“Hamnet” é um dos melhores filmes que já vi na vida. Antes de seguir, aviso que darei fortíssimos spoilers durante a crônica.

Chorar com histórias de mães que perdem filhos ou com percalços infinitos que resultam em finais triunfantes é uma constante na vida de cinéfilos. Mas chorar porque, além de estarmos assolados por cenas tão fortes e belas e tristíssimas, estamos embasbacados com a grandiosidade de uma obra, é uma experiência rara e memorável.

Eu chorei de alagar o peito, de passar vergonha, de ressuscitar rinites, de seguir chorando por um tempo até chegar em casa. Eu chorei porque, no dia em que tinha lido com mais detalhe sobre os arquivos Epstein (e senti um medo e um nojo que ultrapassam a minha capacidade e a minha experiência), fui salva pela arte de uma forma excepcional e irrevogável. Este filme é exatamente o oposto de tudo o que é podre e horrível e masculinista e está nos jornais e encalacrado em nossas vidas.

Para começar, é um filme que tem a ousadia de retratar um fragmento importantíssimo da história do magnífico William Shakespeare e, numa sacada genial, a gente só escuta o seu nome no final do segundo ato, quando Agnes, curiosa sobre a nova peça do marido, vai atrás dele em Londres.

Will estava ali meio angustiadão, escrevendo uns garranchos nuns pedaços de papel, dando soquinhos na mesa, quando sua mulher decide: vai lá tentar ser artista, então, e deixa que eu seguro as pontas aqui com as crianças. Nessa hora, tenho certeza de que mulheres do mundo inteiro pensam: era para ser a história do Shakespeare, mas será que a diretora Chloé Zhao está falando de mim?

A trama é toda sobre a dor excruciante da mãe que ficou em casa com as crianças e perdeu uma delas para a peste bubônica. Da mulher que entende não só de florestas, bruxarias, remédios, partos, crianças, relações, psique humana, como ainda é interpretada por Jessie Buckley —e, neste momento, não consigo pensar em nenhuma outra atriz que alcance tamanha entrega e sofisticação dramática.

Somos seres estragados por pequenas telas e seus picos de dopamina. “Hamnet” explodiu o tempo lógico, anestesiou meu corpo, silenciou toda a vida que eu levo quando não estou em um encontro absoluto com o cinema. Eu me senti ali tão inteira quanto foram as atuações, a direção, o roteiro, a fotografia, a trilha. “Hamnet” é um filme escandalosamente maduro e comprometido, e assim fui convocada a me portar.

Colunas

A arte que nasce de um luto insuportável, de um último recurso diante do precipício e da decisão de “não ser” bastaria como enredo, mas essa arte que apazigua a maior das dores e faz Agnes Shakespeare soltar uma gargalhada diante do palco (diante do filho prestes a morrer encarnado no palco) é a resposta mais audaz e deslumbrante perante a finitude. E nessa cena, nessa gargalhada infantil da mãe enlutada e envelhecida, na montanha de mãos de espectadores sobre a mão do ator, a gente conclui que a arte vai ainda mais longe: ela não só provoca, chama para a batalha, mas também vence a morte. Em uma das cenas mais tristes do filme, a mãe de Shakespeare diz para Agnes que ninguém vence a morte. Ela estava errada.

E o conforto, a beleza, o tamanho disso! Está tudo ali. Na gargalhada da mãe e da atriz. Que filme, amigos!

E fica uma pergunta em nossos corações: Shakespeare seria só mais um esquerdomacho se não tivesse se tornado Shakespeare? (Melhorem, rapazes do século 21!)


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