oferecer, mesmo a quem não se revê nesse perfil.
O ponto de partida desta reportagem é simples: perceber o que acontece quando alguém visita uma região vinícola sem apreciar vinho e se esta está, de facto, preparada para receber quem não partilha desse interesse. A resposta, seja ela qual for, constrói-se ao longo de três artigos, que acompanham uma viagem desde o coração do Douro até à foz, no Porto, passando por diferentes experiências, lugares, paisagens, pessoas e formas de viver a região.
O objetivo não é ignorar o vinho, mas mostrar que ele não precisa de ser o único protagonista. Seja a viajar sozinho, ou na companhia de amigos e/ou familiares que apreciam uma boa prova, esta é uma tentativa de mostrar como se pode usufruir destes lugares sem se sentir à parte, explorando tudo o que existe para lá do copo.
Depois de dois dias solarengos passados a explorar o Douro, com passagens pelas quintas centenárias do Panascal e da Roêda, vários momentos à mesa e paisagens de cortar a respiração, rumamos até à Invicta, cidade com profundas ligações ao Douro Vinhateiro.
Durante séculos, as pipas de vinho eram transportadas em barcos rabelo desde o Alto Douro até Vila Nova de Gaia, onde o vinho era armazenado, envelhecido e depois exportado. O rio era estreito e perigoso antes das barragens, e só estas embarcações de fundo achatado e vela quadrada conseguiam fazer o percurso com segurança, estabelecendo assim uma ligação vital entre as quintas do interior e o cais, sustentando o comércio de vinho do Porto.
A última paragem desta aventura leva-nos ao The Yeatman, um hotel vínico de cinco estrelas com uma vista privilegiada sobre a Ribeira e a Ponte D. Luís I, situado no Centro Histórico de Vila Nova de Gaia, junto às antigas caves de Vinho do Porto.
![]()
Vista a partir de um dos alojamentos do The Yeatman
Créditos: © Ana Caetano
À primeira vista, assim que entramos no hotel, que tal como a The Manor House Celeirós e o The Vintage House Hotel é propriedade da The Fladgate, tudo parece confirmar a sua identidade vínica. Da imponente estátua de Baco, deus do vinho, no centro da escadaria principal, às referências que se estendem pelos corredores – seja nos quadros ou nos quartos dedicados a diferentes produtores –, sem esquecer a garrafeira (uma das mais completas do mundo), tudo parece convergir numa só linguagem: a do vinho.
![]()
Estátua de Baco no The Yeatman
Créditos: © Ana Caetano
Inconscientemente, a pergunta que nos surgiu de imediato foi evidente: será que há espaço aqui para quem não bebe ou para quem, por alguma limitação ou preferência, prefere usufruir das experiências de outra forma?
A resposta começou a surgir logo durante o almoço no restaurante Gastronómico. Liderado pelo chef Ricardo Costa desde 2010, o restaurante, com duas estrelas Michelin, é também o único português numa lista de 97 espaços espalhados por todo o mundo distinguidos com o Wine Spectator’s Grand Award, no Restaurant Awards de 2025.
![]()
Chef Ricardo Costa
Créditos: The Yeatman
Sendo uma das premissas do Gastronómico “oferecer ao cliente a possibilidade de viajar pelas diferentes e distintas regiões vinícolas de Portugal”, e sendo a harmonização vínica parte central dessa proposta, foi uma agradável surpresa sermos recebidos com a possibilidade de acompanhar o menu de degustação com uma harmonização não alcoólica.
Mais surpreendente foi o facto de não se tratar de uma proposta “plano B”, mas sim de algo pensado com o mesmo rigor e cuidado que a harmonização vínica, sobretudo por ser feito um esforço para que cada bebida não alcoólica acompanhe o menu com o mesmo ritmo que o vinho. Se um prato pede um tinto, a alternativa é igualmente escura e densa; se pede algo mais fresco é-nos servida uma proposta mais leve e aromática.
![]()
Uma das propostas da harmonização não alcoólica
Créditos: © Ana Caetano
O resultado são as mais variadas criações que vão desde um kefir de pêra até uma combinação de frutos vermelhos, laranja, menta e água tónica, pensada para se assemelhar a um Porto Tónico Rosé.
Aquela sensação de “ficar de fora” ou de “estar a viver uma experiência menor”, que tantas vezes acompanha quem não bebe vinho, dissolve-se rapidamente, uma vez que tudo é pensado para que a experiência seja completa, independentemente do que se tem no copo.
Esta harmonização não alcoólica tem um custo de 120€ por pessoa e pode ser escolhida como alternativa à harmonização vínica, que custa 130€ ou 260€, consoante a seleção. Ambas acompanham o menu de degustação, cujo valor é de 260€ por pessoa.
O menu, sazonal e renovado todos os anos, é, tal como em todos os momentos em que nos sentámos à mesa durante esta viagem, uma porta de entrada para a região: profundamente ligado ao território, às referências ao Douro, ao mar, à gastronomia portuguesa e às memórias de infância do chef. Na nossa memória fica o delicioso leitão, um dos pratos mais emblemáticos do percurso de Ricardo Costa, cujo único pecado foi não vir em dose maior.
De momento, restaurante encontra-se encerrado sazonalmente até ao dia 13 de fevereiro, mas voltará a abrir portas já no dia 14 de fevereiro, funcionando de terça a sábado apenas ao jantar com turnos às 18h30, 19h30 e 20h30. As reservas podem ser feitas através do site oficial.
![]()
Algumas das propostas do Menu de Degustação do The Yeatman
Créditos: © Ana Caetano
Mas o The Yeatman não se resume ao Gastronómico. Depois do momento à mesa, segue-se a última experiência desta viagem: o spa vínico, cuja filosofia, tal como na harmonização não alcoólica, é mostrar que o vinho pode ser o ponto de partida, sem ser necessário bebê-lo para usufruir da experiência.
E é exatamente isso que sentimos ao entrar no spa: através dos cheiros e dos sons, percebemos que a ligação ao vinho não se faz só pelo copo (naturalmente, para quem gosta, também é possível beber durante a experiência), mas sobretudo pelos restantes sentidos. Os tratamentos recorrem a extratos de uva, grainhas e outros produtos da vinha valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e regeneradoras.
A oferta de serviços é variada, estendendo-se desde massagens, tratamentos faciais e corporais, a cuidados de beleza como manicure e pedicure, para além de programas que combinam várias experiências. Tivemos o prazer de experimentar a Experiência Vínica (150€/60 minutos), conduzida pela maravilhosa Débora, uma das massagistas do spa. A massagem foca-se no relaxamento profundo das costas, cabeça e pescoço, complementada pelo posicionamento de sacos de grainhas de uvas aquecidos em pontos de tensão. No final, somos convidados a pisar as grainhas, num ritual inesperado que nos desperta lentamente.
![]()
A piscina interior do spa com vista para a Ribeira e ponte D. Luís I
Créditos: The Yeatman
Ao fim de três dias, a resposta à pergunta que deu origem a esta reportagem é clara: sim, é possível visitar o Douro sem gostar de vinho, mas o mais importante é que é possível fazê-lo sem cedências, sem sentirmos que estamos a viver uma versão reduzida da região. Da mesa ao spa, das quintas às paisagens, encontra-se um território cada vez mais atento à diversidade de quem o visita, capaz de oferecer experiências completas e mais inclusivas. O vinho continua a ser parte fundamental da identidade duriense, sempre o será, mas não é o único fio condutor. Para quem não bebe, o Douro não é um destino improvável, mas sim uma bela descoberta.
O SAPO esteve no Douro a convite da Fladgate.