Portugal testemunhou ao longo das últimas semanas uma combinação insólita de factores que criou “as condições quase perfeitas” para “o comboio de tempestades talvez mais longo” de que se tem memória, afirmou Pedro Matos Soares, físico da atmosfera, durante uma videoconferência sobre o clima organizada segunda-feira pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Matos Soares procurou estabelecer uma ponte entre conceitos distintos – o clima e o olhar imediato para a atmosfera da meteorologia –, sublinhando que o país está a viver algo fora do comum. Segundo o investigador, a combinação de uma corrente de jacto mais a sul, uma persistência anómala do anticiclone na Escandinávia e a um rio atmosférico vindo das Caraíbas criou “condições quase perfeitas” para a intensidade e duração das tempestades que estão a marcar o Inverno português.

“É uma conjunção quase perfeita para termos, pelo menos na minha memória, o comboio de tempestades mais longo, em muitos anos”, afirmou o investigador.

Este alinhamento excepcional de factores não só explica a repetição de tempestades — Ingrid, Joseph, Kristin e Leonardo — como a sua severidade. Sobre a devastadora Kristin, Matos Soares sublinhou que se tratou de um fenómeno que, do ponto de vista climático é “insólito, singular em Portugal”. Foi agravado pela presença de um sting jet, um jacto descendente de vento raro na costa portuguesa, mas capaz de amplificar danos.

O aumento da energia disponível na atmosfera devido ao aquecimento global pode tornar episódios semelhantes mais frequentes no futuro, reforçou.

Intitulada “Afinal, o que se passa com o Tempo?”, a sessão online reuniu cinco investigadores do Instituto Dom Luiz para explicar esta sucessão de episódios extremos. Além de Matos Soares, participaram Alexandre Ramos, Carlos da Câmara, Gil Lemos e Rita Cardoso.

Não faltará água no Verão?

Com tanta água acumulada, continuará o país a enfrentar problemas de seca no Verão? A resposta de Gil Lemos procurou distinguir entre seca meteorológica e disponibilidade de recursos hídricos. Embora admita que nada impeça uma reviravolta rápida rumo a um período seco — como já aconteceu em anos recentes —, para já, o país não está vulnerável.

“Temos as barragens bastante cheias, tivemos muita infiltração da água para os aquíferos do subsolo e, portanto, o mero facto de não chover não quer dizer que nos traga uma grande problemática, pelo menos este ano”, explicou o investigador do Instituto Dom Luiz.

Gil Lemos insistiu, porém, que a incerteza permanece elevada. “Nada nos garante que não possamos entrar nas próximas semanas ou meses num período seco”, afirmou. Os modelos sazonais ainda não oferecem uma imagem clara da Primavera e do Verão.

Mesmo assim, há um optimismo moderado: “Mesmo que haja um período mais seco daqui para a frente, felizmente temos ainda água, pelo menos para este ano.”

Portugal, região de transição

Os investigadores insistiram na importância de compreender Portugal como uma região “de transição”, especialmente sensível a oscilações nos padrões atmosféricos de larga escala. Isso explica por que a anos muito secos se podem suceder invernos excepcionalmente chuvosos, e por que é que a percepção pública de que “já não há estações do ano” nem sempre coincide com o que se observa nos dados.

Por ser um país exposto a extremos, os investigadores sublinharam a importância de haver uma preparação mais robusta para enfrentar riscos climáticos. Pedro Matos Soares sublinhou uma falha profunda na forma como Portugal avalia, regista e gere impactos.

“Não conhecemos os danos das catástrofes em Portugal. Temos episódios após episódios extremos e quando se pede ao Estado quais foram os danos destas tempestades, ninguém sabe. Não existe um sistema central que nos permita dizer às pessoas que vale a pena prevenir”, afirmou. Esta ausência compromete a capacidade de planear e reduzir perdas materiais e humanas, defendeu.

Matos Soares insistiu que a prevenção depende não só da ciência ou da tecnologia, mas sobretudo de governação e de políticas públicas coerentes. “Só conseguimos enfrentar [estes problemas] com um sistema centralizado de avaliação do risco climático em todas as vertentes e a fazer política à escala nacional, regional e municipal em função disso. Só assim conseguimos proteger as pessoas e a economia”, disse o físico da atmosfera.

“Não estamos preparados para o clima presente, nem para o clima passado, quanto mais para o futuro”, afirmou. Em Portugal continua a tomar-se decisões de ordenamento do território “pensando no clima do século XIX ou de 1942 ou 43”, ignorando que as infra-estruturas actuais — de pontes a saneamento, de urbanização a redes energéticas — têm horizontes de vida de 50 a 100 anos. “Temos de perceber como é o clima agora e como é que será no horizonte temporal das nossas infra-estruturas críticas. Caso contrário, teremos um problema.”