Eis algo para nos fazer sentir bem separados da (suposta) “realidade mediática”. Passamos o visionamento de La Vie de Maria Manuela a pensar que a única graça deste filme esquálido, superficial, meramente esboçado, estava na ideia de “inventar” uma estrela, pegar numa rapariga vinda de algures da ruralidade portuguesa, uma rapariga um pouco excêntrica e com um sentido agudo do seu próprio espectáculo, mas uma rapariga “normal”, igual a milhares de outras pelo país fora, e tratá-la como uma grande vedeta. Mas depois vai-se investigar e percebe-se que não é nada disso, a star já nasceu, Maria Manuela é uma influencer muito popular no TikTok e redes conexas, e até já foi concorrente ao Big Brother Famosos — perceber isso é ver a “realidade mediática” a desabar-nos em cima como um universo paralelo a colidir com o nosso.
Também é o momento em que, esgotada a possibilidade da performance ficcional como raiz e motor de La Vie de Maria Manuela, o seu parco interesse desaba.
Teríamos muito prazer em conhecer Maria Manuela, mas o filme não nos dá a conhecer nada, parece ele próprio uma colecção de reels e afins para exibição em redes sociais, não tem perspectiva que não se confunda com uma forma promocional, raramente abre o quadro para englobar o lugar de Maria Manuela (que nas redes tem o cognome de Marie) na sua sociedade e na sua família, e quando o faz fá-lo sempre abreviadamente, quase aleatoriamente (ver a cena, cheia de nada, com o pai e as fundações da nova casa familiar, perto do fim).
Repare-se bem no que dizemos: esta Maria Manuela dita Marie seria um assunto de documentário (ou de ficção) tão bom como outro qualquer, e este filme podia ser um Na Cama com Madonna à escala do nosso entretenimento popular. Mas não é, infelizmente, nada que se assemelhe.