Vemos luzes, uma bateria, portas com estrelas. Estamos claramente num teatro. Ouve-se uma secção de cordas a tocar de Rainbow connection, a mesma canção que o Sapo Cocas tocava e cantava ao banjo no meio de um pântano em 1979, no início do clássico filme As Aventuras dos Marretas. Esse mesmo sapo puxa um interruptor e as luzes ligam-se. Vemos o palco. Passamos por um corredor e vemos fotografias na parede, de Miss Piggy com Harry Belafonte ou o Sapo Cocas com Steve Martin (de banjo na mão e flecha a atravessar a cabeça) e Debbie Harry. O sapo atravessa o corredor e senta-se à secretária. Ao lado dele está Rowlf, ao piano, a tocar. A seguir ouve-se ainda Movin’ right along, outra parte fundamental da banda sonora do já mencionado filme.
O Muppet Show, o caótico programa de variedades montado por um grupo de marionetas que foi criado por Jim Henson e originalmente transmitido entre 1976 e 1981, está de volta – Belafonte, Martin e Harry foram convidados clássicos, todos com momentos musicais icónicos: há alguém que tenha visto esse episódio que não tenha ficado com Belafonte a cantar Turn the world around na memória? É um especial Disney+ saído na semana passada (a plataforma também tem os filmes e a série original, a Disney comprou os direitos de tudo isto à Jim Henson Company em 2004). É só por uma noite, mas se correr bem, volta mais tempo. Sabrina Carpenter é a convidada principal, mas Seth Rogen, que é também o produtor executivo, e Maya Rudolph também aparecem.
É realizado por Alex Timbers, que tem uma extensa carreira na Broadway e no teatro musical, co-criou a série Prime Video Mozart na Selva e esteve atrás das câmaras em vários especiais de John Mulaney, e escrito por um misto de argumentistas experientes. Alguns têm tarimba em programas de late night, como Nedaa Sweiss ou Albertina Rizzo, argumentista da série cómica I Love That For You que também escreveu para os Globos de Ouro, tal como Gabe Liedman, que fez currículo em séries como PEN15, Loot, Brooklyn Nine-Nine ou Broad City. Há ainda gente que trabalhou noutras séries dos Marretas, como Andrew Williams e Kelly Younger, nome do teatro nova-iorquino que escreveu o filme de Natal Candy Cane Lane, de Reginald Hudlin.
A voz de Cocas, originalmente do próprio Henson, que morreu em 1990, não é a mesma. Está a cargo de Matt Vogel (também marionetista, como é a regra aqui) desde 2017, e há algo ali que não funciona muito bem, mas o espírito está lá. A premissa de um grupo de amadores entusiásticos a tentar montar um espectáculo que corre mal é tudo o que é necessário para isto. Houve várias séries e programas de Marretas nos últimos anos, mas nenhum deles fez o que é feito aqui: fazer o programa original sem reinventar a roda, mas também sem ignorar o ano em que estamos. Tudo encabeçado por gente com reverência pelo passado, algo que é dito e mostrado vezes a toda a hora, e com piada.
Ao longo do episódio, Sabrina Carpenter diz a Miss Piggy que a idolatra, que copiou todo o estilo dela, ao que Piggy responde que ela e a respectiva a equipa de advogados repararam. Fica-se com muita curiosidade para o filme centrado na diva que Jennifer Lawrence e Emma Stone estão a produzir para ser escrito pela mente inventiva e retorcida de Cole Escola. Entre outras coisas, há demasiados convidados e é preciso cortar alguém, com drama nos bastidores, há uma paródia de Bridgerton com Piggy, Gonzo tenta fazer uma acrobacia enquanto diz o nome de vencedoras do Óscar de melhor actriz secundária (o nome de Dianne Wiest raramente foi tão bem usado), Rizzo encabeça uma versão de The Weeknd, Carpenter canta com o Sapo Cocas e Miss Piggy, Statler e Waldorf dizem mal de tudo no camarote… É Marretas clássico. Mesmo que não haja mais, já valeu a pena.